17.3.16

Notas

Na vida, é tão grande o meu esforço em avançar como o de qualquer outro ser humano. Certa de estar longe do meu próprio ideal e de ser tão vasto e imprevisível o caminho que tenho pela frente como o que já percorri, não baixo os braços no trabalho, colho todos os ensinamentos dos meus filhos, leio o mais que posso para enriquecer, persisto em mudanças, por mais pequenas, e jamais tomarei como definitivo o que hoje sou, tenho, posso ou me falta. Tão diferente do que há dez anos era, pergunto-me como serei quando outro tanto passar. O destino tem uma palavra a dizer, mas a resposta quem a dará se não eu própria?
Porém, aqui não venho para desfilar as vitórias e os fracassos que, neste avançar, me sucedem. Importam pouco as minhas maiores experiências, tentativas, planos, perdas ou desilusões. Venho aqui para um merecido repouso. Venho para contar do que vi nos intervalos da corrida, miudezas, trivialidades, fragmentos, curvas ligeiras, incidências de luz, coisas que acidentalmente me ocorrem, verdades passageiras, nada que explique o mundo, muito menos que o salve. Este não é o meu palco, a minha prova de forças, talento, resistência ou caráter. Este é só o caderno de notas de uma vulgar espetadora. Preservo-o com a esperança de que o que vejo me torne melhor no papel que me cabe.

16.3.16

De mal com a vida

Foi embora o senhor Casimiro, o porteiro de mil olhos, mil braços e voz doce, o único que conheci disposto a pôr-se de cócoras para falar com as crianças de igual para igual, ciente de que não é pelo tamanho que se ganha respeito e autoridade. Não lhe terão renovado o contrato, sina infeliz que é de muitos os que andam ao serviço do estado, desmerecedores de poiso certo, de confiança, mendigando a própria dignidade. Por dois meses não houve porteiro. No controlo das entradas e saídas revezaram-se as funcionárias de outros pelouros, as da cantina, as da limpeza e as do apoio às atividades curriculares. 
Depois, veio o senhor Tomé. 
À primeira vista, achei-o seco nos modos e entrevi na dureza das suas feições uma história de carências, desamores e amarguras. Falsamente hirto e seguro, desapossado de emoção, às crianças nem bom dia nem boa tarde, nenhum esgar, nenhum gesto. Impressionou-me ainda a maledicência que lhe fui ouvindo sobre pais e mães, falando a uns nas costas de outros, zombando dos bons automóveis, dos saltos altos das senhoras, dos modos ariscos da miudagem, e com isso distraindo-se de quem entrava e de quem saía. Lembrei-me de como o senhor Casimiro poupava na conversa fiada para poder ser um mãos-largas no cuidado e na atenção às crianças. O mais novo deve ter intuído os meus pensamentos, que não partilhei porque evito orientar os meus filhos pelos desânimos que sofro. Chegando à escola, mais compassivo do que incomodado, à boleia de um beijo sussurrou-me: este homem está de mal com a vida
Julgo que aprendeu a expressão com o mais velho, que há três ou quatro anos chega a casa queixando-se que os professores andam de mal com a vida. Tento pôr água na fervura, que é preciso compreender, dadas as condições em que trabalham, o stress, as metas, o insuportável bulício da canalha. Mas logo ele me fala da cozinheira da cantina, mulher pequenina e enérgica, sorria tanto que até dava luz, quanta paciência e alegria numa pessoa só, ali enfiada numa cozinha, atrás de um balcão, o cheiro a comida entranhado na roupa e nos cabelos, os ouvidos saturados das esquisitices, das indecisões e da gritaria infernal que se propaga até onde a fila termina, tudo isso por quanto ao fim do mês? Que eu havia de a ter conhecido, diz-me ele. Só pode ser gente feliz. Era ela quem, às escondidas, lhe triplicava a dose de sopa e lhe trocava as batatas por mais pepino e honestamente lamentava quando ele se queixava que aquilo não era peixe, era glomérulo de espinhas. Chamava-lhe meu querido, e como isso pode fazer o dia num lugar que é selva, distância, desumanização!
Infelizmente, também a cozinheira foi embora este ano. 
E este vaivém faz com que uns se obriguem a desfazer os laços, deixando saudade, e a outros não se dê tempo para os criar, para amaciar durezas, para embainhar a espada. Pergunto-me se haverá algum estudo manhoso de uma universidade qualquer do cu de Judas que tenha concluído o prejuízo causado pelas relações humanas à competitividade ou de como o crescimento de um país se faz à custa da solidão e do narcisismo, pois quanto mais desatentos ao outro, mais eficazes na corrida, mais força para a engrenagem. 

