3.3.17

Sonhos

Quando sonho dormindo, os meus colegas são motoristas de autocarro e o mundo tem os traços vertiginosos de uma obra de Gaudí. Há gente que aparece todas as noites, mas sempre muda e queda como um bibelô. As inutilidades que tenho à venda no olx são compradas por funcionários das Finanças. Os mortos desfilam vestidos de noivos. O meu patrão contrata-me para servir de bandeja a mulher dele. Colegas da primária dançam seminus, com plumas e purpurinas, no carnaval de Ovar. Volto ao secundário invariavelmente para os exames de matemática e biologia a que, por distração, faltei. Faço dezenas de quilómetros a pé com os meus filhos através da escuridão. Salvo golfinhos, tartarugas e toxicodependentes. A minha bicicleta já só tem uma roda e atrelo-a ao automóvel do Rui Moreira para conseguir avançar. Entro armada numa escola e obrigo os professores a sentarem-se nas carteiras, sossegados. Subo contigo uma escadaria em caracol, no topo há uma claraboia incandescente, magnética, mas os degraus não têm fim, desisto e volto para trás deslizando com alívio e moleza pelo corrimão.
Infelizmente, durante o dia perco esta facilidade em inventar e enredar, em mudar o rosto e a expressão do mundo, em arrancar aos fundos da memória aqueles de quem já nem o nome recordo, em ceder a impulsos e vontades dos quais não sou consciente. Acordo, levanto-me, os meus pés estão firmes, o sol nasce do lado certo, as paredes têm ângulos retos. Dentro de mim, tenho a razão a fazer peso, a sensatez a puxar, estou do lado sóbrio da vida, mas nem por isso há menos risco.
Gostava mesmo que os meus colegas fossem motoristas de autocarro.