30.12.16

Escrever

Escrevo para suspender o mundo quando a marcha é veloz e hipnótica. Não presumo ver o que outros não tenham visto nem sequer pensar sobre o que a outros tenha escapado. O universo é de todos e tão escancarada a sua maravilha e evidente o seu absurdo que só quem dorme não se deslumbra, não se ajoelha, não se comove, não se inquieta, não teme. Mas Deus não faz a ninguém o favor de parar tudo e permitir uma vagarosa e detalhada contemplação. Se nos desse tempo para entender, estaria Ele condenado. Então eu escrevo para O desautorizar. E faço-o com o gozo próprio de um vulgar capricho, com a ligeireza de um gesto avulso que, por não ter consequência, jamais terá de prestar contas. Depois, lavo as minhas mãos, retomo o andamento e é como se nada tivesse acontecido.

29.12.16

Rabanadas e panquecas

É com uma satisfação comovida que o senhor Pereira me diz que este ano as filhas vieram consoar e com elas trouxeram maridos e filhos. Já não me lembrava da última vez que tivemos de abrir a mesa toda. Usa as palmas das mãos para esfregar os cantos dos olhos, onde a saudade, a mágoa, a ternura, quem sabe o arrependimento, passam ao estado líquido. Vendo-o assim, fico sem palavra. Não estou habituada a que se exponha frágil, com aquele lábio trémulo e a velhice tão bem aceite e evidente nas linhas do rosto, na curva das costas, nas veias do pescoço. Este senhor Pereira é-me desconhecido. Mesmo sabendo eu que todo o Homem tem o seu avesso e que isso não deve causar estranheza a não ser a quem dá os primeiros passos na observação atenta da espécie.
Também a mim começam a humedecer os olhos, porque penso na minha sobrinha que veio de tão longe, do outro lado do mundo, só para o Natal. E parece que também se curvam as minhas costas. As filhas do senhor Pereira só vieram da freguesia ao lado, mas, enfim, há muitas formas de se medir distâncias e raramente os quilómetros servem com rigor esse propósito.
- E o seu filho? Espero que também esteja bem. - mudo de assunto porque não sei o que fazer à comoção instalada.
Ele funga e leva os olhos, bem abertos, a dar uma volta pelo horizonte. O vento seca-os e ele recompõe-se.
- Esse é que não veio este ano. Foi passar o fim de semana à terra da namorada, que por acaso fica lá para as suas bandas.
A namorada é novidade, mas não percamos tempo com o que pouco importa na história e pode até ser efémero. Ouçamos o senhor Pereira, que ainda tem muito que contar:
- Ela é de... Pena... Pana... Penelongo... ou coisa do género.
Solto o riso sem pudor, porque o senhor Pereira é das poucas pessoas que lidam bem com o meu atrevimento. Ri-se comigo.
- Não é? Diga lá, então...
- Sei lá, será Penedono?
- Olhe... é! Não é lá para os seus lados?
- Nem por isso. Penedono é distrito de Viseu.
- Vai dar no mesmo.
Ofendo-me. Empertigo-me. Transfiguro-me. 
- Não, não vai! Uma coisa é acima do rio. Outra, bem diferente, é abaixo.
Mas o senhor Pereira ignora-me, desinteressado que está em debater as geografias deste país que ele menospreza, renega e humilha em conversa de café ou sozinho, diante da televisão. A sua vontade é, afinal, falar das filhas. E agora que se endireitou novamente, recuperando a autoridade sobre as emoções, está pronto para abordar o assunto ao jeito que lhe conhecemos. 
- Aquelas duas raparigas, valha-me Deus!  Não fazem nadinha! Não sabem fazer umas rabanadas, uma aletria, umas filhós... Dá-me a impressão que nem cozer bacalhau. A mais velha meteu-se agora a estudar outra vez, julga que ainda tem idade para andar na escola...
- Escola? Universidade, presumo.
- Vai dar no mesmo.
Tudo dá no mesmo para o senhor Pereira. É a forma que tem de pedir que desvalorizem a sua ignorância.
- E a mais nova faz voluntariado nos tempos livres. 
- Isso é bom, senhor Pereira.
- Oh! Eu já lhe disse: Ana Isabel, andas a perder tempo a ajudar os outros, mas olha que se precisares ninguém vai perder tempo a ajudar-te a ti.
- Essa sua perspetiva é um bocado triste... 
- É a realidade, menina. Já cá ando há muitos anos. Sabe o que lhe digo, a si e a elas, que são da mesma idade e por isso vai dar no mesmo? Se querem chegar a algum lado, olhem em frente e sigam caminho, não se desviem por ninguém.
- Às vezes é no desvio que está o caminho, senhor Pereira.
Aposto que me vai ignorar outra vez e não me engano. Esfrega as mãos, aquece-as com sopros curtos, bate os pés no chão.
- Olhe, o que eu sei é que já não se fazem mulheres como a minha.
Falando no diabo, abre-se a janela e vem o chamamento esganiçado:
- Miro, filho, anda pra cima que fundiu uma lâmpada da casa de banho!
Antes que eu me despeça e abale, ele levanta uma sobrancelha e, a medo, pergunta:
- Diga-me uma coisa: a menina sabe fazer rabanadas, pois sabe?
- Sei fazer panquecas, mas vai dar no mesmo.

