29.8.17

Engenheiro Aires e Maria Beatriz

Não é só o pó do automóvel. O senhor Pereira também lamenta que a noite venha chegando cada vez mais cedo e às nove já lhe dê tamanha quebra que nem sai com a mulher para uma voltinha. Faz-lhe falta a conversa com o engenheiro Aires, sabedor de múltiplas coisas que parecem compor a realidade numa visão confortável e duradoura. Costumam encontrar-se depois do jantar e andam para trás e para diante na mesma rua, eles à frente debatendo a organização do mundo, as mulheres atrás, de braço dado, partilhando a organização da casa. Dessa horinha sagrada custa-lhe abdicar, mas a verdade é que, com a antecipação da noite, o espírito e o corpo murcham cedo em frente à televisão. 
O senhor Pereira tem no engenheiro Aires o seu principal fornecedor de opiniões. Depois dos jornais lidos e factos apreendidos, precisa de alguém que sistematize tudo e lhe dê uma visão profunda, analítica, com charme de ideologia. Ora, sendo o engenheiro Aires um homem de uma categoria extraordinária, com estudos e horizontes, que visita templos, museus e ruínas enquanto o senhor Pereira dormita à sombra das palmeiras, a sua palavra deve ser de confiança e os seus juízos os mais certeiros. Portanto, o que o engenheiro Aires sentenciar hoje há de ser repetido pelo senhor Pereira, assim que tiver audiência, como se fosse coisa da sua cabeça. 
Já entre as respetivas mulheres, o mesmo não acontece, pese embora o entusiasmo com que se cumprimentam, enlaçam e caminham a par. Nas costas da outra, a mulher do senhor Pereira revira os olhos e desabafa: a Maria Beatriz é uma chata, tem a mania que sabe tudo. Mas se soubesse, não precisava de uma empregada.

24.8.17

Tanto tempo

Perguntou-me se era por fé, desespero ou falta do que fazer que eu me sentava tanto tempo a meditar. Em vez de responder, perguntei-lhe eu se era por fé, desespero ou falta do que fazer que se sentava ele durante sete horas em frente a um computador, mais duas dentro de um carro nas vias entupidas de circulação interna e, por fim, em frente à televisão até as coisas do mundo darem sono. Julgando que eu brincava, ajeitou-me delicadamente os cabelos por trás das orelhas e, superior, paternal, rematou: é impossível conversar contigo, passou tanto tempo e continuas tão infantil.

23.8.17

Labirinto

- Não dizes nada?
Bebo o café com o ritmo vagaroso que sempre uso e tanto enerva os acelerados. Ela insiste:
- Não tens opinião?
Passo a chávena por água. Ela continua:
- É que isto é grave. Deseduca os miúdos.
Uma gota de detergente e levanta-se a espuma. Ela exalta-se:
- Acho inacreditável. Nos dias de hoje?!?!
A chávena está imaculada, limpo-a, guardo-a no armário. Ela pergunta-me:
- Alertas os teus filhos para estas questões da igualdade? 
Saio sem dar cavaco. Tenho de trabalhar. Era o que me faltava gastar esta conversa com a mesma pessoa que há duas semanas me franziu a testa ao saber que o meu filho passa a roupa a ferro. "Ai, coitado", foi a única coisa que então lhe ocorreu dizer.
A minha geração está suspensa, perdida entre dois mundos: o passado, que teme e não quer repetir, e o futuro que, para transformar, exige fibra, pulso e consciência. Para se livrarem deste labirinto, não chega bradar às paredes que tem de haver uma saída.

22.8.17

E depois?

