20.1.17

A cigana e o gatuno

Susana contou do primeiro slow da adolescência e do arranjinho que a deixou nos braços de um grande constrangimento e teve o dom de me fazer vasculhar memórias. O meu primeiro slow foi por ocasião do Carnaval, em casa de uma família abastada cuja filha mais nova era minha colega de turma. Eu tinha uns doze anos, muito aquém dos doze anos das outras meninas. Era miudinha, lisa, tímida, pensativa e melancólica. Porque a época a isso se prestava, estávamos todos fantasiados. Havia, entre os exemplares do género masculino, a habitual abundância de heróis e figuras de respeito: homens-aranha, mosqueteiros, cowboys, polícias, padres, médicos. As meninas contentavam-se em ser japonesas de passo travado e boca fechada, bailarinas de coxinhas ao léu, fadas ou princesas com uma ridícula sobrecarga de maquilhagem. Aos primeiros acordes formavam-se os pares com uma rapidez que me entontecia, dando-me a impressão de estar tudo previamente combinado, e não me restava senão encostar-me a um canto e fazer de conta que nada daquilo me interessava. Igual a mim, mas na outra ponta da sala, havia um rapaz todo vestido de licra preta, encapuzado e enluvado. Foi esse o único que se me dirigiu e, sem grande jeito, estendeu-me a mão, abraçou-me e balançou-me ao ritmo de qualquer música que não recordo. Terminado o primeiro slow, insistiu para o segundo, depois para o terceiro e por aí adiante. Na altura, eu ainda não sabia dizer não. E fiquei o resto da tarde refém de um gatuno, o único que sobrara para mim e para quem eu sobrara, sem lhe ver o rosto e sem perceber mais do que duas mãos de licra, inseguras, no fundo das minhas costas. 
Pode dizer a moral desta história que cada um tem o que merece? Ora, a japonesa foi envolvida na teia do homem-aranha, a bailarina foi detalhadamente auscultada pelo médico, o padre caiu nas boas graças da fada e as princesas deixaram o polícia vulnerável e desautorizado. Eu, vestida de cigana holandesa – e nunca soube muito bem o que era uma cigana holandesa –, pelos vistos mereci o larápio, o invasor de propriedade privada, o amigo do alheio, o rato, o delinquente, o maior pesadelo noturno da minha avó. E ele nem arte teve para me roubar um pedaço de coração. A vergonha foi tal que jurei não voltar a prestar-me às sobras e a ser invisível aos olhos dos heróis. Mas a parte seguinte da história não entra aqui.