26.4.16

Liberdade

Há muito que não tenho, com o senhor Pereira, um encontro que mereça relato. Ou porque ele anda menos espirituoso ou porque o que diz tem passado ao lado das minhas inflamações crónicas. Ontem, porém, talvez o feriado e o bom tempo o tenham espevitado e tenham reacendido em mim algumas sensibilidades. Vendo que pela fresquinha da manhã já andávamos no laréu, perguntou-me se íamos comemorar a liberdade. Qual liberdade?, perguntei. Não esperava que ele compreendesse a ironia, tampouco era meu desejo provocá-lo ao ponto de encetar debate. A única intenção era escapar ao absurdo da pergunta. Ele reagiu sem novidade: uma gargalhada superior, uns olhos ternos, paternais, e, por fim, a sentença já esperada.
- Vocês, jovens, não têm cultura nenhuma nem valorizam nada!
O mais novo, que volta e meia se mete a ler coisas impróprias para a idade e gosta de se exibir, puxou-lhe pela manga da camisa:
- Por acaso sabe quem foi o primeiro presidente da república da liberdade?
Primeiro, o senhor Pereira fez-se muito hirto e fugiu com os olhos, numa atrapalhação evidente. Mas depois, o riso vivo e ansioso do mais novo, com os dentes definitivos ainda por acomodar, enterneceu-o. E nessa ternura viu a tábua para se salvar da humilhação:
- Uma delícia, este seu pequenito! Uma delícia!
Ia repetindo isto e ganhando distância, desceu o passeio, atravessou a rua com acenos de despedida e, meio aos ziguezagues, acabou por atracar na mulher que o esperava na esquina oposta, adorando uma montra de vestidos de cerimónia. Seguiram de braço dado, como dois elos de uma corrente empedernida, ferrugenta, que nenhuma revolução é capaz de quebrar.

21.4.16

Revista de imprensa

Não meço a grandeza de um miradouro pela amplidão do horizonte, mas pela surpresa que a sua perspetiva me causa. Assombra-me mais a novidade do ângulo do que a lonjura da vista. Para lá do mar, já sei que está mais mar. Para lá de um monte, adivinho que outro está. Não preciso de ver longe, antes quero ver diferente.
Já estive em quase todos os miradouros que a Fugas sugere. É-me difícil perdoar a ausência de S. Leonardo de Galafura e de S. Salvador do Mundo nesta lista.

O "i" partilha connosco as nove dicas que a "Time" deu aos que sistematicamente chegam atrasados. Entre o bullshit habitual e muita condescendência pelos caóticos, esqueceu-se do único conselho que vale e cujo incumprimento a vida moderna não desculpa: tenha respeito pelos outros

O JN diz que "três funcionários das finanças arrecadaram 1,4 milhões de euros". Está mal, não está? Foram dois funcionários e uma funcionária, é preciso fazer a distinção. Há mulheres corruptas e a isso deve dar-se a justa importância.

20.4.16

O filho de Magda (4)

Na morte de Magda, ninguém o viu chorar. Mas durante muito tempo andou macambúzio, abusou da cerveja e do sofá, cumpriu a vida como um autómato, tanto se lhe dava que chovesse ou fizesse sol. Verdade seja dita, nem era grande desvio. Caráter marcante nunca tivera, da sua boca jamais saíra coisa que impressionasse. Entusiasmo? Por nada. Tão imune à paixão como ao desespero. 
A mulher, que já então tinha a memória dorida de um par de estalos, tirou algum alívio desse luto introvertido. Parecia que ele nem existia e, não existindo, evitava lembrar-se ela a toda a hora do erro que cometera. Quantos anos tinha? Vinte? Vinte e dois? Era uma rapariga tão bonita, tão esperta. Podia ter-se dado a outro. Tinha-a cortejado o Vasco, mas andava com um pé no Porto a estudar engenharia, por certo dava-se às noitadas e a outras raparigas, não era de confiar. Chegara a namorar o Carlos, mas achava-o muito instável e ambicioso, acossado por ideias de mudança, esquecer-se-ia dela quando realizasse os seus sonhos, melhor cortar o mal pela raiz. Teria até dado uma oportunidade ao Álvaro, bem quisera ele, mas o Álvaro escrevia no jornal todas as semanas sobre as vergonhas políticas lá da terra, com modos críticos e atrevidos, tinha inimizades, estava sujeito. Uma mulher não quer nada disto. 
Dizia-lhe o pai: de tanto escolheres hás de ficar sozinha. Sozinha é que não. Então, um dia, a mãe: já reparaste no Jorge Manuel, que é tão bom rapazinho? Tinha maneiras, era discreto, paciente e responsável, tão amigo de Magda, nunca se ouvira dizer dele o que quer que fosse. Só a madrinha tinha contrariado a maioria. E para que serve um bom rapazinho?, perguntara. A vida é paixão e combate, um bom rapazinho não se aguenta, falta-lhe fôlego, coragem e até defeitos. Depois, puxara a afilhada para um canto:
- E diz-te quem sabe, minha querida Luísa: um bom rapazinho nunca será um bom amante. Cuidado.
Com efeito, o primeiro beijo pareceu-lhe a lambidela de um cachorrinho. Acabou por rir disso muitos anos depois, quando exausta de chorar.

