9.1.17

Um único amor

A um único amor eu tenho sido fiel de forma constante por toda a minha vida: o amor aos livros. Em tantos outros hesitei, enganei ou falhei, fiz promessas falsas, virei costas sem aviso, sucumbi à raiva ou à descrença, mas no amor aos livros tenho vivido como uma mulher devotada, que não perde a fé nem esmorece no prazer e na entrega. É o único que não hipoteca a minha liberdade, em que a rotina não pesa como uma condenação e que não me faz perguntas além das que servem a minha própria curiosidade.
Ignoro quantos livros li desde que tenho entendimento para decifrar códigos e mundos, quantos li no ano que findou, quantos terei lido no desfecho do próximo. Os amores profundos não se rebaixam em contabilizações, tampouco se desperdiçam a pensar objetivos. Desvalorizam compromissos e anúncios públicos. Sei, porém, que os livros roubaram muitas horas ao meu sono e ao tempo de estudo. Mais tarde, tiveram responsabilidade no menosprezo pelas tarefas domésticas. Os meus filhos, conformados com a primazia desse amor, aprenderam cedo a respeitá-lo e a inibir-se de o perturbar. Aconteceu, amiúde, adormecerem com a cabeça encaixada entre o meu peito e o livro, depois de murmurarem o título, o nome do autor, uma ou outra linha que lhes chamava a atenção e ensarilhava as mentes permeáveis. 
Ninguém me ordenou este amor. Mas, desde que me conheço, ele cobre as paredes, repousa nas mesas, ilumina as cabeceiras das camas e chama com letras gordas e nomes de muitas origens, anunciando novos mundos e revelações. Vi o bem que ele ia fazendo nos outros e senti o modo como deixava a casa com a quietude e a frescura de uma catedral. Era um amor que salvava nas noites de insónia, nas doenças que obrigavam ao repouso absoluto, nos dias de chuva persistente. Mais forte e tentador do que qualquer outro chamamento, ele sempre trouxe o espanto, o deleite e a alegria em que os amores verdadeiros nunca falham. Uma vez, numa festa, meti-me a ler o livro que eu própria levara para oferecer ao aniversariante. E, para minha felicidade e alívio, sumiram-se, como no fundo de um poço que despejasse tudo nos antípodas, as vozes dos convivas que debatiam as façanhas dos filhos, as agruras do quotidiano laboral e as manchetes dos jornais.