16.12.16

O barqueiro

Éramos dez ou uma dúzia, em idade de muitos sonhos e enganos. Saíamos já tarde, metíamos o pé na estrada nacional sob a mais completa escuridão, com mato de um lado e do outro, as sombras da noite encorpando monstros de braços compridos e faces terríveis. Os rapazes dividiam-se entre a dianteira, para enfrentar eventuais perigos, e a cauda, para proteger a retaguarda. Nós, as miúdas, em segurança entre uns e outros. Não havia cá exacerbação de orgulhos feministas, todas sabíamos que o corpo masculino, pese embora a pieguice com que se rende a uma vulgar constipação ou o desmaio que lhe causa um parto, tem, na maioria dos casos, forças físicas superiores. São dos homens os músculos duros e arredondados, as pernas longas e fortes, a prontidão para guerrear, o gosto por exibições de coragem. Era justo serem eles os protetores e nós as protegidas. Não que houvesse perigo real. Mas era tremendo o silêncio, escura a noite, deserto o cenário e tão fértil a nossa imaginação que pressentíamos malfeitores a saírem detrás das árvores a todo o instante e, antes de cada curva, prendíamos a respiração, fantasiando mil possibilidades. 
Sabíamos de cor o lugar onde um trilho de cabras se abria até ao rio. Descíamos enlaçados, para evitar quedas. Depois, era só gritar bem alto ó barqueiro!, ouvir o eco do chamamento a desassossegar o vale e aguardar que viesse quem havia de nos levar à outra margem. Às vezes demorava. E o medo de ali estarmos, sós e desabrigados, vulneráveis à hora do terror, tinha de ser espantado com tolices, barulho, cantoria e um ou outro beijo que só mesmo no escuro podia vencer hesitações e realizar-se, com tudo incluído. Era uma festa a chegada do barqueiro e, depois, um sossego o ranger dos seus braços de madeira, a travessia da corrente com ritmo, paciência e doçura, o murmúrio da ondulação no casco desbotado. O barqueiro dizia coisas, contava histórias e enternecia-se com a nossa juventude fácil, universitária e urbana. A meio do percurso, sobre o corte mais profundo do leito, com as margens fora do alcance, todos aconchegados numa casca de noz levada à força de pulso por um velho, sem visão a montante nem a jusante, o momento era a síntese do tempo que vivíamos: absolutamente feliz, isento de dúvidas e responsabilidades.
Na outra margem, havia uma taberna de bancos corridos onde os homens do campo viam a bola, jogavam cartas e envenenavam o sangue. Era para lá que íamos, beber sangria, dançar e falar das coisas e das causas que no nosso coração tinham urgência.
De tudo isto me lembrei por causa desta notícia. Não é o mesmo barqueiro, nem o ponto da travessia era este, nem o cais tinha tão útil estrutura, mas como a minha memória é fácil de tocar e despertar, veio dar no mesmo.