15.4.16

Intervalo inevitável

Perguntaram-me se acaso pretendia eu insinuar, no texto de ontem, que os gordos deveriam morrer. Que hei de responder?

Dizia há dias o Xilre, um dos raríssimos blogues aonde não vou por rotina mas por devoção, que as mulheres quando contam histórias mostram, ao invés dos homens, que insistem em dizer. Presunçosamente, incluí-me naquele elogio, até porque com a idade vou perdendo o hábito de afirmar e ganhando o gosto de contar. Pois se já nem eu sei que diga do tanto que vejo!!! Talvez por isso tenha guardado os textos antigos deste blogue, muitos deles pareciam-me excessivos em certezas e as certezas embaçam os horizontes, põem-nos o pé no travão. 
Do que se conta, conclui cada um o que mais lhe importa, magoa ou alivia. Já lá vai o tempo em que eu cuidava que o desentendimento era ou culpa de quem mal fala ou culpa de quem mal ouve. Hoje sei que a culpa é do intervalo inevitável que há entre a gente, do espaço vago e fértil onde tudo cabe, tudo se supõe, tudo se espera e de tudo se duvida. E esse tudo é mentira, perspetiva, ilusão.

Mães

Foi há largos anos, na Terra Quente Transmontana, andava o Outono a matizar a natureza com os tons do cansaço. A casa onde havíamos de pernoitar pertencia a uma família pequena, que nos acolheu cobrando o preço justo pelas comodidades e oferecendo bónus em simpatia. Eu ia carregada de esperança, levava no ventre pouco mais que um feijão, e, conversa puxando conversa, a dona da casa acabou por intuir a minha gravidez ainda sem evidências. Então, uma afeição nasceu, espontânea, e estendeu-se a todos os que estavam comigo. E onde era suposto apenas dormirmos, porque para mais não havia condições nem tabela de preços, acabámos por comer. À mesa se acrescentaram quatro cadeiras e se reuniram, assim, duas famílias. Durante os dias seguintes, entre boa comida e conversa melhor ainda, a dona da casa presenteou-me com fruta da época, compotas acabadas de fazer, mimos e palavras que só as mães dão. Agora precisa de comer por dois, dizia. Uma ignorância que vem de longe e se perdoa pela generosidade que vale. Estendia-me taças de romãs que preparava só para mim e parecia ter ela mais consolo nisso do que eu a lambuzar-me.
Assim me foi enchendo o estômago e o coração, emocionada com a minha gravidez, o meu ventre invisível, o meu filho incompleto. Só compreendi o apego e o excesso de cuidados quando ela, numa manhã, nos confessou que lhe morrera uma filha, já fazia alguns anos. Um brutal acidente no IP4, durante a viagem de regresso da faculdade para o fim de semana em família. Os dias nunca mais foram iguais. Tinha mais um filho, mas desde quando uma vida compensa outra que se foi? Fosse a sua menina viva e teria a minha idade, era assim o seu género e tudo. E depois, não tardaria muito, eu seria mãe e que mãe não se enternece com o nascimento de outra mãe? Durante algum tempo falou sobre a sua dor, divagando em torno de adjetivos imprecisos, insistindo que o dicionário não contempla certos estados de alma, ainda que vasculhado sílaba a sílaba. 
No último dia, enquanto preparei o saco e carreguei o carro, ela andou às voltas na cozinha e, à despedida, deu-me, ainda fervente, mais um frasco de compota de pera. Comi-o na viagem, com os dedos, até não haver sobra. Ao fim de algumas horas, estava de novo no Porto, onde a minha mãe cumpria com serenidade o quotidiano, alheia à iminência da própria morte, que marinava já no seu ventre de seis frutos.

