28.10.17

Três irmãs

Muitas vezes, durante a infância, escutei conversas sobre a beleza das minhas três irmãs. A vizinha do lado, por exemplo, costumava lamentar-se à minha avó: as suas netas são tão lindas e a minha é tão feia, tão grosseira, que valha-me Deus! Havia quem achasse que a mais bonita era a mais velha, porque a tez escura ressaltava as esmeraldas dos olhos e a sua face era tão encantadoramente superior aos piropos como às perturbações da vida. O otorrino dizia que jamais vira nariz tão perfeito como o dela. Caminhava aos saltinhos. Por outro lado, se havia rapaziada em magotes a tocar lá em casa, era na maioria das vezes por causa da do meio, que tinha o número dois misteriosamente impresso na íris, sabia poemas de cor e atiçava fogos por dá cá aquela palha. Era muito vaidosa, às vezes excêntrica, quase sempre ousada. Caminhava sem pisar o chão e sabendo que a olhavam. A terceira era a loirinha, a ruça, uma beleza de rapariga sem um fio de cabelo fora do lugar, sorria com ternura, falava com mansidão, mas que Deus se compadecesse daqueles que lhe mexiam em feridas e sensibilidades ocultas, porque a ruça era, afinal, de mau pelo. Tinha tal firmeza e solidez no andar que nem que a perseguissem ela perdia a elegância. A mais velha levava-me à missa e lia-me Condessa de Ségur como quem cumpria um dever de cuidar, a do meio recitava-me Fernando Pessoa e todos os heterónimos como se me contasse um segredo, a terceira explicou-me como se faziam os bebés e, sem me olhar nos olhos, foi avisando que, mais cedo ou mais tarde, o meu corpo havia de sangrar.
Comentavam-se as suas graças e atributos nas costas delas e na minha cara, sem receio de me ofender pela exclusão. À época ainda me faltava idade para entrar na corrida. E, de resto, eu estava tranquila porque se havia quem dissesse que eu era cópia da do meio, outros me atribuíam as feições da terceira, e, de uma forma ou de outra, achava-me bem servida. A verdade é que nenhuma originalidade sobra para os caçulas. Somos sempre a mescla dos que se fizeram antes. Vale-nos o tempero das liberdades consentidas pelo amolecer da autoridade paterna, que se imprimem naturalmente na forma e no feitio. Assim, ganhei o hábito de me prever só de olhar para elas, leio-as com expectativa, como outros leem astros, búzios ou cartas. 
Envelhecemos as quatro com vagar, a nossa mãe deixou-nos por herança a capacidade de iludir o tempo e de fazer de conta que o que o não se vê por fora também não acontece por dentro. Mas ao invés delas, que até no modo de andar continuam as mesmas, eu, talvez por me faltar traço que seja só meu, vivo da transfiguração, ora parecendo mais com uma, ora com outra, dependendo dos dias do mês, da roupa que visto ou da incidência da luz.

27.10.17

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Só há um lugar onde o excesso de palavras equivale, sem dúvida, a uma abundância de atos ou efeitos: o dicionário.

24.10.17

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Como será a casa daqueles que falam como se tivessem as soluções para o governo de um país inteiro?

20.10.17

Triângulo

Enquanto o país ardia, Alice desesperava no ventre fechado da mãe. A natureza abandonou o trabalho a meio, as hormonas confundiram-se e só com bisturi se chegou a um final feliz. Veio ao mundo no princípio da noite, quando um vento rebelde se levantou do nada, bramindo maus prenúncios pelas frinchas das janelas. Que linda menina, disse o obstetra ao libertá-la. Que linda menina, disse a pediatra, auscultando-a. Que linda menina, disseram as enfermeiras quando a encostaram ao seio da mãe. Assim me conta a avó que já sabemos relutante, medrosa dos acasos, desconfiada de atos de amor sem acabamentos oficiais. Não houve quem não notasse como é mimosinha... Vendo que os doutores não perguntavam pelo pai e que ninguém comentava os olhinhos tão rasgados da bebé, e recordando ainda, pela sua experiência, que a hora da verdade é, afinal, apenas entre mãe e cria, começou a desistir da sua oposição às circunstâncias. Só nós, mulheres, sabemos como dóiE enquanto dói, eles pedem-nos o comer na mesa. Se é para isso, de facto antes vale ficarem longe.
Quero muito desdizê-la: ainda que lhes esteja vedado o entendimento absoluto das dores do nosso ventre, há homens de caráter, companheiros leais, amantes generosos, observadores das fases da Lua, ouvintes atentos dos rumores da Terra. Mas se lhe digo isto, ela recupera a certeza de que a filha foi tola, vítima de má sorte e de fracas escolhas, e de novo se recusará a ser solidária. 
Não. Por agora, dane-se a reputação masculina. Que falem os homens por si. Eu proíbo-me de quebrar a harmonia deste triângulo de mulheres que tanto demorou a nascer.

