11.11.16

Na manhã seguinte

Não tenho dados nem certezas, mas creio que a morte prefere chegar durante a noite. Clinicamente falando, pode ser pelo mesmo motivo que se agravam as tosses, as dores ou as febres: porque a vulnerabilidade dos organismos aumenta quando o sol se põe. Prefiro pensar que, por misericórdia, a morte não quer ser vista. Que se disfarça nas sombras e se confunde com os ruídos que a imaginação amplia e deforma, o grito de uma ave de mau agoiro, o choro de um bebé sem consolo, o arfar urgente de dois amantes, o ladrar vagabundo de uma matilha, a premonitória tensão dos gatos, a folhagem varrendo o parapeito da janela. E entre o pavor da existência, a sobredimensão do trágico, o remoinho de todos os mistérios do universo, quem desconfia, quem dá por ela, se tão bem encaixa? Não a vendo, ninguém ergue resistência. Não há lugar a combates vãos e desiguais. A dor dos outros acorda na manhã seguinte, sem ter testemunhado o pior. É quando Deus corre a desculpar-se, estendendo o seu braço de luz para dizer que a vida continua.

10.11.16

Eppur si muove

- Já viu? Um tipo daqueles, um anormal, uma besta... como é possível? 
Fiel seguidor de vários canais de televisão, atento aos lençóis opinativos que se estendem para aconchegar os indecisos ou ignorantes, é capaz de repetir tudo o que já leu e ouviu com tiques, termos e interjeições iguais. Blá blá blá blá blá. Não esperava outra coisa. É o senhor Pereira de sempre, uma estaca empedernida, um papagaio engasgado com excesso de informação, as rugas e o ranger dos ossos acentuando-se sem originalidade ou sabedoria. O discurso, que a mulher foi validando com acenos de cabeça, terminou num gesto largo, inspirado, dramático, e no pior dos clichés: o mundo como o conhecemos tem os dias contados. 
Simulo inocência e espanto: ai, credo, isso está na Bíblia? A mulher do senhor Pereira revira os olhos baços, amarelados, de pálpebras frouxas. Sei que lhe falta paciência para os meus comentários e, de quando em vez, precisa de respirar fundo para não me mandar plantar batatas nesse interior pasmado e ignorante onde nasci.
- Lá está a menina, não leva nada a sério... - diz ele, descontente, puxando os ombros à resignação.
Senhor Pereira - não lhe digo - eu de facto só conheço um mundo, tem biliões de anos, é o mesmo que Fernão de Magalhães descobriu por um acaso ser redondo, que Copérnico provou não ser o centro do universo, que Galileu jurou baixinho que se movia. É ainda o mundo onde desde sempre os homens se curvaram a outros homens, onde territórios se ganharam e perderam consoante as ganâncias e dos medos, onde por ordens imaginárias dos deuses se cometeram crimes, corromperam crianças, violentaram mulheres, assassinaram crentes, onde a fome de uns deu de comer a outros, e a glória de alguns custou o sacrifício de muitos. É o mundo onde a ignorância é conforto, o consumo é paliativo, a opinião é entretenimento. É o mundo onde o bem sempre foi imposto pela via do mal e por isso não pega nem medra. O mundo que a Igreja nunca salvou, nem a Europa civilizou, nem a América protegeu, mas que tão perversamente soube alimentar a ilusão do contrário. É, com efeito, o mundo onde a etiqueta se pode aprender até pela internet e onde as leis têm vindo a regular os atos dos homens mas jamais poderão evitar que as suas emoções, desejos e vontades sigam por atalhos onde a justiça não é apenas cega, mas também surda, muda e coxa. Está a dizer-me que tudo isso que existe desde que o mundo é mundo, o bicho é bicho e o homem é homem, tem os dias contados?
Desconhecendo os meus pensamentos, a mulher do senhor Pereira aperta-lhe o braço, espeta-lhe as unhas como quem se agarra ao pouco que tem de segurança e valor:
- E aquele modo de falar, aquele cabelo, aquela pele? É nojento! É nojento! É NO-JEN-TO! Cá para nós que ninguém nos ouve, espero que alguém acabe com ele.

(Sou uma cética de nascença. E isso, pese embora o facto de me manter a esperança em níveis mínimos, também me livra dos contagiosos horrores do pessimismo.) 

2.11.16

Urgência

Cinco anos sem pôr os pés num hospital e cai-me o queixo. O quádruplo em taxas moderadoras, um décimo da eficácia clínica, da qualidade no atendimento e da sensibilidade. O serviço nacional de saúde - que sempre defendi e preferi - cobra mais caro enquanto sucumbe, como outros, à humidade nas paredes, ao azedume dos profissionais, ao cenário de abandono, a dolorosas e solitárias esperas.
Este é o país em que os impostos não servem para manter a segurança, a eficiência e a estabilidade da máquina, mas para tapar buracos. Caro cidadão, empreste-me aí mais cinquenta euros para uma urgência, assim que possível devolvemos, nem que seja preciso pedir a outro. O retorno será sempre na proporção inversa da quantia pedida. Mas está tudo bem comigo, sou imune a certas ilusões, nunca contei ser salva pela esquerda, pela direita e muito menos pelo centro. Não sou tola de confiar numa gestão com mil anos de maus vícios.