28.6.17

Framboesas

Não foi só o senhor Pereira: também a viúva trocou de carro. É qualquer coisa muito poderosa, tanto em cilindrada como em aspeto, matrícula de dois mil e dezassete e aquela cor dourada que vai muito bem com os feitios ostensivos de gosto duvidoso. A ela, porém, falta-lhe mestria para o dominar. Estaciona-o em contramão, a um metro do passeio e na diagonal, mesmo a jeito para ser endireitado à força por qualquer estouvado que passe. Aparentemente, isso pouco importa à viúva. Ela gosta é que olhem, reparem, e ainda dá bónus de fidelização. Abre a porta devagar, põe uma perna de fora, o vestido sobe, as coxas ficam ao léu, eis as virilhas, uma nesga das calcinhas que cobrem o sexo abandonado, só muito depois a outra perna, e finalmente em pé sobre os magníficos tacões. A esta altura, o senhor Pereira, que se abeirou de mim a querer saber o que penso de Pedrógão Grande, está todo ele incandescente, liberta faúlhas pelo canto dos olhos, já mete as mãos nos bolsos a disfarçar o vigor da labareda. A menina não acha que esta senhora é uma elegância? E vira-me as costas para se curvar ao chão que a viúva pisa. Como está, minha senhora? Passou bem, minha senhora? Ela semicerra os olhos numa languidez estudada, o xadrez preto e branco do vestido vai ondulando com o passo e toda a linearidade se deforma e contorce, dando a sensação de uma vertigem ou a ideia de um pântano. Retribui o cumprimento, afasta-se dois passos, volta atrás: desculpe, senhor Pereira, nem ofereci. Não estende, mas mostra, na mão aberta, uma caixinha de framboesas. Eu, como sempre, invisível ou à mesma distância que separa o espetador dos personagens do filme. O senhor Pereira vai com dois dedos, muito cuidadoso, agarra a carne selvagem, lustrosa, de uma framboesa, decerto já imagina o gosto do suco escarlate a desfazer-se na língua, o rigoroso balanço entre doçura e acidez, a consistência firme e fugidia. Aceito uma, minha senhora. Muito obrigado, minha senhora.
Ela sorri - e sorri como o diabo - e com um ligeiro aceno de cabeça dispensam-se mais palavras. Afasta-se. De novo com as mãos nos bolsos, ainda quente, o senhor Pereira diz-me baixinho, sem tirar os olhos dela:
- Eu nem gosto disto, só aceitei por educação.

27.6.17

Pantera

Lá vai a mãe dos dois filhos com olhos de azeitona preta. É a primeira vez que a vejo sem eles, mas não se julgue que vai de mãos livres, a desfrutar em paz da manhã soalheira, do canto da passarada, das promessas do solstício. Vai carregada de mercearias, os sacos distribuídos pelas dobras dos cotovelos, dos pulsos e dos dedos. Anda a custo, e, sob o peso da carga, pronuncia-se o joelho valgo. Ao passar por mim faz de conta, põe-se a admirar a esplanada do café onde os reformados se procuram na necrologia e os jovens estudam para os exames. Que idade terá? Calculo por alto, tiro medidas à infância que sobrevive no rosto dela, subtraio a idade do filho mais velho, comparo com a do marido, que a esta hora há de estar a gozar o alívio da dose diária de opiáceos, e imagino que tenha sido mãe aos quinze, dezasseis, menos de dezoito sem dúvida. Mas depois, multiplico a amargura que vai pelo corpo abaixo, o cabelo seco, desobediente, o peito raso e côncavo, os tornozelos inchados, e, afinal, é acabada, usada, abusada, e, quem sabe, culpada.
Quantas mulheres podem habitar numa só?, pergunto-me muitas vezes, até quando olho ao espelho, leio o que escrevo, revejo o que fiz, ou me esforço a desculpar o fraco entendimento dos homens sobre nós. E nesta que passa, livre dos filhos mas carregada de mercearias, habitam pelo menos três: uma que é inocente e está sempre à janela dos olhos, outra que se desenganou e endureceu para aguentar o corpo. Na terceira, improvável, só reparo quando ela vai para dobrar a esquina: uma pantera, estampada nas costas da blusa, pronta para investir.

23.6.17

Kakasana

Passam camiões, tornados, bichos de sete cabeças, descargas elétricas, pesos mortos, rodas dentadas, e eu choro, respiro e nem vacilo. Fixar os olhos, jamais as ideias, eis o segredo. Mas, de repente, uma palavra tua e descubro como é precário este equilíbrio. As palmas das minhas mãos, que me sustentam o corpo inteiro, têm o teu nome escrito em todas as linhas.

