30.5.17

Savasana

Mesmo de olhos fechados, vejo o bailado de luz solar que o movimento das águas projeta no teto. Dá uma ilusão de claridade interior, de expansão, que ajuda a imitar a morte. 
Não sei porque é que a autoridade tributária e aduaneira gosta tanto de mim e me convida tantas vezes a ir à sua casa, onde passo sempre algumas horas a provar que sou remediada e gasto muito em educação. Os bloggers não me interessam por aquilo que dizem mas por aquilo que veem. Podem tentar enganar os leitores com auto-adjetivações, copiar pensamentos e doutrinas, mas é impossível simularem aquilo em que jamais repararam. A rapariga da papelaria vai ter uma menina. Nunca me engano. Mas se lho digo, há de julgar que estou a rogar praga. Tive uma colega assim: pedia muito para ter um menino. Quando engravidou, disse-lhe que ia ser uma menina, ela bateu três vezes na madeira como se tivesse tido uma visão do demo. Não me enganei. Cada vez mais farta de ouvir culpar a juventude, como se a miséria de cada época fosse de geração espontânea. A inveja é como o cancro, quando se vê por fora é porque já destruiu tudo por dentro, tenho de anotar esta frase. É para mim um mistério que tantas mulheres independentes e desinibidas se franzam de nojo quando se lhes fala do coletor menstrual. O corpo é sempre mais fácil por fora do que por dentro, penso. Quando eu era pequena e me portava mal, o meu irmão chamava-me comunista-marxista-leninista, assim, de uma assentada, e ainda hoje, se debatemos grandes causas, atira bala semelhante, mas agora acabamos a rir, porque os dias, não parecendo, são de temperança. Todas as tardes passo debaixo do viaduto precisamente à hora em que as meninas do colégio, encantadoras nos seus uniformes de inspiração escocesa, se cruzam com as prostitutas cheias de bijuteria dourada a ocultar a decomposição da carne. É um quadro insólito, que me atrai tanto quanto me angustia. Gostaria de as colocar cada qual num tempo que pudesse fechar-se sobre si para se livrar de contaminação: as prostitutas são passado, um novo futuro há de vir com as meninas, inocentes e aplicadas. Mas o tempo não tem prateleiras e o futuro das meninas do colégio é tão cheio de trágicas possibilidades como foi inocente o passado das prostitutas e saber que tudo corre como um rio aonde tantas águas afluem e cuja foz está no segredo dos deuses, perturba e despista.
Abro os olhos e a luz, sem o filtro das pálpebras, magoa como qualquer coisa alheia e despropositada. Há dias em que tenho muita dificuldade em morrer.

29.5.17

Autoridade

Numa feira do livro em saldo, de onde saí de mãos a abanar, a adolescente reclamava baixinho com o pai, apressado de ir ver a bola: mas eu ainda não encontrei o que procuro, papá! O homem, à roda dos quarenta, colarinhos levantados, barba num falso descuido, olhar de viés pousando de fêmea em fêmea, bufou. 
- Mas que queres tu, afinal? 
- Quero Um Amor de Perdição, um qualquer, deve haver tantos...
Ele deu um jeito aos colarinhos, pegou num livro ao calhas, folheou-o sem o ver, e exerceu como soube a sua autoridade paterna:
- Não te metas nisso, Maria Francisca!

