30.9.16

Retrato

Há coisas que lembro como se fossem retratos. Desses em que, num único segundo, num divino vislumbre, se revela, congelado, o sintoma de todo o absurdo, angústia, paixão, miséria, grandeza ou enigma do mundo. Não sou protagonista de nenhum desses retratos. Mas alguns perseguem-me, aparecem como lembretes depois de uma curva, no despontar da madrugada, ou naqueles instantes em que a tranquilidade me sustém, deliciosamente, na antecâmara de um sono profundo.
Porque a moldura é apertada, nunca recordo o supérfluo: em que dia foi, que tempo fazia, como começou e o que se deu depois. Não há ar, profundidade de campo, paisagem. Não os havia esta manhã, quando vi um garoto da idade do meu filho, bonito, limpo e bem vestido como ele, de mochila às costas, sovando a cabeça da rapariga com quem ia de mão dada. Vi pelo retrovisor, travei de repente, por um triz me bateram atrás, os condutores que me seguiam enlouqueceram, dispararam as buzinas, o garoto e a namorada desapareceram no virar da esquina. Terrível fatalidade: rua de sentido único.
O resto do caminho chorei como não é meu hábito chorar. Começou por chorar, angustiado, o meu coração de mãe. Depois chorou de raiva o meu coração de mulher. E chorou também de medo o meu coração de filha. Por fim, quando estacionei o carro à porta do trabalho, chorei somente como cúmplice. 
E o retrato ficou.

29.9.16

Visões do amor

A rapariga da papelaria insiste que só há de ser mãe de homens e pede a Deus que ajude, fazendo, não conforme a Sua vontade, mas a dela. Muito saudosa do que ainda tem por viver e que não dispensa a dádiva de um amor fecundo e, de preferência, eterno, inclina a cabeça e olha para os meus filhos, espreguiçando-se num sorriso: eles têm cá uma adoração por si... Vou para corrigi-la, adorar não é o termo, mas desarma-me todo aquele romantismo. Além disso, noto-a cada vez mais descrente. A mudança de visual deu em nada, as velhas lá da rua continuam a querer impingir-lhe homens sem graça nem emoções, é deixá-la ao menos supor, fantasiar.
Ouço dizer que as meninas, a certa altura, tornam-se inimigas das mães, explica-me ela, e não estou para isso. Já os meninos, ah!, tratam a mãe como princesa, rascunham nela as primeiras visões do amor e hão de escolher as namoradas por comparação, lembrados do seio, das papinhas, do cuidado pronto e sábio. Ao dizer isto, cruza os braços sobre o peito, fecha os olhos e embala o filho imaginado que a há de compensar por tanto tempo à espera do verdadeiro amor. Depois, as mãos escorregam até ao ventre, onde deposita a esperança desse ajuste de contas com a vida, e, ignorante e leviana, sussurra-me: invejo-a tanto.
Disfarço o arrepio, deixo votos de felicidade e saio sem lhe dar as costas.

28.9.16

Sementeira

Eles sustentam o ânimo com futebol. Elas com o diz-que-disse. Noutros assuntos, se alguém os puxar, fingem interesse e até alguma preocupação, envolvem-se na medida do possível, recorrendo a frases feitas para se livrarem de aprofundar o debate, "nada a fazer, é o país que temos""é inútil discutir porque não se chega a conclusão", "não percas tempo a indignar-te". 
Mas é ver como se iluminam e respiram do alívio de quem retorna a casa se a conversa volta a cair na nova aquisição do clube ou em suposições sobre a outra que ali vai. Assim se preserva um bom ambiente, uma duradoura camaradagem que é feita, não de afinidades de alma e intelecto, não de enriquecimento mútuo, mas do consumo dos mesmos paliativos. Nada disto seria tão insano se a maioria não vivesse em permanente temor do que o outro julga a seu respeito, cuidando muito bem dos seus gestos, do modo como atende e sorri, do falso elogio que dirige, da babosa disponibilidade para o favorzinho de circunstância que não dê muito trabalho. 
Há lugares que parece que foram especialmente talhados para sementeira de hipocrisias. Na hora de colher, é o grau de maleabilidade do caráter que determina quem mais açambarca.