22.6.17

Ecoponto

As pessoas queixam-se muito da merda que é a televisão, é uma revolta generalizada e barulhenta que me dá pena. É curioso que esses que tanto protestam, em nenhum momento a recusam e lhe cortam o pio e os cabos. Parece-me que são todos obrigados a ver televisão e, ah! que linda a obediência! É metade do dia a assistir e a outra metade a dizer que não devia ter sido mostrado e, no meio de tudo, ainda pagam. Aflitos, com medo de perderem o fio à meada da atualidade e de lhes faltar opinião na hora dos debates. 
É muito bonito o palavreado todo, mas com que facilidade há de levá-lo o vento, sem que um só alicerce do sistema trema! A mudança só se faz quando realmente todos perderem o medo e desligarem o botão. Se não, é como aquela gente que aceita toda a espécie de lixo, achando que tudo se resolve depois separando-o no ecoponto. Renovam o ciclo, jamais o quebram.

20.6.17

Dias consecutivos

Por seis dias consecutivos, Deus esmerou-se na arquitetura de grandezas e miudezas, concebeu-as para nos maravilharem e de forma a que os mistérios fossem revelados em conta-gotas, despertando novas crenças e ainda maior espanto. Mas ao sétimo dia descansou, porque não tinha contrato, não precisava de pão para a boca, não tinha de prestar contas a ninguém e assumiu que as criaturas eram responsáveis pelos próprios atos e pagariam pelos seus erros. 
Tu não descanses, que não és Deus. Se descansas ficas só e hão de apontar-te o dedo assim que estiveres de costas. Deus também está só, mas está no pedestal, nas alturas, nos píncaros desconhecidos do universo, e isso vai valendo alguma coisa, justifica o ouro dos templos, a lonjura das peregrinações, o sacrifício de humanos e animais. A solidão de gente vulgar é invisível e carrega no lombo uma trouxa de culpas, penas e mágoas que não merece cântico ou devoção. Então vá, cumpre, mexe-te, ainda que te falhem as pernas e te ocorra o sonho de dias melhores. Enxota, como moscas, o que puder desconcentrar-te: ideias, poemas, perguntas, suspeitas. Fecha as janelas, a luz é perigosa porque revela as sombras e nas correntes de ar viaja o perfume de flores e frutos proibidos. Ganha com uma mão, paga com a outra, no entremeio dá esmola, lava as duas a seguir. Se te pedirem, cumpre a pena do ladrão, faz as vezes da prostituta, consome como um viciado. Diz justiça, diz amor, diz honestidade, mas deixa que outros tratem disso, tu põe-te na fila, para, arranca, liga, desliga, gosta, desgosta, aproveita o brinde, a promoção, o sorteio, o cartão. Lê o jornal, come a sopinha de letras até ao fim, obrigadinho por ta levarem à boca, interessa-te, espanta-te e comove-te só até amanhã, que amanhã precisam da tua esperança para o fundo de maneio do sistema. Estás assim ou assado, vais andando, podia ser pior, pelo menos isto ou aquilo. À noite, enfia-te na cama, dá-te de frente, de costas e de joelhos, puxa o cobertor, faz a dobra do lençol, reza, agradece e adormece.

14.6.17

Magníficas experiências

Não é por sermão que tenha levado. É por gosto, principio, hábito e exemplo dos que me educaram, que cumprimento as pessoas com quem me cruzo, mal distinguindo o que vestem, que função têm, com que cara andam. Daí o meu espanto quando ouço a história (e nem sei se é verdadeira) de um professor universitário que, para validar uma investigação sobre "invisibilidade pública", vestiu, durante um mês, a pele de um varredor de rua. A indiferença de que foi vítima nesse quotidiano, diz ele, foi uma lição de humildade. Ao que parece, o professor compreendeu que um simples bom dia não só é prova de respeito pelo outro como pode ainda, nas suas palavras, ser "um sopro de vida".  
Estranho que as pessoas careçam de originais e magníficas experiências para aprender o elementar. Lembra-me aqueles – e são muitos – que só depois de uma grande viagem realizam a própria pequenez, a desimportância dos seus chiliques e o valor do que possuem. Ficam os pobres condenados à arrogância, por falta de meios para viajar. Conheci um homem assim. Publicamente, repetia, mesmo a despropósito, o quanto as caminhadas em desertos escaldantes, planícies inóspitas, bairros de miséria nunca imaginada e destroços de bombardeamentos, o tinham tornado humilde e despojado. Talvez tenha impressionado os que mal o conheciam. Mas eu vi que nenhum quilómetro palmilhado, nenhuma desgraça ou ruína avistada de perto, lhe tirou as manias de superioridade, a tendência para açambarcar o que por direito não era seu, o menosprezo por todos aqueles que andavam na sua órbita, o espírito parolo que se extasia com roncos de motor e telemóveis de última geração. E, na maioria das vezes, nem bom dia nem boa tarde.  

