13.2.17

Saudinha

A poucos metros da escola, as mães sem ocupação fazem o seu ninho de maledicência e entretêm-se a incubar boatos. Quando passo, interrompem o cochicho. Bom dia, o seu menino está cada vez mais lindo. Quero devolver a simpatia mas falta-me motivo para tal. Sei de cor o modo subtil, bem intencionado, com que usam bater em porta alheia para depois vasculharem toda a casa, desfazerem as camas, abrirem os armários, cheirarem o lixo. Tantos anos a retribuir-lhes com indiferença e não desistem. Quanto mais trancas meto, mais as atiço. E ontem vi o seu mais velho a descer a avenida de bicicleta. Parecia mal agasalhadinho. Ignoro o que fazem da vida, que propósito é o delas, em que nobres divagações se embrenham, que retorno lhes dá tanto investimento em conversa de esquina. Mas olhe que não ia sozinho, ia com a filha do engenheiro Lima. Conhecem os nomes de toda a gente e neles incluem títulos e profissões porque assim as obriga a longa tradição nacional da subserviência e a curvatura nas costas. Sabe que a mulher dele apareceu-lhe um tumor, não sabe? E sobre as desgraças que germinam no recato de cada lar, informam a vizinhança com a intenção mal disfarçada de tirar crédito a conquistas que a elas não foram destinadas. É por isso que eu digo, quero lá saber de sucesso e dinheiro. Importa é saudinha, que sem ela não vou a lado nenhum. A passo arrastado, acabam por seguir todas juntas para o café da igreja, onde até ao fim da manhã ficam ostentando a sua excelente e inútil saudinha, à volta de meias de leite e croissants mistos.