27.9.16

Há um país...

... em ambos os extremos da autoestrada número um, onde se romantiza com o cheiro de lenha queimada e se toma o odor dos canteirinhos encharcados do condomínio pelo aroma franco da terra molhada. Orgulham-se quando lhes dizemos que ali é que é, cultura a rodos, ao nível das melhores da Europa, os guias turísticos não mentem, o futuro está mesmo para ficar. Há muito que fazer e, felizmente, o ruído é tanto que até parece que a festa é comum ao mundo inteiro. Nesse país, são facilmente seduzidos pelo "genuíno-gourmet" e acham bonito, louvável, que se recuperem os sabores do passado pelo quádruplo do preço, desde que a torta e as compotas da avó sejam servidas nas zonas mais in, com talheres de design, por pessoas pós-graduadas de cabelos bem alisados, e tenham sido recomendadas na secção de lifestyle. Levam os filhos para que eles aprendam a importância das tradições e valorizem o empreendedorismo que favorece a preservação da identidade nacional. E tão querida – porque assética – é a identidade nacional quando devidamente confinada a um restaurante, a uma loja, ou a uma galeria! Enquanto comem, fotografam e publicam os pratos e ficam satisfeitos ao verificar a quantidade de gente que, àquela hora, não faz mais do que pôr gostos.
No momento de fazer a conta, cada um recorre à calculadora do smartphone para dividir o total por dois. É só mesmo para evitar demoras, porque, afinal, tempo é dinheiro. E se um escasseia, ao menos que abunde o outro.
É um país que há mil anos se suporta a si mesmo todos os dias. E que acredita ser já passado, raro e insólito o que, por mero acaso, lhe surja no caminho repetido: uma boca sem dentes, uma casa sem luz, uma criança sem livros, uma porta entreaberta para a miséria, a ignorância e a solidão.

(em oposição a isto)

19.9.16

Semáforo

De favor e de raspão, beijam-se os casais na despedida. É para isto que misericordiosamente se faz o vermelho dos semáforos e mais tempo não é necessário para elas se apearem e eles reporem os olhos no ponto de fuga da estrada. Motorista e passageira. Pelos lábios se encontram como quem lava os dentes, calça as meias ou faz a cama: corpo e pensamento em dissonância.
Imagino raivas, neuras e egoísmos de quem tem mau acordar. Ou a derradeira vitória do silêncio sobre ajustes de contas quotidianos. Ouvi dizer que se fazem de modo exasperado e insistente até por causa de tampas de retrete. Também me ocorre que se tenham endividado para o carro que os leva, tal como se terão endividado para a casa, quem sabe ainda para as férias sonhadas e que num instante se foram. E o amor - oh, Deus! - afinal não chega para saldar tanto. Amontoa-se então a vida sob a forma de tralha indivisível, assinada por ambos e avalizada pelos construtores de prisões de alta segurança. 
Cai o verde. Pisca o alerta a quem mudar de direção. Eles arrancam, inexpressivos como barro, e já elas viram a esquina com as malinhas a tiracolo, as blusas lisas, sem o rasto de mãos que exploram e desejam a horas impróprias, e o batom por esborratar. Segue cada um com a sua razão, o seu sono e pouco mais. É preciso avançar, é preciso cumprir.
Talvez alguns destes amores se recomponham no final do dia. Se a televisão não falar mais alto, poderão esclarecer motivos, lamber feridas, perdoar o que por impulso ou leviandade se tenha dito. Depois, com o sexo, a bandeira branca e o alívio. E a cama voltará a ser aconchego, ponto de encontro dos sonhos que a mais ninguém se confessa. Já passou, a vida é mesmo assim, um deles dirá. Até amanhã.
Mas outros destes amores, sem remédio, continuarão mudos, pálidos e pavorosos, como um cadáver a quem ninguém tem coragem de fechar os olhos e enterrar de vez.