18.10.17

Imaginação

Jamais permitirei que me vejas enquanto escrevo. Mostrar-te o atabalhoado fluxo de palavras, as rasuras, os erros, todo o lixo de que me livro, seria o mesmo que autorizar-te a assistir à minha higiene diária, ao corpo na desarrumação do sono, à ridícula pose de cortar as unhas dos pés, ao doloroso afilar de uma sobrancelha, aos cabelos a morrerem na escova. O que sobraria para ti de sonho e imaginação quando me encontrasses pronta e, por acaso, ao mover-me, um botão da camisa se soltasse?

17.10.17

Creme de beterraba e lentilhas vermelhas

Quando faço creme de beterraba e lentilhas vermelhas, os meus filhos consideram a hipótese de eu ser a melhor mãe do mundo. E se acrescento coentros frescos picadinhos na hora de servir, é certa a minha elevação a deusa criadora de todas as maravilhas que há no céu e na Terra. Sou perdoada pelos rigores a que os obrigo e pelos abusos físicos que os impedem de respirar: beijos, apertos, declarações de amor e outras inconveniências publicamente dispensáveis.
É tão inglória a maternidade. Dias, meses, anos de entrega, noites nas urgências de hospital, viagens adiadas, leituras interrompidas no clímax, a incómoda soberania do relógio, os olhos fixos no telemóvel pela noite dentro, quando chegares liga a dizer que estás bem. Os túneis fundos, obscuros, por onde circula a desoras uma aflição miudinha, um pavor de existir sem nada saber. Que é deles se me falha o coração, se um automóvel me abalroa na estrada, se perco a memória, o bom senso, a mão direita? E afinal, é um creme de beterraba e lentilhas vermelhas com coentros frescos, aviado em três quartos de hora, que faz prova do meu amor.
Mas, enfim, que lembro eu acima de tudo o que a minha mãe por mim fez, desfez, sacrificou ou calou? A sua mão pousando na minha testa, um gesto de segundos com que sonharei pelo resto dos meus dias. Entretenho-me então a imaginar absurdos, cenas cómicas: os meus filhos já adultos sussurrando ao ouvido das amantes, depois do êxtase: sabes o que é que me apetecia agora? O cremezinho de beterraba e lentilhas vermelhas que a minha mãe fazia.


(Estalar uma cebola em pedaços num fio de azeite. Acrescentar uma beterraba em pedaços, uma cenoura às rodelas e duas mãos de lentilhas vermelhas. Água até cobrir. Trinta a quarenta minutos de cozedura. Varinha mágica. Coentros picados. E muito cuidado: a cor seduz e a consistência amacia a aridez de qualquer coração)

