29.6.16

Atentados

Talvez a maioria de nós nunca tenha sido feliz em Bruxelas ou em Istambul. Mas em Paris quase todos o fomos e por isso chorámos tanto dessa vez e escrevemos lençóis de poética intenção e pintámos as identidades virtuais com as cores da França e impingimos as nossas memórias da cidade das luzes presumindo que a todos interessariam e, naquele dia, mais valeriam. Até na solidariedade somos egocêntricos. O que damos é muitas vezes à troca de uma recordação, um espelho, uma ideia que nos dê sentido à caminhada, qualquer coisa que nos lembre que somos vivos e sensíveis.

Ou então estamos apenas a habituar-nos. 

28.6.16

Pontualidade

De manhã cedo, antes do trabalho, às vezes vou ver o mar. Desço até ao Castelo do Queijo e sigo devagar pela marginal até à fortaleza de São João. A essa hora, a Foz é zona livre de perigos. Ou já trabalham ou dormem ainda aqueles que transformam as esplanadas em recintos de feira e desfilam bronzeados, roupas e automóveis na passarela de asfalto. Está tudo limpo, a luz é branca e honesta, as águas rebrilham com a subtileza das mais sofisticadas preciosidades, a ondulação é só um afago, ninguém diria que, ano após ano, este mar engole mais uma dose de areal e que, em dias feios, chega a varrer a avenida. 
Não me perco de amores pelo mar. Ainda que me fascinem as suas profundezas, à superfície vejo-o como uma metáfora de certos modos de vida. Para lá e para cá, numa rebentação inútil, levantando e assentando areias, bramindo noite e dia, humores instáveis, ora enchendo ora vazando conforme as luas, quantas vezes tomando o que não lhe pertence para no dia seguinte se pôr ajoelhadinho e humilde, a chamar e a pedir perdão. Prefiro os rios, que têm origem, rota, destino, os seus cursos são como o sangue a pulsar, vivo e rico, nas artérias do mundo. Em todo o caso, a marginal deserta às primeiras horas da manhã faz o mar parecer mais belo e eu encanto-me por esse horizonte mal definido, que olho com a testa franzida e a alma cheia de inquietações miúdas.
Quando chega a altura, volto, penetro na densidade urbana, encaixo-me no cortejo, submeto-me ao para-arranca, resigno-me à inversão de importâncias. A cada pausa nos semáforos, deito o olho para o lado e lamento pelos que tomam um pequeno-almoço de iogurte magro e bolachinha em andamento, pelos casais que se despedem com beijos de raspão e pelas mulheres que, entre todas as artes possíveis, aprimoram a de fazer um risco preciso de eyeliner ao volante. Talvez durmam demasiado, penso. Eles dirão, certamente, que vivem é demasiado. E eu, que por esta hora já estou mais do que lavada, arranjada, de barriga cheia e olhos bem dilatados, vou devagar, não tenho pressa de chegar aonde sou paga para convencer os outros a fazer o que eu desprezo. Ainda assim, sou pontual.

