20.12.16

Retiro

Creio já o ter dito em anos anteriores: o Natal é o tempo em que sou mais egoísta. Não saio, por nada, de dentro da minha muralha, não abandono a minha mesa. Nem comigo mesma sou solidária, não gasto um segundo a lamber feridas próprias, menosprezo todas as tristezas e dissabores que já vivi, e a minha memória, que costuma ser de invejar, fica curta e fraca. Canto muito. Encho a barriga, sem arrependimento pela abundância. De forma voluntária e plenamente consciente, entrego-me à ilusão de o mundo ser perfeito.
Uma vez, caí na asneira de corromper essa perfeição indo à missa do Galo. O sermão do padre não foi de paz e amor, mas de guerrilha. Durante uma hora serviu-se da palavra do seu Deus para atiçar a indignação e a desconfiança nos nossos corações. Jurei que nunca mais. Eu e a minha família saímos sem beijar os pés do Menino, furando a custo o exército de devotos que caminhava para o altar com as boquinhas estendidas, famintas de perdão. Fomos os únicos. Comungámos à mesa, enquanto a miudagem disputava com fervor o Rossio e a Rua Augusta em volta do tabuleiro de Monopoly, que tem mais de cinquenta anos de uso.

(votos de um Feliz Natal para todos)