11.3.16

Queda

Só hoje, passando os olhos pelas notícias, vi que o cantor Anselmo Ralph tropeçou e caiu para não dar as costas ao presidente da República. Que bem ficou representado neste incidente o espírito português, que, de tanto confundir respeito com subserviência, se espalha ao comprido na própria subida.
Se ao menos o presidente tivesse acorrido a deitar-lhe a mão...

9.3.16

Juventude

Não sou uma dessas mulheres que acha conforto na ideia de que a juventude de espírito é que conta. Tenho medo de envelhecer. Se quiser posso mentir na idade, a genética favoreceu-me, muitos duvidam que seja mãe dos meus filhos. Mas qual o ganho? O meu corpo há de ir morrendo como qualquer outro. Os ossos amolecerão, o ventre secará, esquecerei miudezas, terei medo de estar só. Posso insistir em usar cabelos longos, calças de ganga, saias rodadas, mas à noite há de faltar-me a coragem de despir tudo em frente ao espelho e embater na minha própria nudez.
De resto, também não havia de ser a juventude de espírito a valer-me. Sou pouco foliona, pouco crente e pouco surpreendida. Quando começar a envelhecer por fora, já estarei velha por dentro há muito tempo. 

8.3.16

Os perigos

Que triste deve parecer a realidade aos olhos de certas crianças! A conselho dos próprios pais e antes mesmo de darem os primeiros passos, acatam a ideia de que o mundo é armadilhado, cheio de más intenções, não obstante a mão sábia e bondosa que se diz assinar a sua criação. O cão ferra, o frio constipa, o sol faz mal à cabeça, a terra é porca, o médico dá picas, o polícia prende, o professor castiga, o estranho rouba. Os doces fazem formigas na barriga. A queda é fatal para os que ousam. Depois da curva pode haver um precipício. 
Que lhes resta? O colo e a obediência, a restrição a um perímetro modesto, aventuras de plástico, personagens de ficção, corridas de polegar. Infelizmente, é à sombra da ignorância que os perigos fermentam, mas de um modo tão silencioso e ordeiro que nem se dá por eles.

