29.8.17

Engenheiro Aires e Maria Beatriz

Não é só o pó do automóvel. O senhor Pereira também lamenta que a noite venha chegando cada vez mais cedo e às nove já lhe dê tamanha quebra que nem sai com a mulher para uma voltinha. Faz-lhe falta a conversa com o engenheiro Aires, sabedor de múltiplas coisas que parecem compor a realidade numa visão confortável e duradoura. Costumam encontrar-se depois do jantar e andam para trás e para diante na mesma rua, eles à frente debatendo a organização do mundo, as mulheres atrás, de braço dado, partilhando a organização da casa. Dessa horinha sagrada custa-lhe abdicar, mas a verdade é que, com a antecipação da noite, o espírito e o corpo murcham cedo em frente à televisão. 
O senhor Pereira tem no engenheiro Aires o seu principal fornecedor de opiniões. Depois dos jornais lidos e factos apreendidos, precisa de alguém que sistematize tudo e lhe dê uma visão profunda, analítica, com charme de ideologia. Ora, sendo o engenheiro Aires um homem de uma categoria extraordinária, com estudos e horizontes, que visita templos, museus e ruínas enquanto o senhor Pereira dormita à sombra das palmeiras, a sua palavra deve ser de confiança e os seus juízos os mais certeiros. Portanto, o que o engenheiro Aires sentenciar hoje há de ser repetido pelo senhor Pereira, assim que tiver audiência, como se fosse coisa da sua cabeça. 
Já entre as respetivas mulheres, o mesmo não acontece, pese embora o entusiasmo com que se cumprimentam, enlaçam e caminham a par. Nas costas da outra, a mulher do senhor Pereira revira os olhos e desabafa: a Maria Beatriz é uma chata, tem a mania que sabe tudo. Mas se soubesse, não precisava de uma empregada.