9.12.16

Repouso

Branca como a cal, de joelhos trémulos, pernas incapazes, o cateter enterrado na veia, diz à cunhada, pelo telefone, das últimas novidades:
– ... então ele acusou-me "tu gostas é de hospitais" e já vinha para me bater como de costume, mas eu fiz-lhe peito.
Não é a história que me impressiona. É o modo de contar, sem peso nem gravidade, sem revolta nem comoção. Natural, como quem partilha o dia que acaba de nascer, o sol a leste condenado a pôr-se a oeste. O costume. E o costume instala-se, cava lugar, faz ninho, petrifica e, de repente, é ele a própria vida mais as suas causas e o seu destino. Na hora do balanço, alguém que se responsabilize por isso. Pode ser Deus, se assim entenderem.
– Olha, ele está a ligar-me, depois falamos.
Atende o seu homem e fala-lhe mansamente, tem na voz uma ternura habituada, um timbre de amor crónico, desse que aguenta todas as penas e dores por julgar não haver remédio ou por ver grandeza no que se constrói com sacrifício e cedência.
– Sim, estou bem, a sério.
Quando a enfermeira a vem chamar, desliga sem adeus e levanta-se. É um nico de gente de peito côncavo e mãos infantis, a pedir que a aviem depressa porque tem muito que fazer em casa. Na sala de espera, outros ficam a dormir nas macas, vejo-lhes os buracos nas solas dos sapatos, o recorte descarnado de rótulas e cotovelos, os coágulos de sangue no lençol, o rasto imundo de lágrimas já secas, o cansaço que, chegando ao limite, procura, enfim, uma cama onde se confessar. 
O hospital é o repouso dos miseráveis.