14.4.16

O gordo e o magro

O mais velho contou-me: para não se ofender o gordo, havia eu, o magro, de morrer. Não se estranhe já a conjugação verbal, que mais adiante ficará esclarecida. Imenso, vermelho, transpirado, sem forças para se carregar, o tal gordo vive desde sempre com as dificuldades que se sabe e a que ninguém é indiferente, uns por genuína solidariedade, outros por mero dever social. Se é falha congénita de metabolismo, ignoro, mas, ainda que seja, parece que na família ninguém se importa, pois é comum ver-lhes os lábios e as mãos reluzindo da gordura e do sal com que o empanturram. Perdeu autoridade sobre o próprio corpo. Depois da educação física está mais morto que vivo e, para se recompor, mete a mão à mochila e de lá desenterra o que aos outros, mesmo aos gulosos, causa espanto: cola zero, folhadinhos de salsicha, sandes de chocolate empacotadas. 
No dia em que o país inteiro se meteu a ensaiar os comportamentos a ter durante um sismo, partilhava o mais velho a mesa da sala de aula com o gordo. Dada a ordem, a turma tratou de se pôr a salvo e, entre empurrões, risadinhas e sabe-se lá que segredos e atrevimentos, cada um acomodou-se como pôde por baixo da sua mesa. Com muita dificuldade o gordo se deixou escorregar pela cadeira e, depois de um combate que o deixou afogueado, arfando e sem fala, acabou por se arranjar, monopolizando todo o espaço disponível por baixo da mesa e deixando o mais velho de fora, sozinho no meio da sala, como cachorro esquecido na aflição de uma fuga. 
Por esta altura, fazendo-se realidade do que à imaginação se obrigou, estaria já a terra toda a tremer para ajustar as entranhas, e as lâmpadas, o projetor, as calhas dos estores estariam caindo com a facilidade da chuva, estilhaçando-se, quebrando sem ver o quê. Por esta altura também, achando-se vulnerável à catástrofe simulada, o mais velho fez notar à professora o facto de não lhe ter sobrado espaço para se abrigar e ela, coitada, tolhida por medos, pruridos, vícios de peninha e solidariedades de duvidosos princípios: shiuu! respeite o seu colega!
Não se pode verdadeiramente ensaiar uma tragédia. O simulacro não contempla o desespero e o pânico. Na hora da verdade, falaria mais alto o instinto do que as boas maneiras e trocar-se-iam os paninhos quentes pelas armas que melhor garantem a sobrevivência. Mas em imaginação, o mais velho, magro de se lhe notarem as irregularidades ósseas, porém forte, ágil, resistente e sadio, morreu. Seria muito feio se de outro modo acontecesse. 

8.4.16

Frases feitas

O meu patrão é um homem de frases feitas e o pior das frases feitas nem é o facto de não acrescentarem nada, mas a impossibilidade de as contradizer. Hoje, por exemplo, começou o dia lembrando que ninguém dá nada a ninguém, tudo se paga e assim calou o interlocutor e encerrou a conversa. Saiu vitorioso, inchado de razão. No dia em que abandonei uma reunião a meio e lhe apontei o dedo, acusando-o de estar a cometer uma terrível injustiça, respondeu-me com outra frase feita: a vida é injusta. Eu estava de pé, ele sentado, eu estava firme, ele de cabeça baixa, eu conhecia os factos, ele estava na ignorância, eu tinha a razão, ele tinha falhado. E, ainda assim, a frase feita deitou-me por terra, desarmou-me, venceu-me. Vi-me ao comprido, rendida, com a lâmina do óbvio encostada ao pescoço, engolindo em seco.
Nas horas quentes, no cume de uma discussão, uma frase feita é aquela pobreza terrível que nos deixa mudos, a afirmação do circuito inquebrável, o raio de luz súbito que nos cega. Para contrariar quem as diz, só obrigando a reviver, a nascer de novo, a olhar a vida de outro modo.
Também eu, ontem, diante do trágico, sem chão ou palavra original que valesse e desse amparo, dei comigo a dizer uma frase feita: a esperança é a última a morrer. E para me contrariarem, para me mostrarem que a verdade é outra, era preciso obrigar-me a reviver, fazer-me nascer de novo, ensinar-me a olhar a vida de modo diferente.

