3.5.17

A bicharada

Não há nada mais comum do que o sentimento da maternidade. Todas as mães caminham na corda bamba, equilibrando felicidades e angústias, ansiedade e culpa, saudosismo e expectativa, não havendo muito por onde reivindicar originalidade. Pertencem ao povo, e não aos iluminados, todas as verdades ditas sobre o assunto. É pegar numa enciclopédia de provérbios populares e lá se encontram todos os nossos pensamentos, com a vantagem da graça, da rima e do ritmo. 
Já as nossas bisavós se queixavam que os filhos só davam consumições para, no momento seguinte, louvarem a sua graça à família e aos vizinhos. Não havia blogues e as editoras eram criteriosas, por isso elas partilhavam as inquietações nos patamares dos prédios, nas salas de espera, à volta da lareira. E assim amplificavam o seu desespero quotidiano, a trabalheira de os manter na linha, os raros talentos manifestados desde tenra idade, também o arrependimento pela tareia de cinto, o desgosto pela mediocridade nos estudos, o medo que uma dor de barriga fosse prenúncio de morte. A par se criou o hábito de, virando costas a mãe que se queixasse, as outras desdizerem a sua capacidade de educar. Se fosse meu filho, deixava-lhe aquele rabo a arder.
Admitir que a maternidade tem dores não é, nunca foi, uma questão de coragem. De novo nada tem. De exclusivo, muito menos, e basta apreciar a bicharada da quinta, da selva e da savana. Mas certas mães têm achado novas e grandes oportunidades na miséria de não poderem tomar banho em paz, ler uma revista sem interrupções ou maquilhar-se com deve ser. E graças a elas nunca faltam temas ao lifestyle e livros de venda fácil.