18.4.17

De esperanças

A rapariga da papelaria está grávida. E eu sem suspeitar, atribuindo à primavera a luz aumentada nos seus olhos e na sua pele, a tendência para sorrir de coisa nenhuma, a languidez dos movimentos. Também não estranhei a presença frequente da mãe, a dar apoio nas rotinas de trabalho. Por isso, quando a rapariga me anuncia a boa nova, à queima-roupa, gaguejo, sem saber que emoção demonstrar. Então não estava ela ainda à espera de um amor real, recusando-se a aventuras e namoricos de circunstância?
Faz-me muitas perguntas, provavelmente as mesmas que já fez e fará a todas as outras mulheres. Também enjoei? Deu-me o sono a horas impróprias? Pratiquei desporto? Que creme para evitar estrias? Quantos fatinhos comprei? Dói muito? Respondo com paciência e generosidade, embora saiba que os meus sapatos não lhe servirão nos pés. 
A mãe vai sorrindo a espaços, com alguma ternura. Porém, o que nela salta à vista é o coração apertado, aquela angústia grave, permanente, funda, que rouba a paz de espírito e que a rapariga da papelaria, lá para o final do ano, também conhecerá, sem reversão possível. Com o ar de quem desgosta de um prato ou de um vestido:
- Eu não queria que fosse assim. Mas ela... 
- Ó mamã, lá vem você! Eu é que tenho de querer!
- Tu e ele! Ou não foram dois a fazê-lo?
- Tudo se resolve com o tempo, mamã. 
Ah! A boca do povo põe a rolar muitas falsidades e agarramo-nos a elas com uma fé que enternece. Mas a rapariga da papelaria está de esperanças e é, por isso, seu dever acreditar em finais felizes. Vou embora a lembrar-me que a gravidez não constava da lista de objetivos que ela formulou para 2017. Ignoro qual a história, o desatino, o equívoco, a vontade, o sentimento, a urgência ou a promessa que concebeu este filho. Mas só por vê-la assim, feliz e renovada, alegro-me de saber que o destino se marimba para os nossos planos.