27.6.16

O massacre

Parece-me agora é hábito massacrar as pessoas que não têm animais tanto quanto era costume massacrar-se as mulheres que não tinham filhos. Eu cá antipatizo com insistências e perseguições deste e de todos os géneros, pois sabe de si cada um e não vejo porque há de ser valoroso quem tem filhos e bichos e não há de sê-lo, por outros e vários motivos, quem quer viver por sua conta.
Vem isto a propósito da cena a que assisti na bucólica esplanada onde gosto de me sentar ao fim de semana por meia horinha, tempo suficiente para beber um café, ler as gordas dos jornais e vasculhar absurdos nas conversas que giram em redor. Juntaram-se na mesa ao lado quatro jovens casais, três deles trazendo cachorrinhos, dois com filhos, um deles sem filhos, cães, gatos, chinchilas ou periquitos, conforme adiante percebi. O encontro foi festivo, muitos abraços e beijos, certamente ali tinha havido ausência e saudade. Desfiaram os comentários habituais: os miúdos estão enormes, cortaste o cabelo, estás preto, que fizeste para emagrecer? Serenado o entusiasmo dos cumprimentos iniciais, mandaram vir os cafés e meteram-se à conversa. Desde logo os cachorrinhos tornaram-se o centro das atenções. Primeiro comentaram as delícias do pelo e do olhar, depois avançou-se para a troca de experiências, contando uns aos outros da dedicação incondicional, das façanhas e gracinhas dos seus bichos, do nascer ao pôr-do-sol. Por fim, lançaram-se nas opiniões acerca dos modos de cuidar, tratar, educar, limpar, exercitar. 
Ao casal sem animais não restava senão ir acenando com a cabeça para não ficar de todo à margem e, simpaticamente, demonstrar algum interesse pela conversa. Mas eis senão quando a interpelação de um dos jovens do grupo os faz passar, num segundo, de espetadores a protagonistas:
- E vocês, quando é que pensam em arranjar um bicho para vos alegrar os dias?
- Os nossos dias já são bem alegres, garanto-te. – entreolharam-se, cúmplices, quase maliciosos. Ele pousou-lhe a mão na perna, fincou-lhe os dedos na carne.
- Sim, mas uma coisinha destas preenche-nos, estás a compreender? – acrescentou uma amiga.
- Não dá, animais nem pensar, é muita responsabilidade e nós ainda agora fomos morar juntos. A casa nem está toda mobilada, calma lá...
- Que tem isso a ver? – de novo o amigo.
- Olha, não queremos estar presos, para já é viajar, divertirmo-nos, andar com os nossos projetos...
- Isto não é uma prisão, é um amor... E há sempre alguém que aceita e cuida dos animais nas férias... – outro amigo.
- Está bem, mas é sempre preocupação. Por enquanto não é o que queremos.
- Por cada preocupação que te dá, um animal compensa-te com mil alegrias. Olha pra isto, olha pra esta coisa mais linda –  e a amiga que dizia isto embalava o cachorro no colo, dando-lhe beijos repenicados à troca de sôfregas lambidelas.
Entretanto as crianças esparramadas nas cadeiras, dedilhando fervorosamente nos tablets, olhos convergentes, pés balouçando. O casal perdia as forças para continuar a discutir, ela chamou o funcionário e pediu uma água com gás e limão, ele acendeu um cigarro e desviou o assunto, comentou o tempo quente, como este Verão tardara! Mas um dos outros, ainda cheio de fôlego, decidiu falar ao coração:
- Há tantos animais abandonados... Vocês não têm pena? Se cada pessoa adotasse um, olha o bem que se fazia...
- Sim, mas é preciso dedicar-lhes tempo e nós...
- Se calhar isso é uma visão um bocado egoísta, não? –  outra vez a amiga.
- De qualquer forma, neste momento não temos condições para... 
- Nunca ouviram dizer que onde comem dois comem três? –  o amigo, obtendo o coro dos restantes. 
Levantou-se o casal. Que desculpassem, mas estavam a precisar de esticar as pernas e ainda tinham de passar no supermercado. Com um aceno vigoroso e apressado: um dia destes ligamos para combinar qualquer coisa.
Ligam, ligam.

17.6.16

Perfumes e companhias

Dizem que os perfumes identificam quem os usa, mas a minha ideia é oposta. Vendem-se em frascos, às coleções, às séries, em quantidades industriais, não vejo como isso possa dar um toque pessoal a quem quer que seja. Estranho que se pague às largas dezenas de euros para ter o mesmo cheiro do vizinho, do colega, do patrão, da atriz da novela, da designer de moda. Podeis poupar-me à explicação de que a fragrância se torna única ao reagir com a pele e que o que nuns fica enjoativo noutros lembra a frescura de prados verdejantes. O único aroma que nos individualiza é o nosso. Andando bem frescos e lavadinhos, somos mais atraentes, interessantes e fica garantida a singularidade que, a todo o custo, procuramos nas lojas e pela qual gostamos de pagar.
É fácil concluir que dispenso perfumes e que tenho um nariz cheio de cismas, relutâncias e sensibilidades. Acontece, porém, que não consigo livrar-me deles porque é costume a gente usá-los de um modo que se impõe e contamina. Não bastassem já as roupas e a quinquilharia, não fosse suficiente falar alto, bater os tacões, interromper, buzinar, ainda é preciso um cheiro que berre ao mundo "eu estou aqui!". E logo às primeiras horas da manhã reparo que, só por ter tocado no puxador da casa de banho, na máquina do café, por ter apertado a mão a este ou àquele, por não sei quem me ter afagado um ombro, sou uma mescla de Jean Paul Gaultier, Dolce & Gabbana, Chanel, Zara Kids, Frozen ou coisa que o valha. Ao almoço, o meu palato é corrompido pela profusão de fragrâncias químicas. O gosto de uma alheira com grelos e ovo estrelado deforma-se. O aroma do azeite com alho e coentros é abafado. Até uma punheta de bacalhau perde para um Armani qualquer. O que sinto não é a presença de gente e menos ainda de indivíduos - afinal, quantos cheiram ao mesmo? 
Por isso me dá para rir quando ela, à passagem do diretor, se põe muito excitadinha a suspirar ele cheira tão bem! E ele, consciente, encorpa-se, simula indiferença com um aceno preguiçoso. Nenhum dos dois se lembra que o cheiro não é dele, é do frasco de perfume. E milhões usam igual. Sorte teria ela se ele lhe desse a conhecer o seu próprio aroma, o original, o verdadeiro.