6.4.16

Ginásio

No grupo de mulheres que a meio da manhã desce para fumar um cigarro, há uma que tem a liderança: é a mais queixosa, a mais egocêntrica, a que mais ironiza com a própria vida, fazendo das desgraças graças. As outras não falam se ela não falar, acomodam-se num silêncio que é de subserviência, esperam mote, autorização. Superior, ela encosta-se ao muro, fecha os olhos para receber o sol, aparenta indiferença mas a verdade é que está a cismar lá por dentro, em busca do que dizer para que as outras fechem o círculo ao seu redor. De repente, ai, era quem me desse agora uma caminha. Como se tivesse dito grande coisa, as outras desatam a rir e vão-se aproximando.
- Tens sono?
- Se tivesses um puto comó meu, que dorme de dia e quer baile de noite!
Riem outra vez, seguem-na com os olhos aguardando que desenvolva e lhes dê mais trela. Às vezes ela não dá, limita-se a mudar de lugar sabendo que, como massa homogénea e amorfa, as outras a acompanham. Sentar-se-ão onde ela se sentar. Levantar-se-ão se ela se levantar. Apagarão o cigarro assim que ela apague o dela. Outras vezes, mais espirituosa e inspirada, ela desfia o rol das suas desventuras maternais, sempre as mesmas, coisas menores, roupa bolçada, sopas rejeitadas, birras na hora de ir dormir, jornais rasgados. Soubesse ela que a maternidade era isto e tinha fugido a tempo para as Caraíbas, deixava o catraio com os avós antes de o amar ao ponto de não suportar mais de duas horas sem lhe ouvir a voz. Nascera para a preguiça e o prazer. Mas, quê?! A sorte não queria nada com ela. Se ao menos fosse rica! As outras continuam a rir, acham-lhe uma graça desproporcionada, anseiam pela próxima palavra, pelo queixume seguinte. 
- E o pai?
- Mas que esperas tu de um pai? Quer dizer, que esperas tu de um homem? 
Gargalhadas. Tomara eu ter um riso tão fácil como estas mulheres, por dá cá aquela palha entusiasmam-se, dobram-se, agarram-se ao estômago, contorcem-se, até se engasgam com o fumo.
- E agora que passa a vida no ginásio... só pensa naquilo... tem lá uns objetivos...
- Parece que os homens andam todos com essa mania...
- Olha, e eu nem percebo para quê... Não há lá máquinas que desenvolvam o cérebro!
Foi a tirada do dia, talvez a da semana. Unem-se as mulheres contra a raça masculina com toda a pujança, já lhes falta o ar de tanto rir. Como de outras vezes, o segurança espreita, desaquietado pelo bulício. Ao fim do dia, estas mulheres estarão tão exaustas de rir que se hão de deitar mansas, frágeis, vulneráveis, repousando a cabeça no peito desses homens que desprezam, gozam e insultam, falando docemente, amando sem reservas, morrendo de medo da solidão.

5.4.16

O filho de Magda (3)

Diz que o filho de Magda foi sempre muito enojado. Franzia-se todo por qualquer mau cheiro, arrepiava-se com as caganitas dos pombos na soleira e, até casar, quem lhe despiu as meias foi a mãe, porque a ele repugnava o próprio suor. Quando a mulher pariu as gémeas, coisas lá da sua imaginação devem ter-lhe perturbado os sentidos porque foi-se afastando, fugindo ao toque dela, amolecendo o braço com que lhe amparava cintura, espaçando as desajeitadas provas de afeto. Na hora de dar a mama, ele de cara virada, escondido atrás de um jornal. A mudança das fraldas, que vómito! E a nudez das pequenitas, que derretia a mulher e pedia mil beijos nos refegos, nas plantas dos pezinhos e nos gomos do peito, era um constrangimento quase dor. Estava no seu direito. Então não é dos livros que os homens são mal talhados para certas demonstrações de carinho? O seu amor era focado, responsável, atento aos prazos de pagamento, às paredes da casa, à estabilidade da família. Não esperassem que visse poesia em animalidades. E se as respeitava, era mais pelo medo de se intrometer no que desconhecia e lhe parecia avassalador, do que por amorosa consideração. Digo eu que, de ouvir e me espantar com os factos, fui-me entretendo no esboço dos sentimentos.
Com tanto nojo aos delírios de pele e aos odores do corpo, pergunte-se de que artes se terá socorrido para fazer os filhos. Talvez as mesmas que o mantiveram hirto e frio quando o patrão, desbocado pelo tinto num jantar da empresa, à queima-roupa e sem propósito: Jorge Manuel, você até nem é mau homem mas falta-lhe brilho, está-me a compreender? Dessa vez, lembrou os conselhos da mãe e sorriu, medroso e servil, para os colegas que testemunharam a humilhação. Dando assim a outra face, pelo menos não haviam de ter o que dizer dele.

