30.9.17

A expulsão do paraíso

Como uma carracinha, Alice não dá sinal de querer largar o ventre materno. A natureza concedeu-lhe duzentos e sessenta e oito dias para desfrutar dessa amostra do paraíso, prazo após o qual deve ser expulsa como todos os mortais. Mas se a filha for tão teimosa como sonhadora é a mãe, e se por acaso lhe tiver chegado aos ouvidos que está condenada a passar o resto dos dias buscando, em vão, o retorno, talvez não saia a bem.
A rapariga da papelaria está pronta e prontos estão o berço e a malinha. Só a futura avó permanece em resistência, antevendo para Alice o prolongamento da desgraça em que foi concebida. E é inútil a rapariga dizer-lhe que, embora não parecendo, foi um ato de amor. Que jamais trocaria aquele par de horas de entrega e a filha que então foi plantada no seu corpo, por uma vida triste como a de certas pessoas, se é que a mamã me entende. Por tudo se paga um preço, acrescenta baixinho, muito redonda, amadurecida, sentada num banco detrás do balcão enquanto a mãe lhe faz as vezes no atendimento. Dou o desconto àquela avó relutante e peço - a quem? - que, quando a luz do mundo finalmente bater no rosto de Alice, os olhos dela se comovam com a dádiva e ela se desconcerte, se desmanche, se desarme. Por enquanto, ainda é cedo. Tal como Alice precisa de tempo para aceitar que é hora de ser expulsa do paraíso, também a sua avó demorará a aceitar para si o quinhão que lhe cabe daquela nova felicidade.
- Sabe o que eu acho? Antes um pai morto do que um pai desinteressado. Deus proteja as duas, que eu não posso.
Diz-me isto em sussurro, à minha saída, fazendo de conta que vem dar arranjo aos jornais pendurados na porta. Espanto-me ainda, e cada vez mais, com as leviandades que um ser humano é capaz de dizer quando vive com pena de si mesmo. Porém, outra vez lhe dou o desconto, tomo-lhe as mãos que estão geladas, inibidas, e garanto-lhe que tudo irá ao justo lugar. Alice não voltará ao paraíso, é certo, mas há de ter braços e coragem para edificar o seu país de maravilhas.

29.9.17

O sentido da vida (2)

Enquanto a diretora de turma explica em detalhe aos pais como se calcula uma média aritmética, recorrendo a powerpoints e lembrando que é nesta corrida de números que se decide o futuro, a minha deceção e o meu medo tomam corpo nestas linhas. Anoto-as no verso da folha que me deram com informações sobre horários de atendimento, regime de faltas, calendário letivo e quantidade de horas extra de apoio e compensação, tudo isto, afinal, números também. Os pais desassossegam-se nas cadeiras, querem saber ao certo quanto valerão as classificações finais, quanto valerão as notas dos exames, se a educação física também conta. A diretora, que eu desculpabilizo por saber que é mais vítima do que carrasco e tem a má sorte de ser o sinal visível deste cancro, a borbulha inofensiva que revela a malignidade no cérebro, a dorzinha nas costas que anuncia a podridão no ventre, põe-se então a detalhar, com uma condescendência maternal, as percentagens. 
Toda a gente gosta de números. Os números organizam em gavetas, delimitam zonas, dão segurança quando toda a realidade é caos, incerteza e dúvida. Os próprios pais quantificam o valor dos filhos, até nos territórios onde a vida deveria correr com prazer e felicidade: quantas medalhas ganhaste, em que lugar ficaste, quantos golos marcaste, em quanto tempo fizeste, quantos fizeram melhor, quantos ficaram atrás? 
A diretora diz que não quer assustar, porém, foge-lhe a boca para a verdade, a inquietação vaza pelas brechas mal disfarçadas da sua sobriedade. Será uma corrida contra o tempo, não sabe como conseguirão dar tanta matéria – porque a matéria, pelo visto, dá-se, não se ensina, e isto já é pensamento meu, que anoto no verso da folha dos números. Estudar todos dias, deitar mais tarde e levantar mais cedo, se for preciso. Ser doutor ou engenheiro é para quem sua (e eu a julgar que é para quem sabe). E os que não aguentarem, sempre têm as artes e as ciências sociais. Ao fim de semana estudar mais ainda, é um sacrifício fun-da-men-tal, mas não diz em nome do quê, de que futuro, de que país, de que mundo, de que gente. 
Saio derrotada, descrente, perguntando-me que homens e mulheres disto tudo vão nascer. Depois de uma corrida assim, que não almeja conhecimento mas classificação, quão trôpegos ficarão os seus membros, quantas nódoas negras no corpo, que níveis de insuficiência cardíaca? 
O mais velho teve um amigo cuja mãe me dizia, nos intervalos das suas longas tardes no shopping: enquanto o meu Vasco não me aparecer com menos de 85%, estou absolutamente tranquila. Não suspeitava – e nunca chegou a saber – que o seu Vasco nos telefonava a desoras e com voz de mimo implorava que o fôssemos buscar porque não queria mais viver na própria casa. 