28.12.16

Esforço

Com a desculpa de terem de adormecer os filhos, as mães aninham-se com eles em camas de um corpo só e sucumbem ao cansaço debaixo de estrelas fosforescentes, embaladas pelo próprio canto, certas do único amor que lhes é dado sem reserva ou condição. Uma, duas horas depois, acordam, aflitas pelo descuido a que se deram. Algumas dizem-me que encontram a vida exatamente como antes do sono: a loiça amontoada, as sobras ainda nos pratos, o lixo aberto, os maridos cavando o seu lugar no sofá e lamentando que não passe nada de jeito na televisão. Estás cansada? Eu também. Senta-te aqui comigo. Não sentam, não podem. Vão fazer o que tem de ser feito. Eles ficam. 
No dia seguinte eles preparam um arroz branco e dois bifes e elas falam disso a toda a gente, como quem louva um atrasado mental que venceu mais uma dificuldade e cujo esforço deve ser aplaudido.

20.12.16

Retiro

Creio já o ter dito em anos anteriores: o Natal é o tempo em que sou mais egoísta. Não saio, por nada, de dentro da minha muralha, não abandono a minha mesa. Nem comigo mesma sou solidária, não gasto um segundo a lamber feridas próprias, menosprezo todas as tristezas e dissabores que já vivi, e a minha memória, que costuma ser de invejar, fica curta e fraca. Canto muito. Encho a barriga, sem arrependimento pela abundância. De forma voluntária e plenamente consciente, entrego-me à ilusão de o mundo ser perfeito.
Uma vez, caí na asneira de corromper essa perfeição indo à missa do Galo. O sermão do padre não foi de paz e amor, mas de guerrilha. Durante uma hora serviu-se da palavra do seu Deus para atiçar a indignação e a desconfiança nos nossos corações. Jurei que nunca mais. Eu e a minha família saímos sem beijar os pés do Menino, furando a custo o exército de devotos que caminhava para o altar com as boquinhas estendidas, famintas de perdão. Fomos os únicos. Comungámos à mesa, enquanto a miudagem disputava com fervor o Rossio e a Rua Augusta em volta do tabuleiro de Monopoly, que tem mais de cinquenta anos de uso.

(votos de um Feliz Natal para todos)

