7.3.17

Verdade e mentira

Tendo a família e os amigos como visitas deste espaço, sujeito-me a muitas perguntas e a alguns pedidos. Cruzam o que leem com o que sabem do meu quotidiano e lançam-se a decifrar as entrelinhas ou a subentender rostos por trás dos nomes. Querem saber que papelaria é essa que eu frequento e cuja funcionária apetece ouvir de viva voz. Também há quem peça para ir à minha cabeleireiraE é grande a curiosidade que desperta a dona Maria Isabel ao levantar-me o queixo com os seus dedos maduros, de sangue nobre. Mas a maioria das perguntas são acerca da identidade do senhor Pereira, cujo verdadeiro nome está e estará, obviamente, a salvo. 
Talvez eu dê contornos demasiado generosos às pessoas, fazendo-as mais interessantes do que na realidade são. Ou apenas limpo o que está à volta de modo a que se note o que habitualmente ninguém vê. Em todo caso, sendo certo que o que aqui conto é a mais pura das verdades, impõe-se o adorno com as mais inofensivas mentiras. É real a rapariga da papelaria, porém, ela pode ser da mercearia e podem ser beterrabas os cromos que lhe compro, sem que isso faça diferença. Já a cabeleireira e a sua lúcida e desbocada manicura podem estar trocadas e ser a primeira quem arranja as unhas e a segunda quem corta o cabelo ou uma e outra serem apenas enfermeira e auxiliar do centro de saúde, tratando também, mas de outro modo, de cabeças e mãos. E o senhor Pereira? Ora, eu tenho o meu mas cada um terá o seu, se não andar desatento deste mundo. Não há, portanto, em qualquer das minhas personagens, raridade ou estranheza. Interessam-me pelo motivo oposto: porque são vulgares e padecem de males comuns, apenas lhes falta a arte de os disfarçar. Vejo nelas o reflexo de todos os equívocos, desenganos e desesperanças e dá-me pena. Então ponho-me a escrever, contando que isso me garanta o perdão por tão mesquinho sentimento.