15.10.17

Feira de domingo

Fui à feira de velharias procurar azulejos para o acabamento de uma das minhas carolices de fim de semana. O mais novo, muito permeável ao apelo das cores e dos plásticos, parou em todas as bancas e deslumbrou-se com a bonecada de fraca qualidade que vendem por tuta-e-meia para esvaziar os sótãos: surpresas de ovos kinder, brindes de happy meal, super-heróis desbotados em que nenhuma donzela confiaria. Manhoso, foi-me chamando a atenção para as bancas de livros, com o puro intuito de me distrair e ganhar tempo de escolher onde gastar os seus cêntimos. Não encontrei azulejos, mas interessei-me por uns sabonetes embrulhados em plástico transparente. A vendedora explicou que põe neles muito brio e não usa químicos. Os sabonetes naturais enfraquecem-me, a textura grosseira da aveia e das sementes e o perfume das ervas e dos óleos essenciais deixam-me mansinha e maleável. Vai que não vai para trazer um, mas se já tinha torcido o nariz à embalagem plástica, mais torci quando os cheirei e senti laivos de naftalina, nem o mais leve sinal de alfazema, rosmaninho, jasmim ou eucalipto. Não há sabonetes naturais como os que mando vir propositadamente de Lisboa para a minha higiene e deleite. Quando me chegam pelo correio, em envelope acolchoado, o aroma dos prados, das florestas e dos pomares enche a casa inteira de uma eterna e alegre primavera, impregna-se na roupa e dispõe-me o coração a romantismos. Bairrista que sou, incomoda-me ainda não ter encontrado melhores aqui no Norte, pese embora os dois anos de buscas e experimentações que já lá vão (se eu fosse uma blogger espertalhona, o mais tardar na quarta-feira já estaria a receber amostras de sabonetes dos quatro cantos do mundo). Disse adeus à vendedora e aos sabonetes fajutos. Por vinte cêntimos, o mais novo comprou um monstro a uma senhora que teve cinco AVC e dois cancros, que rico menino, tomara que Deus me dê um netinho como tu. Mais tarde, passando por uma banca com carrinhos antigos, arrependeu-se do dinheiro já gasto com precipitação e eu satisfeita de ver como a vida faz dispensáveis os sermões dos pais.
Quando entrei no pão quente, saía o senhor Pereira com uma roca fumegante e um jornal debaixo do braço. Fez-me a festa do costume, deu um carinho ao mais novo, perguntou pelo irmão e ofereceu-me o jornal: já li, fique com ele se lhe interessa. Aceitei, agradecida, e pus freio à língua antes de lhe dizer que aquilo só me faz jeito para limpar os vidros. Ao final da tarde, como qualquer pessoa de vida facilitada, tomarei um chazinho com biscoitos de fubá e aninhar-me-ei entre as almofadas a ler um livro, coçando as têmporas por vício e mimo. Limpar vidros é que nem pensar.

13.10.17

Esperança na ressurreição

De tanto as ouvir, compreendo essas mulheres que um dia acordam estranhando o homem que dorme ao seu lado. Nem todas, como Mena, o enxotaram da cama a sangue-frio, temendo os bolores e os maus cheiros que um amor defunto espalha pela casa. A maioria delas, tendo sido religiosamente educada para a soberania da morte, aceitou a responsabilidade de cuidar do cadáver, maquilhou a sua face ausente e descorada, remendou-lhe as chagas com perdões diários e deixou que os anos passassem, com a esperança na ressurreição. A si mesmas e aos outros, vão dizendo desse amor o que sempre se diz dos mortos: grande, virtuoso e eterno. 

10.10.17

Alta voz

A Mena acabou tudo com o Francisco. Acordou de manhã e disse "é melhor ires embora, já não vale a pena". E ele? Não tugiu nem mugiu, demorou-se no banho e quando regressou nu ao quarto, cresceu nela um nojo insuportável por aquele corpo, pelas irregularidades ósseas, pela monocelha, pelo sinal peludo no antebraço, pelo sexo recolhido, ridículo, risível. Oh, Mena, que horror... Verdade, sim, até deu graças por não ter conseguido engravidar, só de pensar em ter filhos que herdassem tais modos e feições! E depois? Ele levou o essencial, vem buscar o resto no fim de semana. E tu? Acredite quem quiser, porque nem sabe explicar, mas assim que ele saiu vieram-lhe umas forças estranhas, pareciam subir da Terra, desde as plantas dos pés. Arrancou quadros e fotografias das paredes, virou as gavetas da mesinha de cabeceira no chão, abriu o guarda-fatos, tirou metade dos casacos e das calças, descartou finalmente todos os brincos sem par. Conjuntinhos de lingerie ainda com etiqueta foram para a empregada da mãe. Já agora também uns botins e umas sandálias usadas apenas uma vez, que ela sempre foi boa rapariga, coitada. Livrou-se de tudo o que pôde. Encheu três sacos de lixo e outros tantos para doar. Perdeu o pudor, a memória e o apego. Oh, Mena, mas tu no princípio estavas tão apaixonada. Ora, exatamente. Mas tinha descoberto o segredo: nunca deixar arrastar o amor para lá do seu princípio. 
E disto eu fiquei a saber hoje de manhã, pelos vidros abertos do carro que seguia ao meu lado no para-arranca da avenida.