8.3.17

Os direitos

A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, tenho hoje mais direitos do que nunca. Tenho direito a quinze por cento de desconto na compra de calçado de boa marca. Tenho direito a escolher três conjuntos de lingerie e pagar dois. Tenho direito a qualquer livro por um preço que aos homens está vedado. Tenho direito a aceder, com condições especiais, à nova coleção de acessórios e bijuteria. Tenho direito a dois pares de óculos de sol se introduzir o código promocional. 
A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, é esta a vastidão das minhas possibilidades e são estas as grandezas que mereço. E eu: obrigada mas não preciso. Tenho tudo o que quero, tenho voz, tenho pulso, tenho rumo, tenho pernas, tenho sexo, tenho género, tenho génio, tenho filhos, tenho gosto, tenho contas, tenho espelho, tenho casa, tenho tempo, muito tempo. Ninguém me corta a palavra, o salário ou o corpo. Ninguém me levanta a mão ou o tom. 
Caros senhores do carnaval do mundo, costureiros de lantejoulas, operários da poeira colorida, engenheiros de euforias e paliativos: foi engano, o dia não é para mim. Mas, enfim, àquelas que penam e precisam, de nada servem os direitos que estais dispostos a conceder, os vossos stocks por escoar, a etiqueta cosida a sangue no avesso.