13.6.17

Vulcão

Nunca fui uma mãe preocupada. Sonhei coisas poucas e simples para a infância deles: que brincassem como animais, dormissem como anjos e se sentassem à mesa como príncipes. Cumpriu-se. Mas falhei nos cuidados extremosos, não vedei as escadas, não tranquei facas, remédios e outros venenos. Cólicas, trambolhões, viroses, birras e exames pareceram-me só coisas da vida, que vêm e vão, como outras hão de vir e ir pelo resto dos dias e está tudo bem. Esqueci-me de chorar no primeiro dia de escola. Tudo isto fez de mim fraca companhia para as outras mães e ouvinte desinteressada quando o tema de conversa são os enguiços de rotina, as aflições com amuos, tosses, sonos difíceis, programinhas de tempos livres, um ponto a mais ou a menos na ficha de avaliação.
Às vezes, porém, sem motivo ou sintoma aparente, quando tudo está em paz, qualquer coisa dentro de mim se desarranja. Como um vulcão de repente acordado, emerge uma ideia de futuro, uma imagem do mundo, uma impressão paralela à vida que tenho, e assusto-me. Corro à janela, preciso de os ver e ouvir, mas nem assim consigo alívio. São instantes em que sinto, de forma aguda, concentrada, avassaladora, o que as outras mães vão sentindo em conta-gotas, pelas miudezas do quotidiano. A minha mente é ocupada pela ideia, infeliz, de que eles seguem para o mar alto em barquinhos de casco frágil. E à noite peço-lhes que durmam comigo. Não prego olho porque a cama é pouca para todos e o calor suporta-se mal, mas a angústia vai perdendo corpo, vai perdendo força, esfuma-se e repousa como o pó das coisas passadas.

9.6.17

*

Votam, separam o lixo, ensinam os filhos a dizer por favor e obrigado e acham que isso é prova bastante da sua consciência cívica, do seu trabalho por um mundo que preste.

8.6.17

Florações

O excesso de convívio corrompe-me a escrita. A primavera tem destas coisas, há nela um abuso de disponibilidades, uma transpiração de afeto, uma leviandade nas palavras, uma urgência em estar, receber, visitar. O jornal diz que, nas redes sociais, andam todos nus. As festas estão à porta, tudo é pele, calor, entrega, os dias são tão largos e luminosos que a melancolia não pega. Mas as escancaras não me seduzem. Eu gosto de vasculhar, espreitar pelas fechaduras, arrancar uma peça de roupa de cada vez. O que na primavera me agrada são as florações vagarosas, o intervalo que cresce entre o nascer do sol e o despertar da cidade, a ternura com que a rapariga da papelaria descansa a mão no ventre e se põe a sonhar. 

7.6.17

Infidelidade

De cada vez que escrevo, pergunto-me quantos serei capaz de seduzir, da mesma forma que apenas me lês nos curtos intervalos de outras histórias.

