29.12.16

Rabanadas e panquecas

É com uma satisfação comovida que o senhor Pereira me diz que este ano as filhas vieram consoar e com elas trouxeram maridos e filhos. Já não me lembrava da última vez que tivemos de abrir a mesa toda. Usa as palmas das mãos para esfregar os cantos dos olhos, onde a saudade, a mágoa, a ternura, quem sabe o arrependimento, passam ao estado líquido. Vendo-o assim, fico sem palavra. Não estou habituada a que se exponha frágil, com aquele lábio trémulo e a velhice tão bem aceite e evidente nas linhas do rosto, na curva das costas, nas veias do pescoço. Este senhor Pereira é-me desconhecido. Mesmo sabendo eu que todo o Homem tem o seu avesso e que isso não deve causar estranheza a não ser a quem dá os primeiros passos na observação atenta da espécie.
Também a mim começam a humedecer os olhos, porque penso na minha sobrinha que veio de tão longe, do outro lado do mundo, só para o Natal. E parece que também se curvam as minhas costas. As filhas do senhor Pereira só vieram da freguesia ao lado, mas, enfim, há muitas formas de se medir distâncias e raramente os quilómetros servem com rigor esse propósito.
- E o seu filho? Espero que também esteja bem. - mudo de assunto porque não sei o que fazer à comoção instalada.
Ele funga e leva os olhos, bem abertos, a dar uma volta pelo horizonte. O vento seca-os e ele recompõe-se.
- Esse é que não veio este ano. Foi passar o fim de semana à terra da namorada, que por acaso fica lá para as suas bandas.
A namorada é novidade, mas não percamos tempo com o que pouco importa na história e pode até ser efémero. Ouçamos o senhor Pereira, que ainda tem muito que contar:
- Ela é de... Pena... Pana... Penelongo... ou coisa do género.
Solto o riso sem pudor, porque o senhor Pereira é das poucas pessoas que lidam bem com o meu atrevimento. Ri-se comigo.
- Não é? Diga lá, então...
- Sei lá, será Penedono?
- Olhe... é! Não é lá para os seus lados?
- Nem por isso. Penedono é distrito de Viseu.
- Vai dar no mesmo.
Ofendo-me. Empertigo-me. Transfiguro-me. 
- Não, não vai! Uma coisa é acima do rio. Outra, bem diferente, é abaixo.
Mas o senhor Pereira ignora-me, desinteressado que está em debater as geografias deste país que ele menospreza, renega e humilha em conversa de café ou sozinho, diante da televisão. A sua vontade é, afinal, falar das filhas. E agora que se endireitou novamente, recuperando a autoridade sobre as emoções, está pronto para abordar o assunto ao jeito que lhe conhecemos. 
- Aquelas duas raparigas, valha-me Deus!  Não fazem nadinha! Não sabem fazer umas rabanadas, uma aletria, umas filhós... Dá-me a impressão que nem cozer bacalhau. A mais velha meteu-se agora a estudar outra vez, julga que ainda tem idade para andar na escola...
- Escola? Universidade, presumo.
- Vai dar no mesmo.
Tudo dá no mesmo para o senhor Pereira. É a forma que tem de pedir que desvalorizem a sua ignorância.
- E a mais nova faz voluntariado nos tempos livres. 
- Isso é bom, senhor Pereira.
- Oh! Eu já lhe disse: Ana Isabel, andas a perder tempo a ajudar os outros, mas olha que se precisares ninguém vai perder tempo a ajudar-te a ti.
- Essa sua perspetiva é um bocado triste... 
- É a realidade, menina. Já cá ando há muitos anos. Sabe o que lhe digo, a si e a elas, que são da mesma idade e por isso vai dar no mesmo? Se querem chegar a algum lado, olhem em frente e sigam caminho, não se desviem por ninguém.
- Às vezes é no desvio que está o caminho, senhor Pereira.
Aposto que me vai ignorar outra vez e não me engano. Esfrega as mãos, aquece-as com sopros curtos, bate os pés no chão.
- Olhe, o que eu sei é que já não se fazem mulheres como a minha.
Falando no diabo, abre-se a janela e vem o chamamento esganiçado:
- Miro, filho, anda pra cima que fundiu uma lâmpada da casa de banho!
Antes que eu me despeça e abale, ele levanta uma sobrancelha e, a medo, pergunta:
- Diga-me uma coisa: a menina sabe fazer rabanadas, pois sabe?
- Sei fazer panquecas, mas vai dar no mesmo.