15.9.16

Regresso às aulas

Junto ao portão da escola, dois garotos desdentados, de braço dado:
- Chove a sério!
- Sabes o que isso quer dizer?
- Que chove a sério!
- Pois, mas quer dizer que Deus está a chorar.
- Ah, sim, boa!
- Mas sabes outra coisa? - o tom de voz baixa, vem aí segredo.
- Diz...
- Deus só chora por um olho.
- Oh! Porquê?
- Porque com o outro está a vigiar o mundo.
O amigo primeiro franze a testa, depois alcança a iluminação:
- Então deve ser por isso que ele chora!
A dois passos, as mães conversam:
- Estás a ver, Susana? Tem-me a mania que é poeta ou o caraças. Digo-te uma coisa: se este ano correr como o anterior, não sei se aguento. Nem a tabuada do dois me sabe!  
- Deixa, o meu é igualzinho. Ainda noutro dia virou-se e ó mãe, o que é que eu vou ser quando morrer? E eu, não é quando morreres, é quando cresceres. E ele, quando crescer vou ser piloto de aviões, mas quero saber o que vou ser quando morrer. E eu deito as mãos à cabeça, valha-te Deus! agora tenho de meter a louça na máquina, depois perguntas isso na catequese.
- Olha, pelo menos são rapazes, isto com o tempo passa-lhes e qualquer dia já só querem saber de bola. Se fossem meninas eram mais ingratas de criar.
Mas já a outra se desinteressou e sintoniza em frequência oposta:
- Sabes o que é que me chateia, Paula? Esta humidade. Frisa-me o cabelo todo! Tanto trabalhinho de manhã pra nada!

7.9.16

Setembro

Esta semana, a cidade começou a compor-se. O sangue acelerou e a tensão fez renascer os êmbolos nos lugares habituais: avenida AEP, nó da Via Norte, túnel de Águas Santas, nó de Francos. O arrumador recuperou a sua utilidade e anda outra vez com os bolsos cheios de trocado e de beatas apanhadas do chão e dos cinzeiros públicos. As sirenes voltaram a gemer e às oito da manhã já as buzinas gritam por dá cá aquela palha – sai da frente, chega-te para lá, deixa-me passar que sou mais importante do que tu, ó domingueiro. Ninguém diria que esta gente relaxou, amou e se divertiu em agosto tanto quanto jura e exibe. De um dia para o outro, emergiram do fundo da alma os seus tormentos, adormecidos que estavam pelo sal das águas, que tem afamados poderes anti-infamatórios e desobstrutivos. 
As mulheres comentam a queda do cabelo: que outono tão precoce e injusto este, ao engano meteu-se a desbastar penteados em vez de árvores. Perante a insistência da velha mendiga, os homens desesperam, apalpam-se e pedem muitas desculpas por faltarem à obrigação da caridade, que está a ser vigiada por mil sondas. "Não tem dinheiro?", pergunta a velha endurecendo os seus olhos tão bem vestidos de abandono."Como não tem?" E eles prestam contas com detalhe, vulgares subalternos de um poder que respira em todas as ruas mas que ninguém vê. Um deles até abre e mostra a carteira, a jurar que não tem nada. Uma aflição de causar pena."Então veja lá se prá próxima...", ameaça a velha, oh, tão doce e coitada ela é!
Também já se ouve o choro das mães que se preparam para entregar os filhos na escola. Os meus só voltaram agora para casa. Cheiro-os, meço-os, percorro-lhes o corpo com as mãos abertas em busca de mossas, nódoas, atestados de fracasso e medalhas de coragem. Está tudo bem. Já não são os mesmos, olho para cima para falar com o mais velho, preciso de pensar três vezes para entender o mais novo, mas está tudo bem, conforme a natureza dita e eu acato, agradecida.