5.6.17

Mrs. Dalloway, Elena Ferrante, a mulher do senhor Pereira e o arroz de cabidela

Fui à estante repescar Mrs. Dalloway porque a mulher do senhor Pereira me fez lembrar qualquer coisa que eu estava certa de um dia lá ter sublinhado. Correm-se alguns riscos ao pegar num livro que se tenha lido noutra idade. É como encontrar um antigo namorado vinte anos depois: quase sempre se revela vulgar, barrigudo e frouxo, desprovido de encantos. Costuma ter por companhia uma mulher com ar de enfado, um ou dois filhos que gritam muito e dão pontapés no ar, um bom carro, e diz coisas sem interesse nem charme, como agora não tenho tempo para nada. É claro que nada disto é facto,  é apenas ponto de vista, outra cadência que tem agora o meu coração, outros os olhos com que reparo. Mas, enfim, a mediocridade de antigos namorados pouco me importa e nem sequer me envergonha. Já no caso dos livros, pode a coisa resultar num grande sofrimento porque à leitura sempre me entreguei com uma devoção que nem de perto os namorados mereceram. Seguro, se queremos preservar memórias de espanto, surpresa e fascínio, é não reler jamais. Então decidi folhear Mrs. Dalloway distraidamente, pela rama, só buscando a frase, cuja lembrança foi disparada pelo breve encontro com a mulher do senhor Pereira. 
Ia ao pão e à fruta, de saltos altos, muito pintada, nem um fio de cabelo ao acaso, deu-me os bons dias com a altivez do costume. É tão trabalhosa a dignidade de certas pessoas.
- E como está o senhor Pereira?
- Está em casa, a ler os jornais. Tem sempre um semanário, quatro ou cinco diários em atraso... mais os desportivos e vai-se o fim de semana nisto. Eu tenho é de me pôr em casa num instantinho, vou fazer arroz de cabidela para o almoço. O meu marido pela-se por um arroz de cabidela, já me anda a pedir há tanto tempo. E o meu filho também vem. Vou fazer se faço a mais para ele levar.
- Então vá lá à sua vida, vá.
Mas ela não vai.
- Posso-lhe fazer uma perguntinha?
- Pois claro.
- A menina lê muito, não lê?
- Vou lendo.
- Já ouviu falar numa Ferrante, qualquer-coisa Ferrante? Tem quatro livros que é a história da vida dela, ou de outra qualquer, não sei.
- Elena Ferrante. Sim, já li.
- E que lhe parece?
- Os três primeiros são assim-assim. O quarto é um enxerto de porrada. 
Julguei que fosse desentender e virar costas. Mas uma onda de luz acordou-lhe os olhos mortiços. 
- Quer dizer uma tareia? Magoa?
- Ou sufoca, não sei bem. Mas leia e logo verá.
Tirou o saco de compras da bolsa, abriu-o, sacudiu-o para se livrar não sei do quê, voltou a dobrá-lo, pressionou muito bem os vincos e guardou-o de novo. 
- Eu antigamente lia muito, mas agora...
Agora nada, pensei. Não fale, não se humilhe. Já sabemos que foi delapidada, desbastada a sua inteligência, apagados os talentos, embotadas as sensibilidades, enquanto o senhor Pereira lia tranquilamente os jornais. Ontem, como hoje, é a forma que ele tem de saber que o mundo gira sem que precise de o empurrar.
- Vá lá, vá, que um arroz de cabidela é coisa para duas horinhas à volta dos tachos.
- A menina sabe fazer?
- Não.
E ela, a pose recuperada, um sorriso lateral, uma ponta de sarcasmo:
- Já imaginava.

Ah! Eis a frase em Mrs. Dalloway"Apesar de duas vezes mais inteligente do que o marido, tinha de ver as coisas pelos olhos dele – uma das tragédias da vida de casado."

2.6.17

Matéria-prima

Quando um Homem morre, até à forma como coçava o rabo lhe atribuem maravilhas. O cadáver é a mais antiga matéria-prima da estátua.
Chegando a minha hora, por favor, não me façam igual pois por cada grandeza inventada, falseada e apregoada, no íntimo de cada um virá à lembrança uma prova do oposto, qualquer infelicidade que eu tenha cometido, um pé na argola, as costas voltadas, palavras malditas, os sete pecados emergindo em dias de turbulência. E entre a cerimónia e o sentimento poderá haver abismo tão fundo que eu ficarei na dúvida, no limbo, no purgatório. Prevaleça a humildade entre vivos e mortos na hora em ela faz mais sentido: não se armem uns em juízes, nem se louvem os outros como deuses. 

1.6.17

Selinho Blog em Bom: a escolha da Mãe Preocupada

Às vezes, não há como fugir ao circo. E quem, como eu, o espreita mas evita a arena, talvez mereça, de vez em quando, ser obrigada a vestir um fatinho de licra e lantejoulas e a saltar o arco de fogo.
Pipoco Mais Salgado voltou a arrastar-me, pela terceira vez, certamente mais pelo gozo de me ver com esse fatinho do que por achar que eu dê espetáculo que preste. Em todo o caso, grata pela nomeação. É sempre uma honra ser escolhida pelo dono disto tudo da blogosfera, quando o sabemos tão seletivo mas também incapaz de ponto sem nó.

Aqui fica o selinho que me foi atribuído - valha-me Deus, que selinho!


Olhos

Faz tempo que não conheço uns olhos vadios, curiosos, espantados, amantes do acaso e do detalhe. Que digam qualquer coisa da sua dúvida e da sua vontade. Parecem todos muito certos da direção que tomam, apontando uns às biqueiras dos sapatos, outros ao carro da frente e quase todos ao fim do mês. Mesmo assim, as senhoras vão abaixo nos seus tacões impossíveis e os cavalheiros tropeçam nos degraus, mas nem uns nem outros espreitam pelo canto do olho para saber se há quem, como eu, tenha ficado a rir.