21.3.17

Um país carente

Na semana passada descobri que o meu país está profundamente carente. E, por processos que talvez os especialistas da psique saibam explicar, canalizam e alimentam um grande amor, não pelos livros, não pelo prazer da leitura, não pelo que aprendem com a frase, o parágrafo, o cenário criado, a visão revelada, mas pelos próprios escritores, ainda que não os conheçam. Mas, tal como acontece numa grande parte dos amores, é sempre chegado o dia em que a realidade não bate certo com a ilegítima e irreal fantasia que costuma dominar os corações mais débeis. Então, começam os amuos e as birrinhas, formulam-se acusações, fazem-se cobranças, enviam-se faturas, exige-se o divórcio. E o pior, o que mais assusta, é aquele gesto novelesco, dramático, de lançar as roupas do outro pela janela, proporcionando a toda a vizinhança um espetáculo que, se pouco tem de dignidade, menos tem ainda de tolerância.