2.7.17

Morrer de amor e cantar*

Já aqui contei que morri de amor aos quinze anos. Foi uma morte lenta e dolorosa, deu-me febre, visão turva e desarranjos viscerais por muitas semanas. Velei-me como achei que merecia: com enorme piedade, lágrimas a rodos e até a elevação de caráter a que os mártires têm direito. A dor aguda e exposta, que assim violentamente me deitou por terra, terá vindo da minha impreparação para o abandono. Eu tinha crescido abrigadinha em colos, festas e mimos, não conhecia a rejeição e menos ainda a indiferença. Então, à primeira estocada morri. E porque tinha apenas quinze anos, as minhas conclusões foram inocentes mas cheias de uma convicção que me enternece lembrar. A primeira foi a de que o amor e a dor variam na razão direta. A segunda, tão comum, foi a de que não voltaria a amar. Sobre ambas estava errada, naturalmente, mas sou feliz por saber que o equívoco se deu na idade justa.
Por esses dias, calhou o meu pai oferecer-me a minha primeira máquina de escrever, um bichinho muito mimoso, usado, com teclado "hcesar", em tons pastel, de arestas meigas, arredondadas. Proprietária exclusiva de um instrumento daqueles, achei que o meu espírito era agora obrigado a grandes criações e sentia-me pronta para isso porque abarrotava de dor e autocomiseração, portanto, meio caminho feito. O outro meio, estava certa de que podia aprender lendo os bons.
Esta foi a única altura da vida em que escrevi poesia. Converti o sofrimento e a adoração em poemas curtos e arrítmicos, de versos brancos, e em outros enormes, com bom corpo, métrica e sem descuido da rima. Para guardar na gaveta, fiz com eles um livro, biografia cantada do meu desgosto, coitadinha da mim!
Um dia tudo passou, conforme predestinaram os mais sábios. A manhã acordou límpida, com uma frescura promissora, e eu era ainda muito jovem, o meu coração afinal sem necrose, a minha esperança pura e intacta. Por isso outros amores vieram, mas por sorte, privilégio ou saúde férrea, não voltei a morrer. E não voltei a escrever poesia.
Ainda hoje acredito que a melhor forma de arrumar uma dor é convertê-la em qualquer coisa de belo, edificá-la, harmonizá-la com o mundo. Terapia para quem sofre, horizonte para quem contempla, e nesse dá-e-recebe, nessa generosidade recíproca, muitas vezes se descobre propósito para o que nos consome. Mesmo que a criação acabe como, mais tarde, os meus poemas: no contentor do lixo de uma avenida junto ao mar.

* post de 2015, republicado a pedido de quem, generosamente, mo lembrou