10.4.17

Pétalas

A menina tem a cara do irmão, a quem me afeiçoei por via de longas trocas de olhares. Veem ambos o mundo através de duas azeitonas pretas, gulosas e húmidas, o sorriso é poupadinho mas honesto, e as narinas, sensíveis, estremecem como pétalas com a cadência do respirar. 
A graça que os liga, presumo que a inventaram para salvar a visão do mundo porque herança não é de certeza. Às oito da manhã, o pai envenena-se no tasco. Sai de lá branco como a morte, impermeável a desgostos, perigos ou alegrias, olhando com uma transparência desumana, opiácea. Atravessa ruas sem cuidados, entra em cheio com os pés nas poças, embate cego nas soleiras e nos postes. Muitas vezes é deus quem o acode no limite, insistindo em mantê-lo vivo. Aos quarenta anos, é uma tragédia sem poética, que se evita com os olhos para mais depressa apagar da memória. A mãe, que é um monstro de corpo, pernas grossas como troncos, peito e ombros com larguezas de macho, revela muitas sobras de infância quando a olhamos de perto. E ao vê-la caminhar de mão dada com os filhos, não se percebe quem guia quem, quem ampara quem, que desgraça é causa e que desgraça será consequência.