23.5.17

Linha reta

O senhor Pereira tem sido visitado pelas filhas com alguma regularidade. Não é ainda uma regularidade amorosa, limita-se às datas festivas porque com o pretexto do calendário elas ficam dispensadas de dar o braço a torcer. É curioso como os filhos, entrando na idade adulta, se fazem juízes dos pais à luz não sei de que expectativas e razões. As duas raparigas não perdoam o que a mãe há muito perdoou: a voz de uma outra mulher saudando o senhor Pereira com o tom de quem abre braços, pernas e coração. Seriam elas tão seguras e inflexíveis caso o deslize fosse dos seus maridos? Virariam costas e, em passo firme, começariam uma nova vida, tal como aconselharam à mãe? Ou, desesperadas, usariam os filhos, as recordações, as debilidades, as contas conjuntas, a hipoteca da casa e mais o que lhes ocorresse para os aguentar? Talvez acabassem a esquecer, tomando tudo por um equívoco, uma troca de linhas. Quando o amor não é bastante, a cegueira é a melhor estratégia para preservar um casamento. 
Às vezes, porém, ocorre-me que pode não ser indignação o que afasta as filhas do senhor Pereira e as mantém superiores, como se imunes ao erro. Pode ser inveja. Aos setenta e dois anos, o senhor Pereira viu a luz de um amor novo brotando do coração de uma mulher vinte anos mais jovem, uma mulher que não precisa, não depende, não rasteja. O que dariam elas, quando os seus ventres secarem e os maridos afrouxarem e a vida não aparentar mais novidade, para escutar um igual diz, meu amor
Mas isto que escrevo é apenas o que suponho. Vejo passar as filhas do senhor Pereira, de cabeça erguida, beijando o pai de raspão, e peço a Deus e ao Destino que não as coloquem diante de muitas encruzilhadas, abismos e tentações, não virem o bico ao prego, poupem-nas ao reverso da medalha. Deixem-nas avançar em linha reta, sem desvios nem surpresas, conforme, aliás, o próprio pai lhes ensinou. Não há necessidade de as fazer tombar depois de tão crescidinhas.

19.5.17

Sarilho

No princípio eu ia à Cândida só para me abastecer e descansar os pensamentos. A frescura dos legumes, as múltiplas texturas da fruta, o odor marinho do peixe que ela própria vai buscar à lota todas as madrugadas, pedem tudo aos sentidos e pouco ou nada à inteligência. É um efeito semelhante ao da meditação. Palpar mangas, tomar o peso às laranjas, escolher as folhas de espinafre, medir o grão, avaliar a transparência dos olhos da pescada, tudo isto põe freio à mente e a turbulência assenta como a poeira de um dia anterior. Além disso, a Cândida é cheia de luz e bons sentimentos. Podia ser modelo, tem o cabelo comprido e forte, de ouro genuíno, duas safiras nos olhos, uma pele de quem não tem vícios ou preocupações. E por uma boca como a dela andam muitas senhoras a injetar-se com substâncias estranhas. A Cândida, se fosse modelo, não precisaria de photoshop nem de se maquilhar para ir ao facebook dar os bons dias e dizer hoje acordei assim. Mas o sonho dela era ter aquela loja. 
Então eu costumava lá ir ao fim do dia e parava de pensar, só desfrutava, cheirava, tocava, e assim podia recuperar a simplicidade das coisas terrenas, justas e sem mistério. Às vezes o mais novo: o quê? vamos outra vez à Cândida? E eu a inventar pretextos, as bananas estão no fim, falta-me um raminho de coentros, sem caril não posso fazer o teu prato favorito.
Com o tempo – e sei lá mais o quê – a Cândida foi-me envolvendo devagar num laço, num feitiço ou coisa que o valha, porque me adivinhava e se compadecia. Não pense, eu penso por si. Hoje vai jantar caldeirada e vou já cortar tudo. Mas se com as outras freguesas ela manteve o hábito fácil de comentar a qualidade dos legumes e o preço galopante do salmão, comigo foi-se espraiando: literatura, vidas passadas, profundezas da alma, terapias alternativas. Agora, quando vou à Cândida a minha mente já não pode descansar. Enquanto escama, corta, pesa, ela arrasta-me para o sarilho das inquietações e dos prazeres da Humanidade. Apetece-me sempre conversar consigo, que é que quer? E o mais novo, impaciente mas acostumado, aninha-se entre os sacos de juta e põe-se a contar feijões. 