26.9.17

O sentido da vida

O mais novo pergunta-me se eu sei qual é o sentido da vida. Apanha-me de manhã, em jejum, no preciso instante em que barro as torradas com manteiga e mel de eucalipto e o meu palato saliva como o de qualquer bicho irracional.
- O sentido da vida?
Repito a pergunta a ver se ganho tempo, estendo-lhe a taça de fruta e a caneca de leite, com esperança de o distrair e poder dizer-lhe, caso insista, que não se fala com a boca cheia. Sim, se eu já descobri o sentido da vida. Ah, o milho tostado do pão cheira tão bem! A manteiga derretida e o mel encharcam-me a polpa dos dedos, sorvo tudo com a língua, prazer e pensamento incompatibilizam-se, sai o prazer a ganhar.
- Queres então saber qual é o sentido da vida?
Sim. Tem a boca cheia de manga e framboesas e, em fila de espera, estão já duas rodelas de banana. Não o gabo ao ponto de achar que a pergunta é de mote próprio. Antes presumo que a tenha ouvido ou lido algures e, vendo nela algum charme, entendeu que ficaria bem reproduzi-la como coisa sua. Gostaria francamente de lhe responder, mas é crime deixar esfriar as torradas, cheira-me agora a canela e às laranjas que acabei de espremer, vou só buscar uma maçã e um iogurte. 
- Então o sentido da vida, é isso que me perguntas?
Sim. Qual-é-o-sen-ti-do-da-vi-da? Amanhã talvez faça panquecas, adianto, é questão de me levantar ainda mais cedo. Mando que beba o leite e coma pelo menos uma fatia de pão, não pode empanturrar-se só de fruta. Mordo a torrada, fecho os olhos, mastigo com uma preguiça luxuriosa, cada uma das minhas células reclama para si igual deleite na sua merecida e ínfima proporção. 
- Ora bem, o sentido da vida...
Ah! Lembrei-me! Sobrou bolo de chocolate de ontem, é comer enquanto está fofo e antes que se estrague. Abro a caixa, ainda há três fatias, precipito-me com ganância, o bolo esfarela-se, a cobertura de natas e cacau cola-se-me aos dedos, outra vez a língua apanha o que é pecado desperdiçar. Levo um naco para a mesa, sento-me de novo, e com os beiços brancos, de ternura láctea, ele faz então a pergunta que me alivia:
- E o que é que vamos comer ao almoço?

25.9.17

Vénus de Willendorf

Estranhando a minha reflexão crítica em torno das filhas do senhor Pereira, perguntaram-me de chofre se fui eu a amante dele.

