1.8.17

Choques elétricos

Enquanto a cabeleireira vai e vem com a tesoura na cabeça do mais novo, a Cristina Ferreira pergunta a quem está aí em casa se será mito ou realidade que os vibradores dão choques elétricos. A manicura arrebita a orelha, tapa a cara com as mãos e escangalha-se a rir. À cliente que lhe estende as unhas, passa ao lado a grande questão alardeada pela apresentadora porque está de costas para o écran. Insiste que quer, desta vez, um vermelho mais sangue, que vá bem com as emoções fortes despertadas pelo estio e com os vestidos que comprou para as noites quentes do sul. A cabeleireira suspende o trabalho e olha-me, com evidente aflição: é mito, pois é? Ainda vou a tempo de me fazer desentendida, franzo a testa como quem mal percebe do que se fala e com esperança de que ela se vire para outra: desculpe? Asneira minha. Ela adianta-se a repetir o que foi perguntado e já vai lançada para a resposta que lhe parece óbvia. Estão a perguntar na televisão se os vibradores dão choques elétricos, mas, quer dizer, é um disparate, aquilo não se liga à corrente. Num relance, certifico-me de que o meu filho está suficientemente compenetrado na adoração da sua própria imagem, tirando as medidas ao novo corte e imaginando como lhe assentará o boné. Quem me salva de responder é a manicura, desbocada como é hábito, o gozo pela vida sempre a pulsar sem freio, sem medo e sem preconceito. Não se liga à corrente mas olhe que, funcionando como deve de ser, é cá uma corrente pelo corpinho todo! Depois de ouvir o povo e o doutor em estúdio, a Cristina Ferreira esclarece: é verdade, sim, pode acontecer. As velhas contratadas para figurar na plateia por tuta-e-meia desassossegam-se, não sabem se neste momento em direto lá para casa lhes fica melhor o humor ou a indiferença. Ah, mas quanta perturbação foi tudo isto causar na cabeleireira! Incapaz de se concentrar, vai aparando os fios de ouro velho do meu pequeno narciso com hesitações de vulgar aprendiz e murmurando queixumes, temores e indignações. Choques elétricos? Deus me proteja! E eu a rir-me, imaginando como irá Deus interceder por ela.
A cliente sai com as unhas renovadas, sangue vivo na ponta dos dedos. Está pronta para rumar a sul, onde as amigas já a esperam num apartamentozinho alugado mesmo à beira-mar. Adivinham-se memoráveis dias de praia e imprevisíveis noites de folia. O pequeno narciso salta da cadeira e corre para mim, cheio de vaidade, reclamando beijos, afagos e elogios. Nem um nem outro deram por nada.