2.2.17

Mãe incompetente

O mais novo julga que as ilhas dos Açores são barcaças esquecidas no mar alto há muito tempo. Há nelas, ainda, resíduos de carga explosiva usada em batalhas travadas pelo domínio dos oceanos. Quando as águas fervem ou as bocas dos vulcões cospem brasas e fumaças, é porque ainda rebentam, com mais ou menos força, essas sobras muito bem escondidas na estrutura das barcaças. Tremem amiúde devido à presença de criaturas marinhas que não se conformam com a perturbação do seu habitat e manifestam o desgosto baloiçando caudas, tentáculos e barbatanas. Nunca se sabe quando uma dessas criaturas se revoltará em nome de várias gerações antepassadas sacudindo com violência maior uma ou outra barcaça.
Sendo ele inclinado às ciências exatas, às objetividades enciclopédicas e à face do mundo que os sentidos podem atestar, é fácil perceber que na génese destes equívocos estão insinuações minhas. Não é por mal. Só quero prevenir nele o aborrecimento que mais cedo ou mais tarde dá naqueles que vivem reféns do óbvio, porque o óbvio se esgota depois de lidos todos os factos, decorados todos os nomes, aprendidas todas as características. Sei, por outro lado, que pelos delírios e exercícios de imaginação se pode pagar custo elevado. Logo a seguir à dependência, o medo é o mais pesado. 
À noite vai consultar os livros. Não diz aqui nada disso. Mas, por via das dúvidas, não tenciona pôr os pés nessas barcaças.