5.6.17

Mrs. Dalloway, Elena Ferrante, a mulher do senhor Pereira e o arroz de cabidela

Fui à estante repescar Mrs. Dalloway porque a mulher do senhor Pereira me fez lembrar qualquer coisa que eu estava certa de um dia lá ter sublinhado. Correm-se alguns riscos ao pegar num livro que se tenha lido noutra idade. É como encontrar um antigo namorado vinte anos depois: quase sempre se revela vulgar, barrigudo e frouxo, desprovido de encantos. Costuma ter por companhia uma mulher com ar de enfado, um ou dois filhos que gritam muito e dão pontapés no ar, um bom carro, e diz coisas sem interesse nem charme, como agora não tenho tempo para nada. É claro que nada disto é facto,  é apenas ponto de vista, outra cadência que tem agora o meu coração, outros os olhos com que reparo. Mas, enfim, a mediocridade de antigos namorados pouco me importa e nem sequer me envergonha. Já no caso dos livros, pode a coisa resultar num grande sofrimento porque à leitura sempre me entreguei com uma devoção que nem de perto os namorados mereceram. Seguro, se queremos preservar memórias de espanto, surpresa e fascínio, é não reler jamais. Então decidi folhear Mrs. Dalloway distraidamente, pela rama, só buscando a frase, cuja lembrança foi disparada pelo breve encontro com a mulher do senhor Pereira. 
Ia ao pão e à fruta, de saltos altos, muito pintada, nem um fio de cabelo ao acaso, deu-me os bons dias com a altivez do costume. É tão trabalhosa a dignidade de certas pessoas.
- E como está o senhor Pereira?
- Está em casa, a ler os jornais. Tem sempre um semanário, quatro ou cinco diários em atraso... mais os desportivos e vai-se o fim de semana nisto. Eu tenho é de me pôr em casa num instantinho, vou fazer arroz de cabidela para o almoço. O meu marido pela-se por um arroz de cabidela, já me anda a pedir há tanto tempo. E o meu filho também vem. Vou fazer se faço a mais para ele levar.
- Então vá lá à sua vida, vá.
Mas ela não vai.
- Posso-lhe fazer uma perguntinha?
- Pois claro.
- A menina lê muito, não lê?
- Vou lendo.
- Já ouviu falar numa Ferrante, qualquer-coisa Ferrante? Tem quatro livros que é a história da vida dela, ou de outra qualquer, não sei.
- Elena Ferrante. Sim, já li.
- E que lhe parece?
- Os três primeiros são assim-assim. O quarto é um enxerto de porrada. 
Julguei que fosse desentender e virar costas. Mas uma onda de luz acordou-lhe os olhos mortiços. 
- Quer dizer uma tareia? Magoa?
- Ou sufoca, não sei bem. Mas leia e logo verá.
Tirou o saco de compras da bolsa, abriu-o, sacudiu-o para se livrar não sei do quê, voltou a dobrá-lo, pressionou muito bem os vincos e guardou-o de novo. 
- Eu antigamente lia muito, mas agora...
Agora nada, pensei. Não fale, não se humilhe. Já sabemos que foi delapidada, desbastada a sua inteligência, apagados os talentos, embotadas as sensibilidades, enquanto o senhor Pereira lia tranquilamente os jornais. Ontem, como hoje, é a forma que ele tem de saber que o mundo gira sem que precise de o empurrar.
- Vá lá, vá, que um arroz de cabidela é coisa para duas horinhas à volta dos tachos.
- A menina sabe fazer?
- Não.
E ela, a pose recuperada, um sorriso lateral, uma ponta de sarcasmo:
- Já imaginava.

Ah! Eis a frase em Mrs. Dalloway"Apesar de duas vezes mais inteligente do que o marido, tinha de ver as coisas pelos olhos dele – uma das tragédias da vida de casado."