16.5.17

A minha é a mais esperta

Ao almoço, quem tem filhos fala dos filhos, quem tem cães fala dos cães, quem tem gatos fala dos gatos. Pergunto-me se valerá a pena eu falar-lhes da lagartixa que há uns anos vive no meu terraço. Infelizmente, não posso exibi-la porque foge se me aproximo para a fotografar, escondendo-se por trás dos vasos ou nas brechas das lajetas. Quando deixo a portada aberta, entra-me em casa aos soluços, dá umas voltas desatinadas, enfia-se atrás da estante. Depois, o instinto leva-a de volta para onde há sol, liberdade e alimento. A minha lagartixa é muito mais esperta do que todas as outras. 

15.5.17

Lugar-comum

Era uma solução triste, mas nem por isso descabida. Foi até a primeira a ocorrer-lhe quando se achou grávida. Antigamente não, mas agora é simplesa gente chega lá, diz que não quer o filho e prontos, fazem-se as coisas bem feitas e com limpeza. Mas depois do susto inicial, a rapariga da papelaria ficou a matutar por tanto tempo que esgotou o prazo para reverter o incidente: e se não voltasse a ter outra oportunidade de ser mãe? 
Acha que fiz bem?
Eu não acho coisa alguma. Não é minha a vida, nem o sonho, nem o filho. Tenho sobre o aborto duas visões: uma individual, outra social. Mas a rapariga da papelaria não é eu e também não é um país inteiro, está no território vago da individualidade alheia, perto porque tem nome e rosto, infinitamente longe apenas por ser outra. Dela apenas sei que tem trinta e poucos, um cabelo de ouro falso, é doce e atrevida, idealiza o amanhã com uma melancolia que cheira a velhice de pantufas. Porque me faz perguntas difíceis? Decido responder-lhe com um lugar-comum. Os lugares-comuns são obra de génio, as únicas verdades que não podem ser desditas. E este serve o propósito e salva-me a mim: 
- Acho que deve fazer sempre o que o coração mandar.
A rapariga da papelaria tem sonhado muito com um amor eterno. É um sonho tão puro, tão desarmado, que talvez Deus se tenha disposto a realizar-lho como deve ser: nada de versões fajutas, não um homem com flores na mão ou mel na língua, não um pedido de casamento de joelhos, não um êxtase vulgar, de rotina, obrigado por um contrato vitalício. Um filho, só. O filho amará sempre, apesar e para além de tudo, por cima de palavras mal ditas, portas batidas, mesas reviradas, culpas, tareias, enganos e distâncias. 
- Só espero que...
Interrompe-se com um suspiro e eu, para não a constranger, disperso os olhos pelas revistas no balcão.
- Não é por nada, mas eu preferia mesmo que fosse um menino.

