24.7.17

Esquecimento

Atravesso as planícies do Sul num comboio velhinho, com cheiro, roncos e hesitações de quem já merecia o eterno descanso. O ar condicionado mal funciona, a respiração é difícil, as portas não obedecem aos botões de comando. O maquinista — ah, coincidências! — conta que tem um irmão lá em cima, mesmo na minha terra, no Norte vinhateiro, onde há comboios gourmetizados para chineses, americanos e portugueses fáceis de deslumbrar e que abrem os cordões à bolsa por qualquer gracinha. 
O meu país baralha-me. Nunca sei onde é mais profundo o abandono, onde rangem mais os ossos, onde é mais urgente o socorro que os visitantes não oferecem porque, tal como eu, só vêm e vão como quem assiste a um filme, aplaude e logo esquece.