1.3.17

Um homem e uma mulher

Mal contados, são quinze os anos que passaram sobre a última vez que estive em Lisboa como turista. Depois disso, só entrevistas e reuniões, ir e vir, nenhum desvio, refeição decente, encontro interessante ou olhar demorado. E agora, que tenho Lisboa ronronando como um animal debaixo dos meus pés já maçados e adormeço sossegada no mais geométrico e lúcido dos seus múltiplos corações e acordo devagar com a oferta de uma nesga deste Tejo de bom feitio e conto, não o tempo que tenho até regressar, mas aquele que ainda me sobra para ficar, o que sinto de novo talvez até nem seja propriamente encanto pela cidade, talvez seja mesmo o gozo de dar o braço a torcer e uma vontade impossível de me deixar estar mais um dia. Lembro a minha cidade encolhida, ensimesmada, também arrogante ao seu jeito porque ao seu jeito estupidamente bela. E penso: se, como dizem, Lisboa é uma mulher e o Porto um homem, porque é que se encontram tantas vezes para negociar e tão poucas para se apaixonar?