14.6.17

Magníficas experiências

Não é por sermão que tenha levado. É por gosto, principio, hábito e exemplo dos que me educaram, que cumprimento as pessoas com quem me cruzo, mal distinguindo o que vestem, que função têm, com que cara andam. Daí o meu espanto quando ouço a história (e nem sei se é verdadeira) de um professor universitário que, para validar uma investigação sobre "invisibilidade pública", vestiu, durante um mês, a pele de um varredor de rua. A indiferença de que foi vítima nesse quotidiano, diz ele, foi uma lição de humildade. Ao que parece, o professor compreendeu que um simples bom dia não só é prova de respeito pelo outro como pode ainda, nas suas palavras, ser "um sopro de vida".  
Estranho que as pessoas careçam de originais e magníficas experiências para aprender o elementar. Lembra-me aqueles – e são muitos – que só depois de uma grande viagem realizam a própria pequenez, a desimportância dos seus chiliques e o valor do que possuem. Ficam os pobres condenados à arrogância, por falta de meios para viajar. Conheci um homem assim. Publicamente, repetia, mesmo a despropósito, o quanto as caminhadas em desertos escaldantes, planícies inóspitas, bairros de miséria nunca imaginada e destroços de bombardeamentos, o tinham tornado humilde e despojado. Talvez tenha impressionado os que mal o conheciam. Mas eu vi que nenhum quilómetro palmilhado, nenhuma desgraça ou ruína avistada de perto, lhe tirou as manias de superioridade, a tendência para açambarcar o que por direito não era seu, o menosprezo por todos aqueles que andavam na sua órbita, o espírito parolo que se extasia com roncos de motor e telemóveis de última geração. E, na maioria das vezes, nem bom dia nem boa tarde.