26.5.17

Estranhos

Gosto de dar conversa a estranhos e se a minha avó fosse viva deitaria as mãos à cabeça por isto. Sempre teve muito medo que eu fosse raptada, drogada, amputada e jamais devolvida. Quando fui para a escola primária, ordenou-me que não falasse com nenhum desconhecido e muito menos aceitasse ofertas. Logo no primeiro dia desobedeci, aceitei do meu colega de carteira um cacho de uvas em gesso, para pintar, e ela deitou-o ao lixo. Não fosse a serenidade da minha mãe e o seu gracioso entendimento com o mundo, eu teria embarcado na vida pela metade, com um pé atrás, espreitando por cima do ombro e por baixo das camas.
Gosto de dar conversa a estranhos por nada dever nem cobrar. É um instante que vale por si, livre de expectativas, e por isso pode dar-se ao luxo raro da honestidade. Quando um homem, na frutaria, me contou desgostar de tal forma de abacates que os dava às galinhas, ri-me muito com ele. Ficámos na conversa, fazendo graças com a situação, mas se fosse meu pai, meu filho, meu amante, meu amigo, ter-me-ia zangado e cobrar-lhe-ia a leviandade. Ainda haviam de piorar as coisas quando ele, ao ver-me encher um saco de mangas, deixe-se de tropicalices, não há nada como uma maçãzinha de Alcobaça.
E a dona Isaura, que ia todas as manhãs comigo no 90 quando eu estagiava, que seria de mim se fossemos mais do que estranhas? A dona Isaura fazia limpezas na Baixa, tinha as mãos lustrosas e rosadas, sem textura, queimadas pela lixívia. Engraçou comigo logo na primeira viagem e quis saber-me a profissão, que curso tinha, quantas línguas falava. No embalo das conversas, que eram diárias mas não iam além dos quinze minutos, falou-me do filho mais novo, uma joia de rapaz que nenhuma rapariga até então merecera. Preguiçoso, é certo, deixara o décimo segundo ano muito mal acabadinho e não tinha emprego, mas era inteligente ao seu modo e – enfatizou – muito respeitador. Que culpa tinha ele de não lhe verem os talentos? Sem que eu encomendasse, um dia prometeu trazer uma fotografia. Na manhã seguinte, medrosa, planeei fazer de conta que não a via quando entrasse no autocarro. Mas a dona Isaura, que já vinha no 90 desde Contumil, acenou-me efusivamente e foi batendo com a mão no banco ao lado como se faz às crianças para ordenar que sentem. Venha, venha, tenho aqui o meu filho para ver o que acha. Tirou da carteira a fotografia e, muito ansiosa, é ou não é bonito? Oh, era tão feio e desmaiado, com a cabeça enterrada nos ombros e, pior, tinha nos olhos o atordoamento de quem vê fantasmas. 
- A menina não se importa, pois não?
- De quê, dona Isaura?
- De ele não ter os seus estudos. 
Percebi então que a dona Isaura andara desde o princípio a fantasiar um romance. Estava convencida de que eu era a rapariga certa para salvar o filho daquela injusta e injustificada solidão, dando-lhe um rumo, uma família e certamente um emprego.
- Tenho a certeza que ele também vai gostar muito de si. 
Nunca mais apanhei o 90. Passei a ir a pé, coisa pouca, meia hora sempre a descer e nem que chovesse. Até ao dia em que parei num pão quente no Marquês para a minha DDR de cafeína e o empregado sisudo me desafiou para um quebra-cabeças de matemática.

25.5.17

Dois botõezinhos

Os meus filhos crescem e vou perdendo as ganas de escrever sobre eles. Em breve serão pessoas comuns, integradas no sistema, respondendo a apelos vulgares, e deixarão de me fazer perguntas difíceis a lembrar o tamanho da minha ignorância e a falta de verdade nas minhas convicções.
Em tempos distantes – e que me parecem já de uma vida anterior – planeei ter muitos filhos. Crescendo uns, outros nasceriam e assim a minha casa seria sempre habitada pelos cheiros, rumores e revelações da infância. Ficou-me o sonho atravessado e, em algumas noites, revolve-me o cérebro e leva-me outra vez a experimentar o poder sobrenatural de dar à luz e a novidade de um amor maior. Acordo com pena por ver a casa condenada a esvaziar-se de inocência e subversão. A idade adulta interessa-me pouco. É morna, distraída, subjugada, tem pouca luz, fala num sentido e faz no outro. Admiro crianças e velhos. Mas os meus filhos estão a deixar de ser crianças e eu vou demorar a ser velha. Às vezes, o mais novo ainda me diz: serei sempre o teu bebé. E eu, sabendo que já só o diz por generosidade, vou pondo freio ao deleite, ao gozo da posse, ao maior equívoco do amor. 
Entretanto, despontaram dois botõezinhos violáceos numa planta que eu só aceitei por dispensar grandes cuidados e me parecer incapaz de dar flor. 

