20.6.17

Dias consecutivos

Por seis dias consecutivos, Deus esmerou-se na arquitetura de grandezas e miudezas, concebeu-as para nos maravilharem e de forma a que os mistérios fossem revelados em conta-gotas, despertando novas crenças e ainda maior espanto. Mas ao sétimo dia descansou, porque não tinha contrato, não precisava de pão para a boca, não tinha de prestar contas a ninguém e assumiu que as criaturas eram responsáveis pelos próprios atos e pagariam pelos seus erros. 
Tu não descanses, que não és Deus. Se descansas ficas só e hão de apontar-te o dedo assim que estiveres de costas. Deus também está só, mas está no pedestal, nas alturas, nos píncaros desconhecidos do universo, e isso vai valendo alguma coisa, justifica o ouro dos templos, a lonjura das peregrinações, o sacrifício de humanos e animais. A solidão de gente vulgar é invisível e carrega no lombo uma trouxa de culpas, penas e mágoas que não merece cântico ou devoção. Então vá, cumpre, mexe-te, ainda que te falhem as pernas e te ocorra o sonho de dias melhores. Enxota, como moscas, o que puder desconcentrar-te: ideias, poemas, perguntas, suspeitas. Fecha as janelas, a luz é perigosa porque revela as sombras e nas correntes de ar viaja o perfume de flores e frutos proibidos. Ganha com uma mão, paga com a outra, no entremeio dá esmola, lava as duas a seguir. Se te pedirem, cumpre a pena do ladrão, faz as vezes da prostituta, consome como um viciado. Diz justiça, diz amor, diz honestidade, mas deixa que outros tratem disso, tu põe-te na fila, para, arranca, liga, desliga, gosta, desgosta, aproveita o brinde, a promoção, o sorteio, o cartão. Lê o jornal, come a sopinha de letras até ao fim, obrigadinho por ta levarem à boca, interessa-te, espanta-te e comove-te só até amanhã, que amanhã precisam da tua esperança para o fundo de maneio do sistema. Estás assim ou assado, vais andando, podia ser pior, pelo menos isto ou aquilo. À noite, enfia-te na cama, dá-te de frente, de costas e de joelhos, puxa o cobertor, faz a dobra do lençol, reza, agradece e adormece.