10.3.17

Fácil é a vida dos outros*

A vida dos outros, ah, quantas vezes nos parece redondinha, simples, a bater certo com as necessidades, cheia de confortos e conveniências, com poucas e brandas dores e ainda com vantagens extra caídas do céu! O Pedro, por exemplo, acha que a vida do António é fácil, porque o António tem um contrato de trabalho e um salário ao fim do mês, e salário, como se sabe, é sinónimo de independência. Mas o António acha a vida do Pedro fácil porque o Pedro é estagiário, ninguém o pressiona e pode sair às seis horas em ponto e também acha fácil a vida da Marta, que é contabilista e a única coisa que tem de fazer é organizar papéis e dedilhar na calculadora. A Marta acha fácil a vida do António, parece ser divertido passar o dia a escrevinhar coisas, afina aqui, retoca ali, e depois o orgulho de ver tudo exposto na rua e nas revistas, assim como acha fácil a vida da Célia, que limpa e varre os escritórios de fio a pavio enquanto canta canções de amor, concentração zero, responsabilidade nula. A Célia acha fácil a vida da Marta, que trabalha sem levantar o rabo da cadeira e não chega ao fim do dia com o corpo moído e doente, assim como acha fácil a vida do José que, com o cargo que tem na direção, ganha que chegue para férias decentes em paraísos orientais. O José acha fácil a vida da Célia, que consegue tirar os vinte e dois dias a que tem direito e esparramar-se ao sol, pensando em nada, no relvado da praça ou na varanda de casa, e também acha fácil a vida do Carlos, o dono da empresa, que beneficia do luxo enquanto os outros dão o corpo ao manifesto para que o barco se aguente. Mas o Carlos acha fácil a vida do José, que só não desliga ao fim de semana porque não quer e não tem às costas o sustento de vinte famílias, assim como acha fácil a vida do Rogério, que goza, no espírito e na carne, a sua liberdade de solteiro, sem horas marcadas nem mensagens para responder. O Rogério acha fácil a vida do Carlos que, quando regressa a casa, tem juras de amor, mimos, afagos e uma cama morna e acha ainda fácil a vida da Isabel, a última mulher com quem dormiu por acaso, que numa sessão fotográfica ganha para três meses. A Isabel acha fácil a vida do Rogério, que tem trabalho certo e previsível e em quem, pelo menos, veem mais do que um corpo bonito e também acha fácil a vida da Mariana, que não tem um filho para sustentar e para lhe dar cabo da paciência ao fim do dia. A Mariana acha fácil a vida da Isabel, que não precisa de se injetar com hormonas nem fazer sexo em horas certas para despistar a infertilidade, mas também acha fácil a vida do irmão Miguel, que num golpe de sorte e talento se tornou um escritor mediático. O Miguel acha fácil a vida da Mariana, porque uma dona de casa não faz ideia do que é a crítica e do quanto pode pesar o reconhecimento público e também acha fácil a vida do filho Francisco, a quem a adolescência não exige mais do que tempo para ir às aulas e outro tanto para matar com noitadas e miúdas. O Francisco acha fácil a vida do pai Miguel, que não precisa já de se esforçar para mostrar o que vale e encontrou o seu lugar no mundo, e também acha fácil a vida da irmãzinha Laura, que não tem os pais nem o universo inteiro contra ela. A Laura acha fácil a vida do irmão Francisco, que vai para a cama à hora que quer e passa férias com os amigos e acha mesmo muito fácil a vida do primo recém-nascido João, que repousa tranquilo no peito materno e não faz ideia que a tabuada pode ser o inferno na terra. Mas o João, que acaba de rasgar o ventre da mãe, que com ela trabalhou violentamente durante oito horas para vir ao mundo, que num repente lhe foi arrancado embatendo contra o frio, a luz e o barulho, que foi remexido, vasculhado, aspirado, medido e revirado por três pares de mãos, que na brevidade dos sessenta minutos seguintes teve de aprender a respirar, a chorar, a cheirar, a comer e a digerir, o João talvez saiba que nunca nada na vida será fácil para ninguém. Infelizmente, o João esquecerá tudo isto porque a memória tem misteriosos caprichos. E um dia também achará fácil a vida do António, que acha fácil a vida da Marta.

* post de Abril de 2012, republicado para o senhor Pereira que hoje, ao ver-me passar com um calhamaço, suspirou se eu tivesse a sua vida, também lia livros de seiscentas páginas. E para mim, que fiquei a vê-lo arrancar no novo, potente e brilhante automóvel e a pensar rica vida, hein?