24.5.17

Obra

Vejo o amor como coisa tão simples que muito poucos embarcam no assunto comigo. É uma ponte, digo, e a minha versão parece-lhes fria, grosseira, sem encanto. Oh, que tristeza cada um na sua margem, dizem, e entre eles um rio que em dias maus arrasta lama, lodo, lixo, restos, mortos. Como consideram o amor um templo de cúpulas apontadas aos céus, onde a gente se ajoelha, reza e pede, um lugar de adulações, oferendas e sacrifícios, desiludem-se por eu ver nele uma vulgar obra de engenharia e achá-lo perfeito assim.

23.5.17

Linha reta

O senhor Pereira tem sido visitado pelas filhas com alguma regularidade. Não é ainda uma regularidade amorosa, limita-se às datas festivas porque com o pretexto do calendário elas ficam dispensadas de dar o braço a torcer. É curioso como os filhos, entrando na idade adulta, se fazem juízes dos pais à luz não sei de que expectativas e razões. As duas raparigas não perdoam o que a mãe há muito perdoou: a voz de uma outra mulher saudando o senhor Pereira com o tom de quem abre braços, pernas e coração. Seriam elas tão seguras e inflexíveis caso o deslize fosse dos seus maridos? Virariam costas e, em passo firme, começariam uma nova vida, tal como aconselharam à mãe? Ou, desesperadas, usariam os filhos, as recordações, as debilidades, as contas conjuntas, a hipoteca da casa e mais o que lhes ocorresse para os aguentar? Talvez acabassem a esquecer, tomando tudo por um equívoco, uma troca de linhas. Quando o amor não é bastante, a cegueira é a melhor estratégia para preservar um casamento. 
Às vezes, porém, ocorre-me que pode não ser indignação o que afasta as filhas do senhor Pereira e as mantém superiores, como se imunes ao erro. Pode ser inveja. Aos setenta e dois anos, o senhor Pereira viu a luz de um amor novo brotando do coração de uma mulher vinte anos mais jovem, uma mulher que não precisa, não depende, não rasteja. O que dariam elas, quando os seus ventres secarem e os maridos afrouxarem e a vida não aparentar mais novidade, para escutar um igual diz, meu amor
Mas isto que escrevo é apenas o que suponho. Vejo passar as filhas do senhor Pereira, de cabeça erguida, beijando o pai de raspão, e peço a Deus e ao Destino que não as coloquem diante de muitas encruzilhadas, abismos e tentações, não virem o bico ao prego, poupem-nas ao reverso da medalha. Deixem-nas avançar em linha reta, sem desvios nem surpresas, conforme, aliás, o próprio pai lhes ensinou. Não há necessidade de as fazer tombar depois de tão crescidinhas.

19.5.17

Sarilho

No princípio eu ia à Cândida só para me abastecer e descansar os pensamentos. A frescura dos legumes, as múltiplas texturas da fruta, o odor marinho do peixe que ela própria vai buscar à lota todas as madrugadas, pedem tudo aos sentidos e pouco ou nada à inteligência. É um efeito semelhante ao da meditação. Palpar mangas, tomar o peso às laranjas, escolher as folhas de espinafre, medir o grão, avaliar a transparência dos olhos da pescada, tudo isto põe freio à mente e a turbulência assenta como a poeira de um dia anterior. Além disso, a Cândida é cheia de luz e bons sentimentos. Podia ser modelo, tem o cabelo comprido e forte, de ouro genuíno, duas safiras nos olhos, uma pele de quem não tem vícios ou preocupações. E por uma boca como a dela andam muitas senhoras a injetar-se com substâncias estranhas. A Cândida, se fosse modelo, não precisaria de photoshop nem de se maquilhar para ir ao facebook dar os bons dias e dizer hoje acordei assim. Mas o sonho dela era ter aquela loja. 
Então eu costumava lá ir ao fim do dia e parava de pensar, só desfrutava, cheirava, tocava, e assim podia recuperar a simplicidade das coisas terrenas, justas e sem mistério. Às vezes o mais novo: o quê? vamos outra vez à Cândida? E eu a inventar pretextos, as bananas estão no fim, falta-me um raminho de coentros, sem caril não posso fazer o teu prato favorito.
Com o tempo – e sei lá mais o quê – a Cândida foi-me envolvendo devagar num laço, num feitiço ou coisa que o valha, porque me adivinhava e se compadecia. Não pense, eu penso por si. Hoje vai jantar caldeirada e vou já cortar tudo. Mas se com as outras freguesas ela manteve o hábito fácil de comentar a qualidade dos legumes e o preço galopante do salmão, comigo foi-se espraiando: literatura, vidas passadas, profundezas da alma, terapias alternativas. Agora, quando vou à Cândida a minha mente já não pode descansar. Enquanto escama, corta, pesa, ela arrasta-me para o sarilho das inquietações e dos prazeres da Humanidade. Apetece-me sempre conversar consigo, que é que quer? E o mais novo, impaciente mas acostumado, aninha-se entre os sacos de juta e põe-se a contar feijões. 

