10.2.17

Distância de segurança

Amadureço inclinada para a solidão. Cabelos brancos só dois, não me doem ossos ou dobras do corpo, tenho um sangue limpo de ameaças. Porém, cresce-me um certo acanhamento social, perco o apetite pelo convívio de ocasião e diminuí o número dos que me seduzem para conversar sobre coisas essenciais. Entristece-me o jeito apagado de certas pessoas, nem boi nem vaca, nem raiva nem paixão, nem para trás nem para adiante. Andaram na escola, namoraram, casaram, empregaram-se e foram ficando, cavando lugar. Depois dos trinta, nada mais lhes aconteceu, nada mais construíram, nada mais transformaram, nada mais estudaram. Estão convencidas de que decidem sobre as suas vidas sempre que vão às urnas ou quando respondem se querem fatura com número de contribuinte. Que hei de eu esperar? O que dirão que deslumbre, assuste ou dispare reação? Que amanhã vai chover? Que os filhos só comem sopa passada? Que tudo é muito relativo? Que este é o país que temos? Que nunca mais chega o fim de semana?
Dou comigo saudosa do tempo em que o meu patrão gritava. As suas barbaridades, fazendo eco no corredor, eram a evidência do muito que ainda havia para rebater e transformar. E, ao menos, acordava-me, acelerava-me o pulso, fazia-me gritar também. Mas até ele arrefeceu, tanto lhe dá, é o que for, logo se vê, pode ser, e a mão dele pousa no meu ombro com frouxidão e indiferença como se fosse o fim do mundo e nada mais houvesse a fazer. 
Mais duas décadas, se as viver, e serei um bicho do buraco. Esquecerei o tempo das minhas grandes interações, dos meus atrevimentos, do gosto de falar para muitos ao mesmo tempo, da vontade de saber quem está comigo e quem está contra. Aos poucos voltarei a ser a menina que fui: tímida, melancólica, tirando as medidas aos outros com a devida distância de segurança.