13.1.17

Mãe

Que frágil fica o adolescente na hora do sono. Tão cansado de planear futuros épicos e improváveis, tão desgastado de insistir na marcha em contramão! E o excesso de certezas a forçar indevidamente a delicada musculatura da alma! Eu mudo o pneu. Eu levo-te ao colo. Eu domino o animal. Eu vou ao telhado. Porém, caindo a noite, ei-lo, aninhado nessa sofrível imitação do ventre materno que é o aconchego da cama. Aí baixa os braços. O peito contrai para se proteger do assombro noturno e o sexo envergonha-se de estar vivo. De olhos muito abertos, perscrutando as sombras do quarto, pede-me que repita uma vez mais o que todas as noites, desde o nascimento, lhe digo para manter fantasmas e pesadelos arredados do seu sono. 
Eu, ao deitar-me, imagino que a mão da minha mãe vem de lá do seu eterno descanso para me pousar na testa, tal como quando eu chorava de desgosto ou alguma doença me atirava à cama. Ao contrário de mim, ela não acalentava os filhos com promessas. Um gesto seu bastava para reconstruir o universo.