16.5.17

A minha é a mais esperta

Ao almoço, quem tem filhos fala dos filhos, quem tem cães fala dos cães, quem tem gatos fala dos gatos. Pergunto-me se valerá a pena eu falar-lhes da lagartixa que há uns anos vive no meu terraço. Infelizmente, não posso exibi-la porque foge se me aproximo para a fotografar, escondendo-se por trás dos vasos ou nas brechas das lajetas. Quando deixo a portada aberta, entra-me em casa aos soluços, dá umas voltas desatinadas, enfia-se atrás da estante. Depois, o instinto leva-a de volta para onde há sol, liberdade e alimento. A minha lagartixa é muito mais esperta do que todas as outras. 

15.5.17

Lugar-comum

Era uma solução triste, mas nem por isso descabida. Foi até a primeira a ocorrer-lhe quando se achou grávida. Antigamente não, mas agora é simplesa gente chega lá, diz que não quer o filho e prontos, fazem-se as coisas bem feitas e com limpeza. Mas depois do susto inicial, a rapariga da papelaria ficou a matutar por tanto tempo que esgotou o prazo para reverter o incidente: e se não voltasse a ter outra oportunidade de ser mãe? 
Acha que fiz bem?
Eu não acho coisa alguma. Não é minha a vida, nem o sonho, nem o filho. Tenho sobre o aborto duas visões: uma individual, outra social. Mas a rapariga da papelaria não é eu e também não é um país inteiro, está no território vago da individualidade alheia, perto porque tem nome e rosto, infinitamente longe apenas por ser outra. Dela apenas sei que tem trinta e poucos, um cabelo de ouro falso, é doce e atrevida, idealiza o amanhã com uma melancolia que cheira a velhice de pantufas. Porque me faz perguntas difíceis? Decido responder-lhe com um lugar-comum. Os lugares-comuns são obra de génio, as únicas verdades que não podem ser desditas. E este serve o propósito e salva-me a mim: 
- Acho que deve fazer sempre o que o coração mandar.
A rapariga da papelaria tem sonhado muito com um amor eterno. É um sonho tão puro, tão desarmado, que talvez Deus se tenha disposto a realizar-lho como deve ser: nada de versões fajutas, não um homem com flores na mão ou mel na língua, não um pedido de casamento de joelhos, não um êxtase vulgar, de rotina, obrigado por um contrato vitalício. Um filho, só. O filho amará sempre, apesar e para além de tudo, por cima de palavras mal ditas, portas batidas, mesas reviradas, culpas, tareias, enganos e distâncias. 
- Só espero que...
Interrompe-se com um suspiro e eu, para não a constranger, disperso os olhos pelas revistas no balcão.
- Não é por nada, mas eu preferia mesmo que fosse um menino.