10.6.16

A educação proibida

O documentário que abaixo publico tem quatro anos, talvez muitos já o conheçam. Diz que na altura em que foi lançado tornou-se viral mas temo que isso seja falso, pelo menos em Portugal, ou então o facto de eu viver a leste das redes sociais impediu-me de detetar o fenómeno.
São duas horas e vinte de reflexão sobre o sistema de ensino global. Não estou à espera que em fim de semana prolongado e soalheiro alguém vá investir tempo a ver. A minha fé de que isto interesse a alguém diminui ainda mais quando me lembro de que as preocupações de pais, professores e instituições deste país nunca incidem sobre a raiz, a pertinência e o objetivo do sistema de ensino, antes giram torno das performances nos exames, dos resultados nas pautas e do financiamento dos colégios. Acresce o cansaço de que, nesta altura no ano letivo, todos querem finalmente libertar-se, que a corrida terá sido longa e penosa para muitos.
Em todo o caso, para quem desconhece, aqui fica "A educação proibida". Estou certa de que quem vê até ao final agradece, não a mim, claro, mas a quem se dá ao trabalho de nos lembrar o que, todos os dias, somos forçados a esquecer.

9.6.16

Estrada nacional

Uma mulher caiu de joelhos na berma da estrada nacional, sentido inverso ao dos peregrinos. Bateu com a têmpora esquerda no muro, abriu um lanho até ao olho. Logo parou um portentoso camião e dele saiu o motorista, acorrendo com a rapidez, a inteligência e o sangue-frio de um bombeiro. Do outro lado, veio uma jovem loira, de trança e calças floridas. À mulher, corria o sangue por entre os dedos da mão com que amparava a cabeça, pingando-lhe no colo e empapando o avental de xadrez. A jovem loira ajoelhou-se também para conversar com ela, enquanto o motorista tocava nas casas próximas em busca de auxílio. Atrás do camião foram-se acumulando outros veículos, ignorantes do que se passava. Em menos de um ai, a fila chegou à estação de serviço. Depois começaram a ganir as buzinas e era quem mais tentava passar sem ver por onde, menosprezando regras, prioridades e intenções alheias, que é sempre grande a urgência daquele que nunca olha para o lado e sempre lhe pertencem as questões de vida ou de morte e sempre é valioso o seu tempo, acima do dos outros.
Em sentido contrário, seguimos com tranquilidade ao perceber que a mulher estava bem entregue. Parar, só por curiosidade leviana ou por alguma dessa pena que a gente se põe a sentir quando precisa de encontrar consolo na própria sorte. Na nossa faixa, é provável que ninguém se tenha atrasado. Mas o motorista do camião poderá sofrer as consequências por qualquer coisa que agora não me ocorre nem consigo nomear. A rapariga loira, aonde quer que fosse chegará tarde. Os outros tarde chegarão, não lhes há de ter valido a impaciência e o escarcéu das buzinas. Havia uma mulher de joelhos na berma da estrada nacional, a sangrar. 

3.6.16

Os dias que passam e nos deixam

Comovi-me de ouvi-lo dizer-me uns versos de Pessoa. Orgulho tolo de mãe não foi, que para dizer uns versos basta lê-los e ter memória que os guarde. Minha riqueza de menino, também não. Versos de Pessoa estão à disposição de todos os meninos e qualquer um os recita, disseca e comenta quanto à métrica e às figuras de estilo. Comovi-me de, naquele instante, ao jorrarem os versos da sua boca com o ritmo e a entoação de um humilde dizer, sem farsa nem drama, estarmos juntos num lugar onde ainda não nos havíamos encontrado. Olhos nos olhos, pois somos agora da mesma altura e não voltaremos a ser – ele avançará, eu ficarei. É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte*
O meu irmão costuma dizer-me tu choras por tudo e por nada, caramba! Mas é falso. Eu não choro por tudo, eu só choro por nada. Sólida num funeral, numa despedida, na notícia de uma doença grave, talvez até na iminência do fim do mundo, porém escangalho-me, dissolvo-me diante de uma perfeição, miudeza que seja, coisa que aconteça sem deixar rasto ou herança, um nadinha ou ainda menos, uns versos que um menino diga e que qualquer outro pode dizer.

*Sou lúcido, Álvaro de Campos