8.6.17

Florações

O excesso de convívio corrompe-me a escrita. A primavera tem destas coisas, há nela um abuso de disponibilidades, uma transpiração de afeto, uma leviandade nas palavras, uma urgência em estar, receber, visitar. O jornal diz que, nas redes sociais, andam todos nus. As festas estão à porta, tudo é pele, calor, entrega, os dias são tão largos e luminosos que a melancolia não pega. Mas as escancaras não me seduzem. Eu gosto de vasculhar, espreitar pelas fechaduras, arrancar uma peça de roupa de cada vez. O que na primavera me agrada são as florações vagarosas, o intervalo que cresce entre o nascer do sol e o despertar da cidade, a ternura com que a rapariga da papelaria descansa a mão no ventre e se põe a sonhar.