– intervalo para sorrir –

Elevadas expectativas. Isto é só um blogue com impressões do quotidiano, não uma novela sul-americana que vá, a espaços, sugerindo o extraordinário e o improvável para viciar o leitor. Ora, a amante do senhor Pereira em tudo se opõe a mim: é uma Vénus de Willendorf com o tempo ocupadíssimo e uma vida orgulhosamente urbana, rodeada de gadgets e sapatos com preço para durar uma vida e design para cansar num ano. Precisa que, apesar de tudo isso, alguém lhe lembre que ainda é uma mulher. E se o senhor Pereira é fraco em muita coisa, para isso deve ser bastante. Obviamente que ela carece da excentricidade da viúva, nem perto chega da beleza da rapariga tatuada e falta-lhe a graça jovial da doutora. Mas consigo imaginá-la, com desenvoltura e altivez, segura do seu corpo abundante, a livrar-se dos lençóis onde o senhor Pereira lhe consola todos os cantos da carne e a despachá-lo, já de olhos postos no telemóvel: agora vai, que eu tenho um jantar. Ele vai, de qualquer modo iria, que um homem casado tem horas para tudo, até para as suas vontades. Só duas, três semanas depois, talvez por falta do que fazer, ela voltará a lembrar-se dele e ligará, dócil e vulnerável como uma criança: amor?


(se acaso eu me desse a um homem que não lê além de jornais, gasta os serões em frente à televisão, passa férias enclausurado em resorts asséticos, tem pelo automóvel um amor igual ao que nutre por si mesmo, teme o silêncio e a quietude, ignora as fases da lua e o perfume dos equinócios, não o escreveria num blogue. Contá-lo-ia em livro. Ilustrado.)

23.9.17

Pelo amor da santa

Deixa-me descer à Terra. Não me guardes onde não posso ser real. Além disso, nunca gostei de alturas, aqui em cima falta o ar, há desamparo e solidão. Permite, por favor, que seja humana e me corra sangue nas veias, sujeito a ferver ou gelar. Compreende que o meu avesso sejam vísceras, válvulas, gases, úlceras, tecidos condenados à morte. Não parece, eu sei, mas a memória falha-me, às vezes as pernas também. Amiúde falham-me ainda as palavras, andam tontas em círculos de delírio, disparate e confusão. Há dias em que envelheço, agasto-me, encosto-me. Em horas mais acesas posso corar, por pudor ou luxúria. As pregas da minha saia são imperfeitas e vulneráveis à brisa. Os meus olhos não são piedosos, desculpa. Nem há nenhum coração sagrado no meu colo, que é pequeno e pode até dar-se o caso de ser estéril. Tenho mácula. Cedo ao pecado da vaidade como as outras, não resisto a um espelho e tenho ganas de me beijar no reflexo. Também ao da ira, como qualquer fraco de espírito. E ao da gula, porque pão e vinho não me bastam.
Podes tocar, que eu não sou de partir. Sou de morrer. Aproveita e tira a mágoa de cima dos meus olhos e sacode-me o cansaço dos ombros. Ampara-me a cabeça se eu não aguentar o peso de tantos pensamentos e as dores agudas da ignorância. Afasta-me os cabelos da cara e esconde as brancas, são sempre tão ásperas e rebeldes! Protege-me os pés, salva-os por uns instantes das pedras do caminho. Enfia os dedos no meu peito e arranca-me o medo pela raiz. Vai sangrar, não te assustes.
Vê as palmas das minhas mãos, mostro-as com orgulho e propriedade, não creio que estas linhas da vida tenham o que esconder. A minha origem, como a tua, é o pecado da carne. E o meu destino é debaixo da terra, onde vivem os bichos e os passados inconvenientes. Entre uma e outro, vai o trilho que tu sabes e outros que nem eu sei.
Ajoelha-te agora diante desta minha terrível vulgaridade e convence-te que, mesmo assim, sou cheia de graça e posso muito bem ser-te bendita entre todas as mulheres.

