13.6.17

Vulcão

Nunca fui uma mãe preocupada. Sonhei coisas poucas e simples para a infância deles: que brincassem como animais, dormissem como anjos e se sentassem à mesa como príncipes. Cumpriu-se. Mas falhei nos cuidados extremosos, não vedei as escadas, não tranquei facas, remédios e outros venenos. Cólicas, trambolhões, viroses, birras e exames pareceram-me só coisas da vida, que vêm e vão, como outras hão de vir e ir pelo resto dos dias e está tudo bem. Esqueci-me de chorar no primeiro dia de escola. Tudo isto fez de mim fraca companhia para as outras mães e ouvinte desinteressada quando o tema de conversa são os enguiços de rotina, as aflições com amuos, tosses, sonos difíceis, programinhas de tempos livres, um ponto a mais ou a menos na ficha de avaliação.
Às vezes, porém, sem motivo ou sintoma aparente, quando tudo está em paz, qualquer coisa dentro de mim se desarranja. Como um vulcão de repente acordado, emerge uma ideia de futuro, uma imagem do mundo, uma impressão paralela à vida que tenho, e assusto-me. Corro à janela, preciso de os ver e ouvir, mas nem assim consigo alívio. São instantes em que sinto, de forma aguda, concentrada, avassaladora, o que as outras mães vão sentindo em conta-gotas, pelas miudezas do quotidiano. A minha mente é ocupada pela ideia, infeliz, de que eles seguem para o mar alto em barquinhos de casco frágil. E à noite peço-lhes que durmam comigo. Não prego olho porque a cama é pouca para todos e o calor suporta-se mal, mas a angústia vai perdendo corpo, vai perdendo força, esfuma-se e repousa como o pó das coisas passadas.