5.3.16

Uma valente poda

Nunca se subestime o que se passa dentro de um salão de cabeleireiro. Pode sempre revelar-se mais do que aquilo que as frivolidades aparentam.
Esta manhã, ao entrar, a cabeleireira recebeu-me com calorosas festas, mas logo avançou para o ralhete. Não tinha jeito nenhum estar sem aparecer desde setembro, os cabelos não podem andar tanto tempo sem cuidados, muito menos quando se usam assim compridos e soltos. O costume, expliquei, só corto o cabelo na proximidade dos equinócios. Se isso era crendice, perguntou. Nada, são só alturas em que me acho mais disposta às mudanças. Não tinha mal algum, garantiu-me ela, o que eu devia era passar lá mais vezes para cortar as pontinhas, digamos, fazer a poda. Os cabelos são como as plantas, se não forem podados de tempos a tempos estragam-se, debilitam-se, as raízes adoecem, e depois só com tratamentos especiais. 
Eu não queria ofender a cabeleireira, por isso não lhe disse que me limito a duas visitas anuais porque me custa estar ali, perturba-me aquele excesso de vida, o turbilhão de emoções fortes que à volta de tudo rodopia. Hoje, por exemplo, fiquei a saber que a enteada da Zézinha está a divorciar-se e que esse facto tem sido causa de muitos desatinos entre ambas. A Zézinha diz que está farta, a vida toda a enteada lhe causou problemas, aturou-os com a firmeza de uma rocha e o sangue-frio que nenhuma mãe teria, o divórcio foi a gota de água. O que lá vai lá vai, mas é difícil esquecer a noite em que ela foi parar à esquadra por causa de um saquinho de erva, mais a vez em que se descobriu que tinha desistido do curso de direito e marinava em segredo a transferência para as belas-artes, já para não falar de quando se envolveu com um rapaz casado e foi a mulher dele lá a casa ajustar contas. Uma vergonha, tudo uma vergonha!
- Não é que eu dê valor a isso, mas o sobrenome dele ficava-lhe tão bem...
- Então, Zézinha? O que importa é que ela seja feliz!
Surpreendente, esta tirada da cabeleireira. Assim pareceu, pelo entusiasmo que colheu em todo o salão. Só a Zézinha se dobrou, deixou cair os olhos nas franjas da écharpe e penteou-as melancolicamente com os dedos:
- Ela não quer ser feliz. Tem outros interesses...
Soube também que o filho da manicura já se livrou das fraldas, pelo menos durante o dia. Quem está feliz é o pai, diz que agora há mais um homem lá em casa. O seu marido diz isso?, pergunta a Zézinha. Empertigou-se a manicura, que não era marido, era companheiro, a ela ninguém havia de a acorrentar pela via de papéis e registos, isso era antigamente. A gente amamo-nos e isso é que conta. Conta, mas o casamento sempre aperta mais o laço, avisa a cabeleireira.
- Ora, é isso que eu não quero! Assim se um dia descobrir que ele me engana, é menos trabalho para lhe virar as costas e sair porta fora.
- Mas então estás a contar que ele te engane...
- E havia de contar com o quê, Gracinha? Se eu não conhecesse os homens...
Quando entrou a Joaninha, rapariga à volta dos trinta, o sururu abrandou como se a presença dela impusesse moderação.
- Então, Joaninha?
- Então, Gracinha? O seu rapaz já se decidiu?
- Era bom, era... Na semana passada queria ser arquiteto, hoje já acordou a cismar em ser mecânico de automóveis. Não sei quanto tempo mais vai andar nesta indecisão, não faz nada, põe-se a pé ao meio-dia, vê filmes, vai tomar café, volta, vê mais filmes, à noite é copos com os amigos, miúdas... O que isto tem de bom é que quando eu chego a casa ele já fez o jantar, é só sentar-me e comer. Mas dá-me cá uma angústia vê-lo tão inútil, ao Deus dará.
- Vai ver que um dia de repente acorda... sei lá, isso às vezes é das pessoas muito inteligentes. Não se contentam, pronto!
- Olha, e a tua mãe como vai?
- Acamada. Já nem me conhece.
- Mas fala?
- Só disparates, até palavrões...
Embarga-se a voz da Joaninha, a cabeleireira faz-lhe um mimo:
- Tens de ser forte, filha. Que vens fazer hoje?
- Só lavar e secar, tenho um jantar de aniversário. O meu irmão diz que fica com a minha mãe.
A Joaninha deita a mão à trança negra que lhe cai até ao estômago, puxa o elástico e, com uma dedilhação muito rápida e ágil, liberta uma cabeleira de impressionar. A outra interrompe-me o corte, recua, espanta-se, faz-me girar a cadeira de modo a pôr-me de frente para a Joaninha:
- Está a ver, menina? Esta Joaninha... Está ou não está a precisar de uma valente poda?
Olho a Joaninha de alto a baixo, não a tinha visto com olhos de ver. Muito sóbria e escura no vestir, o peito encolhido, o olhar embaçado, toda ela um acanhamento de juventude mal vivida. Os cabelos assim tão compridos, envolvendo-a como o manto de uma viúva, negro, espesso, pesado, tanto podiam ser desleixe como promessa ou gosto que quisesse dar a alguém, até a si mesma, se bem que não parecesse rapariga de amores-próprios.
- Credo, Gracinha! Uma valente poda, não. Estou habituada assim. Acho que nem ia conseguir olhar-me ao espelho.
- Oh Joaninha, depois de uma poda como deve ser, uma mulher fica como nova! Mais brilho, mais frescura, mais leveza...
- Deixe estar assim. Só mesmo um jeitinho com o secador.
Nos outros não sei, mas neste salão de cabeleireiro todas as mulheres se tratam com diminutivos. Exceção abre-se para a dona Maria Isabel, mais pelo respeito que mete o seu enorme poder intelectual do que pelo avanço da idade. Mas hoje a dona Maria Isabel não estava, para fechar a conversa com chave de ouro como é seu uso e explicar que uma valente poda é quando apetece a cada um e não quando os outros presumem necessária. 
A mim chamam-me só menina. Creio que nunca disse o meu nome. Quando vou com os meus filhos, olha a menina e os meninos! E está muito bem assim.

