11.1.17

Lista de resoluções

A rapariga da papelaria mostrou-me a sua lista de resoluções para o novo ano com tal entusiasmo que eu julguei que dali vinha a transformação do mundo. Estava no verso de um recibo, pontuada com alertas de prioridade, corações, smileys e outros rabiscos livres. Está provado que anotar tudo ajuda. 
Ah, que desejos profundos seriam os meus se tivesse de os anotar para me lembrar que os sinto? Que verdade teriam as causas que houvesse risco de eu esquecer no espaço de seis horas? Com que segurança eu daria um passo se a vontade que o empurra precisasse de cábula? Anotar, anoto miudezas, compras, contas, obrigações sociais. O resto persegue-me com tamanha veemência e intervalos tão curtos que nem que eu quisesse podia esquecer, fugir ao chamamento ou à culpa de não realizar.
A rapariga da papelaria está encandeada pelas urgências e pelas palavras fáceis que lhe gritam os meios ao alcance. Não há uma, entre as revistas dispostas no balcão, que se iniba de anunciar fórmulas para merecer o prémio da felicidade, todas elas em passos tão simples e rápidos que só um burro cego e surdo não termina 2017 sentado num trono. Ela alinha, convencida de que cede ao mais íntimo e genuíno impulso. Multiplicou a lista por todos os suportes possíveis: o bolso, o telemóvel, o computador, a porta do frigorífico e até um recorte de cartolina que, diz-me, emoldurou para pôr na mesinha de cabeceira. Assim, de manhã até à noite sei no que tenho de me focar e está provado que ajuda. 
Há de saber um dia a rapariga da papelaria que só quando abrir um intervalo, uma distância segura face ao mundo, terá espaço para a germinação da sua verdadeira identidade, do seu propósito e da sua paixão. Nesse dia, dispensará as listas pois o fluxo do próprio sangue lhe apontará o rumo. Mas é claro que isto não está provado.