3.4.17

Sirsasana

Sete e meia da manhã, cheira a sândalo e eu estou na penumbra, de cabeça para baixo, vertical como uma estaca, esforçando-me por acreditar que uma respiração profunda e fluida é profilaxia de quase todos os males de corpo e espírito. Nada deveria corromper o meu pensamento nesta hora. Porém, parece-me um desperdício não dar uso completo à cabeça, incluindo delírios e divagações, precisamente quando ela é a grande beneficiária do meu sangue. Assalta-me então a ideia de que isto me anda a dar cabo da vida. Como posso ganhar o pão vivendo apaziguada, de que me serve o domínio das nobres virtudes da paciência e da aceitação? Que linha de jeito se escreve sem um desassossego, um medo, uma paixão, uma lembrança maldita? Enrolo-me, componho-me, retomo devagar a postura que por algum motivo deus ordenou aos humanos: a razão no topo, o coração adiante. Visto-me e saio para a rua ansiando por um combate que me ponha de novo o sangue a ferver. Tenho saúde, cabeça, dois filhos pequenos entrando no mundo a passo acelerado. Não posso encostar a espada quando tudo está de pernas para o ar. 
Regresso amanhã para continuar a praticar a urgente consciência disto.