3.9.16

Ausente

Quando o meu filho atravessou a fronteira sem mim e eu andei de joelhos a recolher os destroços do cordão umbilical, onde estavas? E quando me estatelei num beco sombrio e me condenaram a olhar o teto por trinta dias? Onde estava o teu escudo e a tua determinação quando foram disparadas setas contra mim? E quando enfiaram dedos e sondas nas minhas cicatrizes? E quando eu agonizava de todas as folhas estarem ainda em branco, onde estavas? Em que cómodo resguardo te encontravas enquanto eu escalava montes à força de pulso com os meus filhos no colo? E quando adoeci, acaso as tuas mãos me mediram a febre e prepararam o caldo? Nas raras noites de mau dormir, quantas gotas de alfazema pingaste na minha almofada? Onde estavas nos imprevistos e nos dias em que os mortos se levantavam? E, enfim, onde estavas quando o território da minha felicidade se expandia ou quando a luz mostrava os contornos da verdade ou quando eu estoirava a rolha do espumante? Quando fui a melhor, a mais querida, a mais celebrada, onde? Em que chão tinhas os pés repousados quando eu inaugurava caminhos novos?
Apesar de tudo, dedicaste-me a tua vida em sonhos e devaneios. Muitas vezes terás acordado a meio da noite ereto e desnorteado, porque entre as sombras rompeu, iluminada, a visão da minha nudez e do meu cálice. Julgo que chegaste a casar comigo na enorme catedral da tua imaginação e abençoou-nos um coro de anjos que foste buscar a vidas passadas e a suposições futuras. Juraste-me fidelidade diante de um padre sem olhos e desautorizado por Deus. E assim te idealizaste meu guardião, meu amigo, meu amante, feliz de poderes ver a curva do meu pescoço, a prega da minha saia, a aura do meu suspiro. Mas nada disso tem grandeza alguma a não ser quando é dito em verso e pela boca dos poetas.

2.9.16

Descobrir as diferenças

Não bastando a fórmula elementar do dicionário, cá está a vida para desfazer equívocos e simplificar a distinção: aquele que, por cortesia e sentido do dever, comparece à necessidade é atencioso. O que se move pelo nobre sentido da dádiva, superior a expectativas e à cartilha dos bons modos, e nisso vê um sentido para ser, é generoso. E se ao primeiro é preciso pedir ou dar sinal, o segundo até de olhos fechados sabe para onde conduzir a sua mão.
Também o primeiro espera que lhe agradeçam para ter estímulo a repetir o ato de valor. O segundo, de nenhum pagamento depende, pois é consigo mesmo que tem por hábito acertar contas.

1.9.16

O método do amor

O príncipe William baixa-se para falar com o filho e a imprensa entusiasma-se. Chamam psicólogos, pediatras, pedopsiquiatras, para explicar que se trata de "escuta ativa" e que tem motivações claras e efeitos cientificamente comprovados. Confiai, portanto. Isto tem um nome e foi concluído por gente estudiosa, que o amor por si só não chega lá nem é credível como argumento. Deus nos livre de agir por puro e desinteressado afeto. Não se baixe um pai por cumplicidade, mas por estratégia. Não olhe nos olhos por magnetismo, mas por critério. Não ouça com atenção por gozo, mas por dever. Tudo com método, senhores, tudo com método, coordenadas e objetivos, que o instinto é dos bichos, não dos homens. 

(lembrei-me do senhor Casimiro, o antigo porteiro da escola do mais novo, que se baixava para falar com os que nem seus filhos eram. Duvido que ele conheça os estudos, suas conclusões e nomenclaturas. Mais certa estou da sua inteligência e humanidade. Mas, enfim, ao pé de um príncipe, que há de ter um porteiro de uma escola para ensinar ao mundo?)