4.4.16

O filho de Magda (2)

Foi a estagiária quem me disse que o filho de Magda nunca autorizou a mulher a pintar-se. É muito velho? perguntei. Cinquentas...
Uma vez, tendo ela roído um sabugo, correu sangue e, mesmo depois de lavar, ao redor da unha secou um fiozinho vermelho-escuro. Julgando serem restos de verniz clandestinamente usado, ele perguntou de onde vinha o disparate e, sem querer resposta, assentou-lhe a mão na cara duas vezes seguidas. Foi o primeiro ato de desprezo pelos conselhos maternos. Nessa mesma noite, conceberam o terceiro filho. Sabem que assim foi porque havia muito tempo que não se tocavam nem voltaram a tocar-se depois. E quem contou à estagiária foi uma das filhas mais velhas, pronta a arranjar desculpa para aquela miséria. Pelo menos o meu pai não é um malandro, estudou e é trabalhador. Ninguém tem o que dizer dele.

1.4.16

O filho de Magda

Do filho de Magda nunca ninguém disse que havia de ir longe. Nem ela o quereria. Para ir longe é preciso, às vezes, caminhar sozinho ao longo das raias do perigo e da loucura, esgotar forças na contracorrente e, pior, desapegar-se do chão e da casa. Fora longe o filho de Alice e ela nunca mais o vira. Fora longe o filho de Marília e morreu do coração antes dos quarenta. Fora longe o filho de Teresa e, com a fama, tinham vindo mulheres a mais, debilidades nervosas, incertezas financeiras. 
Para que ele aprendesse a proteger-se, tal como umas ensinam orações, Magda ensinou o filho a nunca destratar as mulheres, contrariar os patrões ou dar aos outros o que não tivesse garantia de retorno. Que desse pão esperando ter pão de volta, sim. Mas se desse o seu tempo e o seu afeto, não contasse ser retribuído. Não pode cobrar-se a dívida do que não se palpa. Como medir os montantes, fazer as contas, calcular juros?
O rapaz cresceu transparente e moderado, ninguém dava por ele. Nunca teve um assomo, foi imune à paixão, resistiu aos devaneios da juventude. Foi um bom aluno, com solidez na caligrafia, pontualidade e uma atenção que só os muito devotados prestam. Porém, falho de talentos, incapaz de um rasgo, de uma surpresa, de uma tirada que fizesse cair o queixo, fosse por inteligência, criatividade ou humor. Voluntário na distribuição de roupas e comida aos pobres, virava costas e passava de fininho se ouvisse chorar um colega. De resto, nem sequer aprendera a consolar, era desajeitado nos abraços que só praticava em festas e funerais. Beijos, os da mãe, com conta, peso e medida, que o amor é muito bonito mas não resolve a vida de ninguém, andor mas é estudar para ser gente e ganhar o seu. 
Ele obedeceu mas Magda, desaquietada por vocação, temerosa dos acasos e das ratoeiras do destino, nem assim. Na busca de mais certezas, levou-o à bruxa, ela pôs-lhe as cartas, debitou trivialidades mais prováveis do que a chuva e, no fim, há de casar e ter três filhos. Magda pagou o que foi pedido por aquele derradeiro consolo e com os anos soube que não tinha sido intrujada. Ele casou e teve os filhos prometidos, dois de uma assentada e um fora de tempo, quase neto. Morreu ela primeiro, conforme quis. Não havia de vê-lo sofrer e partir como sucedera às amigas. Finou-se no alívio de o saber seguro entre quatro paredes, com a cama quente, as contas pagas, os filhos limpos e um patrão tão bondoso, que lhe dava os vinte e dois dias de férias e o deixava despegar às seis e meia. Ninguém tinha o que dizer dele. Infelizmente, nunca ninguém disse dele o que quer que fosse.