14.12.16

Uma menina

Uma menina foi atropelada esta manhã diante dos nossos olhos. Ao embate do automóvel, voou como uma folha de papel, desumanizada, e também os meus filhos confirmaram, com horror, que a morte não é apenas um fim mas uma companhia fiel, uma lapa no nosso corpo, uma sombra em cada passo que damos, uma silenciosa iminência. 
Não importa dissecar a banalidade dos sentimentos que se seguiram. Não foi excecional nem raro o aperto no meu coração de mãe, nem o pasmo atemorizado nos olhos deles, nem a fragilidade que no quotidiano esquecemos e que nestas horas parece respirar fundo, como bicho traiçoeiro, em cada uma das nossas células. Importa-me o costume: a fila de automóveis buzinando, indiferente a uma menina prostrada no chão e à sua amiga trémula, chorando de susto. Foi a esta que eu acudi, porque me doeu o seu abandono desesperado, a sua meninice traumatizada, a imagem da tragédia que se lhe terá fixado para sempre na retina. Em boa hora um grupo de adolescentes a ela se juntou, amparando-a, enchendo-a de cuidados. 
São-me cada vez mais insuportáveis os adultos que acusam a miudagem de má formação. Já o disse muitas vezes: estou, estarei sempre, do lado dos mais novos, que é também o lado único da minha esperança. Livre-me Deus de alinhar nessa fila de trânsito tão responsável, cega e ofendida, capaz de pregar os mais nobres e comoventes valores sem erguer o punho para os praticar.