19.12.16

Miniaturas

A professora do mais novo compra tudo o que é miniatura. Se é pequenino é bonito, diz ela. Já viu esta torrezinha dos Clérigos, que perfeição, que amor? Sabe que é tolice, não há serventia alguma naquela montra de chinesices que alinha em aparadores, oratórios e cristaleiras e, por tuta-e-meia, engorda a cada semana. Mas ter vícios é de gente normal e ao menos este não mata nem endivida. De resto, ela é uma professora eficiente, a canalha anda com letras e contas na ponta da língua, certinha e bem preparada para o futuro conforme o predizem. 
Com a professora do mais velho, a cantiga era outra. Compreendia, sinceramente, que os olhos das crianças sãs, curiosas, acordadas, mais se importam com o trajeto de uma formiga desalinhada do que com uma soma de frações. Desprezava, sem esconder, as mães para quem a hora da quantificação das virtudes dos filhos era a mais decisiva. É só uma prova, por amor de Deus! Mas já a inocência das criaturas estava irremediavelmente adulterada e, com a purga das ansiedades, encharcava-se o recreio de vómitos e lágrimas. 
Esta mantém a sala bem organizada, ao jeito dos aparadores, oratórios e cristaleiras onde dispõe meticulosamente as miniaturas. Há objetivos. Nenhuma graça ou talento desculpam acentos tortos ou contas mal feitas. Os pequeninos são lindos, mas têm um lugar que deve ser cumprido. Até confio na ternura dela, no cuidado com que trata, no esmero e mais ainda na competência técnica. Mas, em boa verdade, o modo como o mais novo papagueia, sem vacilar, determinante artigo indefinido plural masculino não é coisa que me impressione ou tranquilize particularmente. 

16.12.16

O barqueiro

Éramos dez ou uma dúzia, em idade de muitos sonhos e enganos. Saíamos já tarde, metíamos o pé na estrada nacional sob a mais completa escuridão, com mato de um lado e do outro, as sombras da noite encorpando monstros de braços compridos e faces terríveis. Os rapazes dividiam-se entre a dianteira, para enfrentar eventuais perigos, e a cauda, para proteger a retaguarda. Nós, as miúdas, em segurança entre uns e outros. Não havia cá exacerbação de orgulhos feministas, todas sabíamos que o corpo masculino, pese embora a pieguice com que se rende a uma vulgar constipação ou o desmaio que lhe causa um parto, tem, na maioria dos casos, forças físicas superiores. São dos homens os músculos duros e arredondados, as pernas longas e fortes, a prontidão para guerrear, o gosto por exibições de coragem. Era justo serem eles os protetores e nós as protegidas. Não que houvesse perigo real. Mas era tremendo o silêncio, escura a noite, deserto o cenário e tão fértil a nossa imaginação que pressentíamos malfeitores a saírem detrás das árvores a todo o instante e, antes de cada curva, prendíamos a respiração, fantasiando mil possibilidades. 
Sabíamos de cor o lugar onde um trilho de cabras se abria até ao rio. Descíamos enlaçados, para evitar quedas. Depois, era só gritar bem alto ó barqueiro!, ouvir o eco do chamamento a desassossegar o vale e aguardar que viesse quem havia de nos levar à outra margem. Às vezes demorava. E o medo de ali estarmos, sós e desabrigados, vulneráveis à hora do terror, tinha de ser espantado com tolices, barulho, cantoria e um ou outro beijo que só mesmo no escuro podia vencer hesitações e realizar-se, com tudo incluído. Era uma festa a chegada do barqueiro e, depois, um sossego o ranger dos seus braços de madeira, a travessia da corrente com ritmo, paciência e doçura, o murmúrio da ondulação no casco desbotado. O barqueiro dizia coisas, contava histórias e enternecia-se com a nossa juventude fácil, universitária e urbana. A meio do percurso, sobre o corte mais profundo do leito, com as margens fora do alcance, todos aconchegados numa casca de noz levada à força de pulso por um velho, sem visão a montante nem a jusante, o momento era a síntese do tempo que vivíamos: absolutamente feliz, isento de dúvidas e responsabilidades.
Na outra margem, havia uma taberna de bancos corridos onde os homens do campo viam a bola, jogavam cartas e envenenavam o sangue. Era para lá que íamos, beber sangria, dançar e falar das coisas e das causas que no nosso coração tinham urgência.
De tudo isto me lembrei por causa desta notícia. Não é o mesmo barqueiro, nem o ponto da travessia era este, nem o cais tinha tão útil estrutura, mas como a minha memória é fácil de tocar e despertar, veio dar no mesmo.

