7.4.17

Dialética do senhor e do escravo

Jantei uma vez com o meu antigo patrão sem saber que o era. Coisas que nos enredos de Hollywood são comuns, mas na vida real só por diabólica ironia acontecem. Partilhámos o vinho, enchemos a barriga, ainda nos consolámos com sobremesa e café. Havia mais gente, mas a conversa absorveu-nos e tudo foi reduzido a névoa e rumor. Discutimos Kant, Hegel e Marx, discordámos em tudo, rebati com juvenil e inconsequente paixão cada uma das teorias que me apresentou, acusei-o de ignorar a realidade, questionei o valor do seu percurso académico. De igual modo, ele menosprezou a utilidade do meu ofício. Julguei estar na posse de um trunfo quando, no embalo da conversa, percebi que ele ignorava ser correto, em certos casos, colocar uma vírgula junto de um "e". Ri-me tanto quanto pude, superior, desconhecendo quem tinha diante de mim. Ainda nem trinta anos fizera e a moderação não era coisa que eu privilegiasse nas relações humanas. Lembro de ele ter perguntado se eu achava que, na decisão de invadir a Polónia, Hitler se socorrera da gramática. De enfiada, sem me dar tempo, bombardeou-me com dezenas de exemplos em que os líderes fizeram e desfizeram a História sem que as vírgulas contassem para coisa alguma, do Império Romano à guerra do Golfo. E para fechar o círculo, com o olhar afiado, brilhando do tinto e da vitória: o senhor não precisa das vírgulas do escravo
No dia seguinte mandaram-me à administração. Entrei no gabinete e congelei quando a cadeira giratória se voltou e um riso muito fresco e irónico me saudou. Era a hora de decidir se o meu período de experiência me elevaria aos quadros da empresa ou me atiraria para o olho da rua.