26.5.17

Estranhos

Gosto de dar conversa a estranhos e se a minha avó fosse viva deitaria as mãos à cabeça por isto. Sempre teve muito medo que eu fosse raptada, drogada, amputada e jamais devolvida. Quando fui para a escola primária, ordenou-me que não falasse com nenhum desconhecido e muito menos aceitasse ofertas. Logo no primeiro dia desobedeci, aceitei do meu colega de carteira um cacho de uvas em gesso, para pintar, e ela deitou-o ao lixo. Não fosse a serenidade da minha mãe e o seu gracioso entendimento com o mundo, eu teria embarcado na vida pela metade, com um pé atrás, espreitando por cima do ombro e por baixo das camas.
Gosto de dar conversa a estranhos por nada dever nem cobrar. É um instante que vale por si, livre de expectativas, e por isso pode dar-se ao luxo raro da honestidade. Quando um homem, na frutaria, me contou desgostar de tal forma de abacates que os dava às galinhas, ri-me muito com ele. Ficámos na conversa, fazendo graças com a situação, mas se fosse meu pai, meu filho, meu amante, meu amigo, ter-me-ia zangado e cobrar-lhe-ia a leviandade. Ainda haviam de piorar as coisas quando ele, ao ver-me encher um saco de mangas, deixe-se de tropicalices, não há nada como uma maçãzinha de Alcobaça.
E a dona Isaura, que ia todas as manhãs comigo no 90 quando eu estagiava, que seria de mim se fossemos mais do que estranhas? A dona Isaura fazia limpezas na Baixa, tinha as mãos lustrosas e rosadas, sem textura, queimadas pela lixívia. Engraçou comigo logo na primeira viagem e quis saber-me a profissão, que curso tinha, quantas línguas falava. No embalo das conversas, que eram diárias mas não iam além dos quinze minutos, falou-me do filho mais novo, uma joia de rapaz que nenhuma rapariga até então merecera. Preguiçoso, é certo, deixara o décimo segundo ano muito mal acabadinho e não tinha emprego, mas era inteligente ao seu modo e – enfatizou – muito respeitador. Que culpa tinha ele de não lhe verem os talentos? Sem que eu encomendasse, um dia prometeu trazer uma fotografia. Na manhã seguinte, medrosa, planeei fazer de conta que não a via quando entrasse no autocarro. Mas a dona Isaura, que já vinha no 90 desde Contumil, acenou-me efusivamente e foi batendo com a mão no banco ao lado como se faz às crianças para ordenar que sentem. Venha, venha, tenho aqui o meu filho para ver o que acha. Tirou da carteira a fotografia e, muito ansiosa, é ou não é bonito? Oh, era tão feio e desmaiado, com a cabeça enterrada nos ombros e, pior, tinha nos olhos o atordoamento de quem vê fantasmas. 
- A menina não se importa, pois não?
- De quê, dona Isaura?
- De ele não ter os seus estudos. 
Percebi então que a dona Isaura andara desde o princípio a fantasiar um romance. Estava convencida de que eu era a rapariga certa para salvar o filho daquela injusta e injustificada solidão, dando-lhe um rumo, uma família e certamente um emprego.
- Tenho a certeza que ele também vai gostar muito de si. 
Nunca mais apanhei o 90. Passei a ir a pé, coisa pouca, meia hora sempre a descer e nem que chovesse. Até ao dia em que parei num pão quente no Marquês para a minha DDR de cafeína e o empregado sisudo me desafiou para um quebra-cabeças de matemática.