Outubro 2013

21.9.17

Círculo

Acredito que talvez um Homem morra com sofrimento proporcional àquele com que nasceu. Amostra significativa não tenho, mas ouço histórias e nelas vejo fechar-se o círculo, em acerto e coincidência. Não devem os leitores levar-me a sério por isto que digo. É de quem não tem mais em que pensar e, por mero entretenimento, se põe a enredar absurdos e a presumir as lógicas fundamentais do universo a partir de coisas miúdas. 
A mim, convém-me fazer fé nesta delirante teoria. Nasci sem gritos nem demora. Entrei no mundo com a delicadeza de um suspiro, ninguém sofreu e a parteira mal deu conta de que eu estava a chegar. 

20.9.17

Naufrágio a sul

A cabeça tombada na linha de rebentação, dois seixos reluzindo nos olhos, um búzio incrustado no nariz, a boca aberta em concha, a língua um molusco dormente, o corpo ao abandono como o casco de um barquinho naufragado, o mastro já partido de tão velho, o leme sem memória do seu norte.

18.9.17

Momentos de inconsciência

Qualquer história de amor, ainda que piegas, ridícula ou ordinária, pode atraiçoar a firmeza dos mais sóbrios espíritos. É um efeito semelhante ao da música. Naturalmente que dizemos preferir a superior, a erudita ou a alternativa, a que seja obra de um talento visionário e de divina mestria. Mas a verdade é que qualquer uma, mesmo a de arranjo pobre, a que se repete, a mal acabada, nos põe trautear e a bater o pezinho. E em momentos de inconsciência, é o refrão apoteótico e de rima fácil que vem à cabeça. 

16.9.17

A melhor mãe do mundo

Recordar-se-ão os leitores que a rapariga da papelaria estava grávida e acalentava, sem disso fazer segredo, o sonho de ter um menino. Julgaram, talvez, que a história tinha morrido ou que não me interessava contá-la por não coincidir com o meu prenúncio sobre o sexo do bebé. Acontece apenas que entretanto fui de férias, depois a papelaria fechou portas por quinze dias e durante algum tempo o mais novo não colecionou cromos. De modos que só no início de setembro lá voltei, para acertos de contas com os senhores das autoestradas, e fiquei a saber que nasce no fim deste mês a menina. Alice.
No dia em que me dá a novidade, mostra-me o babygrow cor-de-rosa que a Gisela do pão quente lhe foi oferecer de manhãzinha. Estende-o no balcão, em cima das revistas, e, com ternura, sacode-lhe poeirinhas imaginárias e alisa-lhe os vincos.
- Não é lindo?
Afago-o sem pudor e a textura dócil do veludo remexe-me as lembranças, os olhos enchem-se-me de lágrimas ao recordar o perfume lácteo dos bebés que já não tenho, o choro manso a pedir alimento e aconchego a desoras, os dedos miudinhos, transparentes, abrindo-se em leque e pousando no meu seio. A voz sai-me fraca, sinto-me humilhada pela passagem do tempo, esmagada por uma saudade vã, impossível de matar.
- É muito lindo, sim.
- Sabe que até estou contente por ser uma menina? Vai ser mais fácil conversarmos sobre certas coisas.
- Que coisas?
- Coisas que... sei lá, do corpo. Se fosse um menino, assim sem pai presente, ia-me ver aflita para explicar-lhe... prontos, quando ele se tornasse um homenzinho. Está a perceber?
De novo me sobem as lágrimas aos olhos. Disfarço-as vasculhando o porta-moedas e digo-lhe que dá no mesmo, é só explicar a anatomia e a fisiologia e o resto cada um descobre por si, na sua intimidade, com a sua experiência.
- Ai credo, não me fale já dessas coisas que me faz medo. A minha Alice ainda há de demorar para crescer, se Deus quiser. E Ele há de ajudar-me a ser a melhor mãe do mundo!
De facto, a barriga dela, imensa, redonda, parece o mundo inteiro suspenso numa paz original, na silenciosa e irrecuperável perfeição do universo. A rapariga da papelaria é gente boa. Mas as pessoas descrentes como eu tendem a classificá-la como tonta apenas porque lhe invejam a persistência dos sonhos e o romantismo que a vida merece, do primeiro até ao último suspiro.