7.5.17

Os dias da minha mãe

A minha mãe teve seis filhos, mas nunca lhe faltou a paciência nem perdeu o espírito. Como sou caçula, até uma certa altura os meus problemas foram diminuídos aos seus olhos. Uma espécie de pulseira azul na triagem de Manchester, o que não era de condenar, pois se o meu irmão era chamado para cumprir serviço militar e as minhas irmãs estudavam para exames e tinham arrufos com namorados, qual a importância da corrente solta da minha bicicleta? Em compensação, por não ter nascido ninguém depois de mim, foram meus e só meus, durante muitos anos, o seu colo, a sua cama, os seus mimos. E a minha avó, entredentes: se tem algum jeito, uma marmanjona pendurada na mãe!
Versejava com graça e destreza, bastava dar-lhe mote. Dançava, contava, escrevia, tinha um humor garoto e uma cativante subtileza na forma de provocar, ironizar ou apanhar alguém em falta. Foi com ela que aprendi que a elegância pede tanta moderação no uso do acessório como na exibição do essencial, mas como não lhe herdei a beleza - os deuses não podem estar presentes em todas as criações - fracasso todos os dias na tentativa de a imitar.
Tal como os meus filhos, também eu me habituei a dividir a minha mãe com os livros sem inveja ou conflito. Porém, às vezes, aborrecia-me de não haver quem brincasse comigo e a minha impaciência era tal, o ócio desesperava-me tanto, que eu caía aos seus pés repetindo um choradinho:
- Não sei o que hei de fazer!
Ela fechava o livro para poder dar-se só a mim, olhava-me com uma profundidade azul, comovida, magnética, e dizia:
- Então inventa.
E não houve jamais outro conselho que me fosse tão útil nas voltas e reviravoltas da vida.

5.5.17

Sangrar

As nódoas de sangue são as mais difíceis de tirar. As mulheres sabem-no desde o princípio do mundo. 
Podemos até conseguir pôr todos os homens a lavar roupa e isso será socialmente justo. Mas é tolice desejar que sangrem como nós.

4.5.17

Ditaduras

A emergência de uma ditadura é sempre muito insuspeita e vestida de nobres valores: justiça, igualdade, riqueza, segurança. Só existe um discurso para a conquista do poder. Um único caminho que apenas no fim revela o destino que serve. Tarde se desconstroem os eufemismos: justiça afinal é castigo, igualdade converte-se em superioridade, riqueza vira açambarcamento e segurança cumpre-se com grade, grilhão e mordaça. 
Portanto, não é o discurso que conduz a uma vitória porque ele é indiferenciado. É a maior ou menor fragilidade do povo que decide se acabamos reféns ou saímos livres. E o que digo, embora parecendo, nada tem a ver com regimes políticos.

3.5.17

A bicharada

Não há nada mais comum do que o sentimento da maternidade. Todas as mães caminham na corda bamba, equilibrando felicidades e angústias, ansiedade e culpa, saudosismo e expectativa, não havendo muito por onde reivindicar originalidade. Pertencem ao povo, e não aos iluminados, todas as verdades ditas sobre o assunto. É pegar numa enciclopédia de provérbios populares e lá se encontram todos os nossos pensamentos, com a vantagem da graça, da rima e do ritmo. 
Já as nossas bisavós se queixavam que os filhos só davam consumições para, no momento seguinte, louvarem a sua graça à família e aos vizinhos. Não havia blogues e as editoras eram criteriosas, por isso elas partilhavam as inquietações nos patamares dos prédios, nas salas de espera, à volta da lareira. E assim amplificavam o seu desespero quotidiano, a trabalheira de os manter na linha, os raros talentos manifestados desde tenra idade, também o arrependimento pela tareia de cinto, o desgosto pela mediocridade nos estudos, o medo que uma dor de barriga fosse prenúncio de morte. A par se criou o hábito de, virando costas a mãe que se queixasse, as outras desdizerem a sua capacidade de educar. Se fosse meu filho, deixava-lhe aquele rabo a arder.
Admitir que a maternidade tem dores não é, nunca foi, uma questão de coragem. De novo nada tem. De exclusivo, muito menos, e basta apreciar a bicharada da quinta, da selva e da savana. Mas certas mães têm achado novas e grandes oportunidades na miséria de não poderem tomar banho em paz, ler uma revista sem interrupções ou maquilhar-se com deve ser. E graças a elas nunca faltam temas ao lifestyle e livros de venda fácil.