28.11.17

Presépio

Naquele dia, também o senhor Pereira foi conhecer Alice. Em boa verdade, foi quase o mundo inteiro, porque a avó anunciou pelas ruas que a filha havia de aparecer na papelaria a partir das quatro para mostrar a menina. Ao que eu soube, ninguém se descoseu ou provocou embaraços perguntando o que era feito do pai. Alice foi visitada, apaparicada e adorada como qualquer outra criança e sobre ela se fizeram apenas as perguntas que é costume fazer, pega bem na mama, dá noites boas, gosta do banho? Alguns levaram presentes, outros deram carinho bastante para prescindir de os levar. Se a esta hora viesse o pai espreitar com disfarce de mosquinha, veria a inutilidade e até o despropósito da sua existência e talvez, de orgulho ferido, quisesse reclamar o posto tradicional naquela nova família. Não me levem a mal os homens por isto que digo nem julguem que pretendo semear na cabeça das mulheres ideias de desprezo ou egoísmos. Apenas lembro o que já todos sabemos: que cada um tem a importância merecida ou conquistada pela via dos seus atos. E que, como é uso o povo dizer, só faz falta quem cá está ou, neste caso, quem realmente quer estar.
Foi o senhor Pereira que me pôs a par de tudo isto, porque à hora em que eu fui conhecer Alice, já todos tinham dispersado. Contou-me também que a mãe não autorizou ninguém a pegar na menina mas deixou que a beijassem na moleirinha e lhe sussurrassem ao ouvido bênçãos e votos. A avó, muito dona do seu nariz e da sua descendência, essa parecia posar para um retrato e em nenhum momento mostrou mais apreensão do que contentamento. Disse-me ainda o senhor Pereira, em jeito de remate, que naquela hora a papelaria se encheu e iluminou como um presépio em noite santa. E ao dizê-lo, atrapalhou-se, fungou e virou a cara, mas eu ainda fui a tempo de ver o brilho líquido com que um homem desastrado e um pai magoado assomaram aos seus olhos.