7.5.17

Os dias da minha mãe

A minha mãe teve seis filhos, mas nunca lhe faltou a paciência nem perdeu o espírito. Como sou caçula, até uma certa altura os meus problemas foram diminuídos aos seus olhos. Uma espécie de pulseira azul na triagem de Manchester, o que não era de condenar, pois se o meu irmão era chamado para cumprir serviço militar e as minhas irmãs estudavam para exames e tinham arrufos com namorados, qual a importância da corrente solta da minha bicicleta? Em compensação, por não ter nascido ninguém depois de mim, foram meus e só meus, durante muitos anos, o seu colo, a sua cama, os seus mimos. E a minha avó, entredentes: se tem algum jeito, uma marmanjona pendurada na mãe!
Versejava com graça e destreza, bastava dar-lhe mote. Dançava, contava, escrevia, tinha um humor garoto e uma cativante subtileza na forma de provocar, ironizar ou apanhar alguém em falta. Foi com ela que aprendi que a elegância pede tanta moderação no uso do acessório como na exibição do essencial, mas como não lhe herdei a beleza - os deuses não podem estar presentes em todas as criações - fracasso todos os dias na tentativa de a imitar.
Tal como os meus filhos, também eu me habituei a dividir a minha mãe com os livros sem inveja ou conflito. Porém, às vezes, aborrecia-me de não haver quem brincasse comigo e a minha impaciência era tal, o ócio desesperava-me tanto, que eu caía aos seus pés repetindo um choradinho:
- Não sei o que hei de fazer!
Ela fechava o livro para poder dar-se só a mim, olhava-me com uma profundidade azul, comovida, magnética, e dizia:
- Então inventa.
E não houve jamais outro conselho que me fosse tão útil nas voltas e reviravoltas da vida.

5.5.17

Sangrar

As nódoas de sangue são as mais difíceis de tirar. As mulheres sabem-no desde o princípio do mundo. 
Podemos até conseguir pôr todos os homens a lavar roupa e isso será socialmente justo. Mas é tolice desejar que sangrem como nós.

4.5.17

Ditaduras

A emergência de uma ditadura é sempre muito insuspeita e vestida de nobres valores: justiça, igualdade, riqueza, segurança. Só existe um discurso para a conquista do poder. Um único caminho que apenas no fim revela o destino que serve. Tarde se desconstroem os eufemismos: justiça afinal é castigo, igualdade converte-se em superioridade, riqueza vira açambarcamento e segurança cumpre-se com grade, grilhão e mordaça. 
Portanto, não é o discurso que conduz a uma vitória porque ele é indiferenciado. É a maior ou menor fragilidade do povo que decide se acabamos reféns ou saímos livres. E o que digo, embora parecendo, nada tem a ver com regimes políticos.

3.5.17

A bicharada

Não há nada mais comum do que o sentimento da maternidade. Todas as mães caminham na corda bamba, equilibrando felicidades e angústias, ansiedade e culpa, saudosismo e expectativa, não havendo muito por onde reivindicar originalidade. Pertencem ao povo, e não aos iluminados, todas as verdades ditas sobre o assunto. É pegar numa enciclopédia de provérbios populares e lá se encontram todos os nossos pensamentos, com a vantagem da graça, da rima e do ritmo. 
Já as nossas bisavós se queixavam que os filhos só davam consumições para, no momento seguinte, louvarem a sua graça à família e aos vizinhos. Não havia blogues e as editoras eram criteriosas, por isso elas partilhavam as inquietações nos patamares dos prédios, nas salas de espera, à volta da lareira. E assim amplificavam o seu desespero quotidiano, a trabalheira de os manter na linha, os raros talentos manifestados desde tenra idade, também o arrependimento pela tareia de cinto, o desgosto pela mediocridade nos estudos, o medo que uma dor de barriga fosse prenúncio de morte. A par se criou o hábito de, virando costas a mãe que se queixasse, as outras desdizerem a sua capacidade de educar. Se fosse meu filho, deixava-lhe aquele rabo a arder.
Admitir que a maternidade tem dores não é, nunca foi, uma questão de coragem. De novo nada tem. De exclusivo, muito menos, e basta apreciar a bicharada da quinta, da selva e da savana. Mas certas mães têm achado novas e grandes oportunidades na miséria de não poderem tomar banho em paz, ler uma revista sem interrupções ou maquilhar-se com deve ser. E graças a elas nunca faltam temas ao lifestyle e livros de venda fácil.