15.12.16

Como novo

O senhor Pereira estranha ver-me passar de cara fechada. O seu coração de pai, que só por obstinação não beneficia dos devidos afetos, desassossega-se.
- Então, menina?
- Cá vamos, senhor Pereira.
- Más notícias?
- Oh, não.
- Problemas no trabalho?
- Felizmente, também não.
- São os filhos que a cansam, pois claro.
- De forma alguma!
Farto de bater em vão às portas cerradas da minha intimidade, apoia-se na sabedoria popular:
- Olhe que tristezas não pagam dívidas...
- Tenho as contas em dia...
Suspira, enfia as mãos nos bolsos, levanta duas ou três vezes os calcanhares num balanço que é próprio dos homens em convívio social.
- Menina, seja o que for que a incomoda, esqueça.
O esquecimento é um dom. O senhor Pereira tem-no e por isso, dia após dia, tudo se ajeita no seu interior. Como novo, a cada manhã. Quem o vê, confia sem pé atrás na possibilidade de sermos felizes em absoluto. O ontem é só poeira. Não o soubesse tão materialista e submisso – quase escravo – , tomá-lo-ia como um espírito de elevada sabedoria. 
A uma vulgaridade, respondo eu com outra pior:
- Ah, sim, nada que o tempo não cure.
- Vou dizer-lhe uma coisa, porque vocês, jovens, não valorizam o que têm e às vezes é preciso dar-vos um abanão: eu se tivesse a sua idade não desperdiçava tempo com tristezas.
Vou para lhe dizer que até nem estou triste, foi só um dia ingrato, desses que de vez em quando nascem para nos açoitar até ao pôr do sol, lembrete das nossas fraquezas e dependências. Palmadas miúdas, é certo, mas várias de uma assentada deixam tudo em carne viva e só uma noite bem dormida, com sonhos amáveis, repara. Porém, antes que eu me lance em explicações – bem mais simplistas do que aqui descrevo – ele tira o smartphone do bolso com a vivacidade e o entusiasmo de quem foi assaltado por uma boa ideia.
- Vou-lhe mostrar uma coisa. Vai-se alegrar num instante!
Anda para trás e para a frente com o indicador no écran e um sorriso de paixão juvenil põe-lhe os olhos miudinhos.
- É esta. Não, não é. Espere lá, eu sei que está por aqui. Olhe, ei-la!
Extasiado, vira para mim a imagem de uma carrinha prata, luminosa, respeitável logótipo entre um jogo de faróis a lembrar olhos felídeos. 
- Tenho-o em janeiro. Ano novo, carro novo! Quer dizer, não é novo, novo, novo... mas está como novo. Diga lá se não é um espetáculo!
Tolo o senhor Pereira de julgar que um automóvel havia de me alegrar. A gente passa pelas pessoas todos os dias, aperta-lhes a mão, troca impressões, opina sobre isto ou aquilo, e, no fim, o que sabem de nós é pouco ou nada, inúteis os sinais que demos, aquilo de que nos rimos com menosprezo ou o que de verdade nos espantou. Cada um vê no outro o que quer: um pedaço igual a si, um espelho, qualquer coisa que o consinta e faça eco. 
Num assomo de frustração e ironia, ocorre-me comentar se eu tivesse a sua idade não desperdiçava tempo com futilidades, mas depois lembro-me que hoje já servi uma dose farta de palavras mal ditas. É deixar ir o senhor Pereira em paz, que as culpas dele não me desculpam a mim. 

14.12.16

Uma menina

Uma menina foi atropelada esta manhã diante dos nossos olhos. Ao embate do automóvel, voou como uma folha de papel, desumanizada, e também os meus filhos confirmaram, com horror, que a morte não é apenas um fim mas uma companhia fiel, uma lapa no nosso corpo, uma sombra em cada passo que damos, uma silenciosa iminência. 
Não importa dissecar a banalidade dos sentimentos que se seguiram. Não foi excecional nem raro o aperto no meu coração de mãe, nem o pasmo atemorizado nos olhos deles, nem a fragilidade que no quotidiano esquecemos e que nestas horas parece respirar fundo, como bicho traiçoeiro, em cada uma das nossas células. Importa-me o costume: a fila de automóveis buzinando, indiferente a uma menina prostrada no chão e à sua amiga trémula, chorando de susto. Foi a esta que eu acudi, porque me doeu o seu abandono desesperado, a sua meninice traumatizada, a imagem da tragédia que se lhe terá fixado para sempre na retina. Em boa hora um grupo de adolescentes a ela se juntou, amparando-a, enchendo-a de cuidados. 
São-me cada vez mais insuportáveis os adultos que acusam a miudagem de má formação. Já o disse muitas vezes: estou, estarei sempre, do lado dos mais novos, que é também o lado único da minha esperança. Livre-me Deus de alinhar nessa fila de trânsito tão responsável, cega e ofendida, capaz de pregar os mais nobres e comoventes valores sem erguer o punho para os praticar.

