25.5.17

Dois botõezinhos

Os meus filhos crescem e vou perdendo as ganas de escrever sobre eles. Em breve serão pessoas comuns, integradas no sistema, respondendo a apelos vulgares, e deixarão de me fazer perguntas difíceis a lembrar o tamanho da minha ignorância e a falta de verdade nas minhas convicções.
Em tempos distantes – e que me parecem já de uma vida anterior – planeei ter muitos filhos. Crescendo uns, outros nasceriam e assim a minha casa seria sempre habitada pelos cheiros, rumores e revelações da infância. Ficou-me o sonho atravessado e, em algumas noites, revolve-me o cérebro e leva-me outra vez a experimentar o poder sobrenatural de dar à luz e a novidade de um amor maior. Acordo com pena por ver a casa condenada a esvaziar-se de inocência e subversão. A idade adulta interessa-me pouco. É morna, distraída, subjugada, tem pouca luz, fala num sentido e faz no outro. Admiro crianças e velhos. Mas os meus filhos estão a deixar de ser crianças e eu vou demorar a ser velha. Às vezes, o mais novo ainda me diz: serei sempre o teu bebé. E eu, sabendo que já só o diz por generosidade, vou pondo freio ao deleite, ao gozo da posse, ao maior equívoco do amor. 
Entretanto, despontaram dois botõezinhos violáceos numa planta que eu só aceitei por dispensar grandes cuidados e me parecer incapaz de dar flor.