À medida que se aproximam da eleições, vão-se esburacando as ruas para a obra parecer vasta. Se é coisa de última hora, pouco importa, tal como pouco importa que abram e fechem sem que se veja diferença. Até no lugar onde moro, tão sossegado que os bichos e os fantasmas andam por onde querem à luz do dia, se instalaram as escavadoras, os penumáticos e os homens de tronco nu. Todos os dias tenho de refazer percursos, desviar por onde nunca estive, meter por quelhos e bouças.
E depois?
A dona Cesaltina continua trôpega no andar, de pernas enfaixadas, apoiando-se nos muretes e na piedade das vizinhas. Na sala de espera do centro de saúde, um homem conta que já não vê o filho há dezassete anos. Estão à porta as festas da freguesia e o presidente da junta vai enfrascar-se e subir ao palco para cantar ponho o carro / tiro o carro / à hora que eu quiser. No funeral de um tipo vulgar, a amante chora copiosa e despudoradamente enquanto a mulher se encolhe de vergonha por não ser sua a maior perda. Morto, já não pode o tipo pedir à amante que seja discreta nem à mulher que erga a cabeça e sorria. O senhor Pereira anda danado com as impertinências que a canalha desenha na tela de pó do seu mercedes. Tem saudades do brilho da novidade, do dia em que saiu do stand dos usados com garantia trazendo o sonho de uma vida nas mãos – matéria, temperatura, consistência, movimento. Mas, enfim, o tempo passa, as coisas gastam-se, abrem-se e fecham-se os buracos na rua, levanta-se a poeira e depois vêm os dedos na canalha, sempre tão inconvenientes, piorar tudo. A mulher procura apaziguá-lo, deixa lá, homem, o que se suja também se lava. Mas não é bem assim, penso eu. Não é bem assim.

21.8.17

Clausura

Quase meia-noite. Deitada no jardim do claustro, olho para o céu e pergunto-me porque pairamos assim, no infinito, neste assombroso mistério, neste equilíbrio perfeito, nesta beleza, neste espanto e, contudo, somos biliões com os pés puxados para o centro de uma única Terra, grão de areia, coisa nenhuma, tão exíguo o espaço, tão vaga a origem, tão dúbio o futuro, e, num só par de dias, toda esta fome, esta fúria, estas facas, este fogo. Onde fica a porta de saída do quarto escuro em que Deus abandonou a humanidade para se ir ocupar da expansão do Seu universo?

1.8.17

Choques elétricos

Enquanto a cabeleireira vai e vem com a tesoura na cabeça do mais novo, a Cristina Ferreira pergunta a quem está aí em casa se será mito ou realidade que os vibradores dão choques elétricos. A manicura arrebita a orelha, tapa a cara com as mãos e escangalha-se a rir. À cliente que lhe estende as unhas, passa ao lado a grande questão alardeada pela apresentadora porque está de costas para o écran. Insiste que quer, desta vez, um vermelho mais sangue, que vá bem com as emoções fortes despertadas pelo estio e com os vestidos que comprou para as noites quentes do sul. A cabeleireira suspende o trabalho e olha-me, com evidente aflição: é mito, pois é? Ainda vou a tempo de me fazer desentendida, franzo a testa como quem mal percebe do que se fala e com esperança de que ela se vire para outra: desculpe? Asneira minha. Ela adianta-se a repetir o que foi perguntado e já vai lançada para a resposta que lhe parece óbvia. Estão a perguntar na televisão se os vibradores dão choques elétricos, mas, quer dizer, é um disparate, aquilo não se liga à corrente. Num relance, certifico-me de que o meu filho está suficientemente compenetrado na adoração da sua própria imagem, tirando as medidas ao novo corte e imaginando como lhe assentará o boné. Quem me salva de responder é a manicura, desbocada como é hábito, o gozo pela vida sempre a pulsar sem freio, sem medo e sem preconceito. Não se liga à corrente mas olhe que, funcionando como deve de ser, é cá uma corrente pelo corpinho todo! Depois de ouvir o povo e o doutor em estúdio, a Cristina Ferreira esclarece: é verdade, sim, pode acontecer. As velhas contratadas para figurar na plateia por tuta-e-meia desassossegam-se, não sabem se neste momento em direto lá para casa lhes fica melhor o humor ou a indiferença. Ah, mas quanta perturbação foi tudo isto causar na cabeleireira! Incapaz de se concentrar, vai aparando os fios de ouro velho do meu pequeno narciso com hesitações de vulgar aprendiz e murmurando queixumes, temores e indignações. Choques elétricos? Deus me proteja! E eu a rir-me, imaginando como irá Deus interceder por ela.
A cliente sai com as unhas renovadas, sangue vivo na ponta dos dedos. Está pronta para rumar a sul, onde as amigas já a esperam num apartamentozinho alugado mesmo à beira-mar. Adivinham-se memoráveis dias de praia e imprevisíveis noites de folia. O pequeno narciso salta da cadeira e corre para mim, cheio de vaidade, reclamando beijos, afagos e elogios. Nem um nem outro deram por nada.