5.4.17

A carta

Na clandestinidade, ando a fazer tesouro dos bilhetinhos que o mais velho trocou nas aulas com as raparigas e que me pediu o favor de descartar por neles só ver enlevos tolos de pré-adolescência. Ora, não se pode fazer lixo do que algum dia, mesmo que em idade menor, tenha predisposto o coração à poesia. E assim, já que ele me havia autorizado a lê-los, autorizei-me a mim própria a guardá-los, segura de que em menos de vinte anos ele achará graça à recordação e me agradecerá pelo cuidado.
São bilhetinhos amorosos, de passos lentos, pontuados de dúvidas e suposições. A linguagem beneficia dos floreados que só à inocência se desculpam. Confiaram em muitas mãos para circularem a salvo do olho felino das professoras, por baixo das carteiras, dentro de esferográficas, entalados nas páginas dos manuais. Tenho-os agora numa caixa de metal, a mesma que há muitos anos serviu para guardar outros bilhetinhos.
O meu objetivo maior é, porém, a carta. A carta de amor, a melhor que alguma vez li fora de encenações literárias. Espero, paciente, que ele a descarte também para me apropriar daquele rolo enlaçado com fita azul que lhe foi entregue num fim de tarde de outono, uma beleza, da caligrafia ao sentimento, da sintaxe à inteligência. Sei onde está, não lhe mexo mas cobiço-a, desejo-a, morro de medo que a traça a devore, que o descuido a amarfanhe, que o tempo a desbote. De longe a longe pergunto: a carta? Está guardada. Mesquinha, procuro trocar-lhe as voltas: está a ocupar-te espaço, nunca mais estiveram juntos, nem lhe respondeste. Nada. A carta, arrumada entre medalhas, projetos de viagens, esboços de focinhos equídeos, é capítulo de uma história onde eu não entro. 
Às vezes vejo-a, a autora. Ultrapassou-me em tamanho, mas cumprimenta-me ainda com deslumbramento e reverência, sou a mãe dele. Ignora que sei a carta de cor e que estou solidária com cada palavra, pois a maturidade não muda nem uma vírgula ao modo de o amor se revelar. Valem pouco os quase trinta anos de vida que nos separam.