13.12.16

Vende-se

Os dias em que não te encontro, era capaz de os vender num desses mercados online onde um par de horas basta para despachar o que não serve. Vendê-los-ia assim como são, já usados, de corpo anémico, coitados, desbotadinhos, sem espessura nem fôlego. Porém, quantos há que compram inutilidades, sem se importarem com marcas do tempo, pontas soltas, buracos negros? Saber-lhes as razões não importa. Às vezes só querem ocupar um espaço vago, uma hora de apatia, um temor de solidão. Que comprem esses meus dias, cheios de coisas boas que os meus olhos não viram por me faltares. Que a uns dê prazer o que a outros dá tristeza ou transtorno. Que uns recuperem o que para outros é lixo. Não há outra forma de o universo manter o equilíbrio a não ser em movimento.
Ninguém desconfiaria, porque só eu noto, que esses dias levam defeito. E o defeito é tu não estares.

9.12.16

Repouso

Branca como a cal, de joelhos trémulos, pernas incapazes, o cateter enterrado na veia, diz à cunhada, pelo telefone, das últimas novidades:
– ... então ele acusou-me "tu gostas é de hospitais" e já vinha para me bater como de costume, mas eu fiz-lhe peito.
Não é a história que me impressiona. É o modo de contar, sem peso nem gravidade, sem revolta nem comoção. Natural, como quem partilha o dia que acaba de nascer, o sol a leste condenado a pôr-se a oeste. O costume. E o costume instala-se, cava lugar, faz ninho, petrifica e, de repente, é ele a própria vida mais as suas causas e o seu destino. Na hora do balanço, alguém que se responsabilize por isso. Pode ser Deus, se assim entenderem.
– Olha, ele está a ligar-me, depois falamos.
Atende o seu homem e fala-lhe mansamente, tem na voz uma ternura habituada, um timbre de amor crónico, desse que aguenta todas as penas e dores por julgar não haver remédio ou por ver grandeza no que se constrói com sacrifício e cedência.
– Sim, estou bem, a sério.
Quando a enfermeira a vem chamar, desliga sem adeus e levanta-se. É um nico de gente de peito côncavo e mãos infantis, a pedir que a aviem depressa porque tem muito que fazer em casa. Na sala de espera, outros ficam a dormir nas macas, vejo-lhes os buracos nas solas dos sapatos, o recorte descarnado de rótulas e cotovelos, os coágulos de sangue no lençol, o rasto imundo de lágrimas já secas, o cansaço que, chegando ao limite, procura, enfim, uma cama onde se confessar. 
O hospital é o repouso dos miseráveis.

7.12.16

Comigo está tudo bem

Há cada vez mais mulheres a cometerem crimes violentos. Quando uma tragédia nos comove em massa é porque tem uma de duas características: ou abala a nossa exemplar Europa ou as vítimas são jogadores de futebol. Somos pobrezinhos mas, fazendo fé nas sugestões para o Natal, continuamos pirosos e berrantes, com o predomínio do dourado e dos padrões felinos. O homem do snack da esquina usa luvas como mandam as regras de higiene, mas com as mesmas que prepara a comida ampara a boca ao tossir. Na rua, os donos dos cães perguntam-me se os meus filhos são mansos quando eles se chegam para fazer uma festa. A solidariedade é uma mina. A cara do António Costa ao lado dos reis de Espanha lembrou-me a minha, bacoca e deslumbrada, quando um pintor célebre viu os meus desenhos e me fez uma festa na cabeça, tinha eu nove anos. A preocupação com a humanidade continua a ser muito bem simulada: noticia-se o que desde sempre é sabido e conveniente como se tivesse sido acabado de descobrir, desde o mau uso dos medicamentos até à indigna exploração de mão de obra. O mundo é um lugar francamente mau. Não tão mau quanto os jornais nos querem fazer crer, mas pior ainda.