12.4.17

A salvação

Num dos muitos textos apagados deste blogue, contei da Luisinha, que fracassou ao tentar embarcar na derradeira viagem da qual esperava a salvação. Até hoje me intriga e fascina que o tenha feito precisamente quando a felicidade parecia instalar-se, em grande, na sua vida. Em todo o caso, não fez os cortes nos pulsos com a devida ciência e deixou pistas suficientes para ser resgatada no limite.
Durante o tempo em que esteve internada os médicos proibiram-na de ver aqueles a quem ela queria bem. Podia, portanto, estar a Luisinha a morrer de solidão e culpa, desde que o músculo cardíaco não parasse de bater. E é assim que a medicina vai aumentando ganhos e territórios. 
A novidade é que, passado o susto e assentada a poeira, ela conheceu o Vasco, contou-lhe a sua história, as suas fraquezas, a sua terrível vocação para a dor. Enterneceram-se, comoveram-se, ficaram ligados. Não tardou que ele a pedisse em casamento. Entre baba e ranho, a Luisinha aceitou, aliviada por ver que, afinal, a morte não era a única forma de salvação. Mais tarde viria a descobrir que também não é única maneira de se dar cabo da vida.
Durante algum tempo temeu-se que aquela nova onda de felicidade voltasse a precipitá-la no abismo. Foi vigiada, protegida, satisfeita, e o noivo redobrou os afetos e a compaixão pois não queria perder a mais sedutora mistura que pode encontrar-se numa mulher: beleza e fragilidade. Além disso, a tragédia crónica da Luisinha veio dar cor e utilidade à sua pacata existência de ruminante, que já vinha de longe. Ser o salvador e o guardião de uma mulher é um cargo muito ambicionado pela maioria dos homens.
De modos que a  Luisinha casou com tudo aquilo que era seu direito e muito mais bonita do que no dia em que se meteu a brincar com a morte. No final da boda, o Vasco garantiu aos sogros que a mulher ficaria em boas mãos, ele próprio vigiaria a perigosa relação dela com soporíferos e objetos cortantes e se encarregaria de lhe lembrar as horas certas da medicação. E todos se emocionaram com a grandeza daquele amor.