27.6.17

Pantera

Lá vai a mãe dos dois filhos com olhos de azeitona preta. É a primeira vez que a vejo sem eles, mas não se julgue que vai de mãos livres, a desfrutar em paz da manhã soalheira, do canto da passarada, das promessas do solstício. Vai carregada de mercearias, os sacos distribuídos pelas dobras dos cotovelos, dos pulsos e dos dedos. Anda a custo, e, sob o peso da carga, pronuncia-se o joelho valgo. Ao passar por mim faz de conta, põe-se a admirar a esplanada do café onde os reformados se procuram na necrologia e os jovens estudam para os exames. Que idade terá? Calculo por alto, tiro medidas à infância que sobrevive no rosto dela, subtraio a idade do filho mais velho, comparo com a do marido, que a esta hora há de estar a gozar o alívio da dose diária de opiáceos, e imagino que tenha sido mãe aos quinze, dezasseis, menos de dezoito sem dúvida. Mas depois, multiplico a amargura que vai pelo corpo abaixo, o cabelo seco, desobediente, o peito raso e côncavo, os tornozelos inchados, e, afinal, é acabada, usada, abusada, e, quem sabe, culpada.
Quantas mulheres podem habitar numa só?, pergunto-me muitas vezes, até quando olho ao espelho, leio o que escrevo, revejo o que fiz, ou me esforço a desculpar o fraco entendimento dos homens sobre nós. E nesta que passa, livre dos filhos mas carregada de mercearias, habitam pelo menos três: uma que é inocente e está sempre à janela dos olhos, outra que se desenganou e endureceu para aguentar o corpo. Na terceira, improvável, só reparo quando ela vai para dobrar a esquina: uma pantera, estampada nas costas da blusa, pronta para investir.