4.3.16

Carta de amor

Devem inibir-se de afirmar que já não se escrevem cartas de amor aqueles que, na verdade, há muito não recebem uma carta de amor. Generalizar conforta, mas falseia. Escrevem-se muitas e eu tenho uma nas mãos. Infelizmente, não me estava destinada mas era para gente da minha casa e autorizaram-me a lê-la quantas vezes eu quisesse. É sabido que uma carta de amor pode ler-se repetidamente sem fastio. A cada leitura acha-se uma entrelinha, desenterra-se uma memória, recupera-se a esperança num mundo que se mova apenas por impulsos benignos. 
A que tenho nas mãos é uma dessas que se dizem extintas, em papel, devidamente endereçada, datada e assinada. A caligrafia beneficiou de amorosos cuidados, os parágrafos são quebrados com rigor, a pontuação tem a cadência do respirar, as palavras estão acentuadas na importância que têm. O sentimento que nela vem revelado e descrito - desde as miudezas psicossomáticas até à visão da eternidade -, toda a gente conhece e não há, entre novos e velhos, quem o sinta de outro modo. Enganado está aquele que se julga capaz de viver um novo amor de forma nova. Porque nesta carta, escrita pelo punho de uma adolescente, eu leio exatamente as mesmas palavras que tenho ouvido a tantos da minha idade e a outros, mais maduros, que garantiam estar na posse de tal experiência que não mais se deixariam apanhar na trama, no delírio, na luz que por vezes mais encandeia do que ilumina, nas ganas de envelhecer e morrer de mão dada sem imaginar o que isso seja. 
Não foi um impulso nem se escreveu de uma assentada, é o que me parece. Vem com sangue-frio, mais obediente à razão do que precipitada por febres, o que, enfim, não a livra de equívocos. Dividida em partes, entra com brandura para não assustar, depois avança a explicar-se e vai crescendo, esmiuçando, interpretando o milagre que atordoa e angustia. É verdade que usa alguns floreados, mas quem resiste a eles na hora de falar de amor? Seco no verbo ele ficaria desengraçado, objetivo na ideia tornar-se-ia vulgar, terreno na intenção levantaria a triste suspeita de ser passageiro. No fim das contas, o floreado é a única vestimenta original com que se pode apresentar uma emoção. Escolha cuidadosamente as palavras quem quiser convencer que há raridade no mais comum dos sentimentos. 
Já me custa lembrar a última carta de amor que recebi em papel. Nos anos recentes, têm-me chegado por e-mail. E algumas, concisas e urgentes, mais ao jeito de bilhete, até vieram por sms. Mas duvido que essas - tão fáceis de corrigir, ajeitar e enviar - sejam verdadeiras cartas de amor. Não há palavra que, por si só, faça prova de um sentimento. É essencial o plano, a trabalheira, o cuidado para manter a folha limpa, a firmeza de não deixar descair as linhas. E também lhe acrescentam valor todos os fracassos e as hesitações, os rascunhos que acabaram no cesto dos papéis, os ensaios mentais que distraíram o amante do quotidiano, a tinta que a transpiração nublou, o caráter deformado por um súbito tremor. Garantido tudo isto, que importa depois que o final da carta seja o que sempre é? Um jorro de falsidades sem propósito de o serem, a ingenuidade a falar alto, a ilusão da vida eterna, doces promessas, levianas promessas, fundamentais promessas. 
Com as arrumações feitas, a casa limpa de pó e as velharias definitivamente guardadas em armários, retomo. Para mais do que esta simples organização não tenho veia nem pachorra, enfeites e bibelôs nunca foram o meu forte.
Em falta está a pintura da fachada, que é coisa que levará o seu tempo, mas instalo-me assim mesmo e volto às rotinas deixando os brancos da parede à vista enquanto espero. Não sendo atraente aos olhos de quem passe, também não é mal que venha ao mundo para o virar do avesso. 

2.3.16

Ainda não voltei, mas...

Parece-me óbvio o motivo pelo qual continuamos a festejar o 25 de abril como se ainda vivêssemos no dia seguinte. Porque, com efeito, não avançámos, não atravessámos a linha que nos separa definitivamente da vergonha do que já fizemos. A liberdade de expressão, por exemplo, está por realizar. Somos donos de uma moral castradora e acusatória, que nos impele a condenar publicamente, com insulto e ameaça, quem exprime pensamento que não caia no goto. Somos como o papá que dá um tabefe ao filho enquanto lhe diz não se bate nos outros! O direito a dizer o que se pensa tem sido comemorado com muita festarola, comes e bebes, ao jeito que gostamos, mas está longe de ser praticado com civismo. 
Incapazes de distinguir o trigo do joio, só olhamos de raspão e ouvimos por alto. É que o tempo não para e é implacável nas exigências. E então a gente, não podendo dar-se ao luxo de ficar para trás a ponderar, sob pena de nos julgarem sem opinião, recorre às estantes e às gavetas, onde se guarda o que já está devidamente nomeado e catalogado. Direita é direita. Esquerda é esquerda. Infiéis são infiéis. Mulheres são mulheres. Depressivos são depressivos. Cancerosos são cancerosos. Patrões são patrões. Sem-abrigo são sem-abrigo. Uns na ala das vítimas, outros na ala dos carrascos, dependendo de quem olha. Matem-se uns. Dê-se sopas e colinho a outros. Não há tonalidades de cinza. 
O país está a reduzir-se a uma praceta e a um pelourinho.