12.1.17

Galhofa

- Este pão é de quê? 
Pergunto ao rapaz da padaria, cuja delicadeza de modos e feições me lembra os príncipes incorruptos dos contos de fadas. 
Esbelta!
Responde ele, seguro em todas as consoantes.
- Oh, muito obrigada! Só por isso, levo todos os que tem no cesto.
Ao fim da tarde, o rapaz da padaria costuma dar-se muito à brincadeira. Com a colega, que tem idade para ser sua mãe, ri-se baixinho, faz trocadilhos, sussurra malícias. Certa vez, uma cliente disse que depois do pão ainda tinha de ir aos tomates, eles entreolharam-se e escangalharam-se até às lágrimas. A colega, sufocada de riso e muito vermelha, foi agachar-se atrás do balcão do fundo. Depois de a cliente sair, o rapaz pediu-me desculpa pelo tempo que demorou a recompor-se. Arranjaram uma forma de fintar o cansaço, a dureza dos dias, o calor dos fornos, o gesto repetido, sem novidade ou espanto, de encher sacos de pão: galhofando como dois adolescentes que julgam ver o que aos olhos de mais ninguém se revela.
Desta vez, porém, não é trocadilho mas ignorância. Eu entendo como me é conveniente e trago todos os pães de espelta que sobram da última fornada do dia, em jeito de agradecimento. Saio a tentar engolir o riso e, mal arranjo quem me ouça, partilho o episódio e dou azo à minha própria galhofa.